E enfim Rita Farr (April Bowlby) finalmente ganhou seu momento de glória no mais novo episódio de Patrulha do Destino. Mais uma vez, a icônica e irreverente série da DC trouxe uma subtrama que ao mesmo tempo deu continuidade à busca dos anti-heróis por Niles Caulder (Timothy Dalton) e adicionou uma narrativa metalinguística deliciosamente envolvente, ainda que tenha perdido o fio da meada por alguns momentos. Entretanto, os óbvios deslizes que já acompanham a produção desde o capítulo piloto parecem ter se fundido como parte estrutural dessa obra e agora auxiliam a reafirmar os múltiplos defeitos que nossos queridos meta-humanos carregam consigo.

Desde a primeira iteração, Jeremy Carver fez questão de trazer alguns temas sociais importantes para discussão dentro do cosmos seriado. Logo de cara, percebemos que o time que empresta seu nome ao título da produção é exilado e tratado como aberração – e talvez os protagonistas começaram a viver em paz com o rótulo que receberam, ou apenas tenham internalizado as dores de viverem alheios à nova realidade, obrigados a viver com os fantasmas de um passado remoto. E dentre eles, Rita é a que mais insiste em dizer a si mesma que está tudo bem e que seu enclausuramento forçado foi para um bem maior – para manter os outros a salvo de seu incontrolável poder.

Para aqueles que não se recordam, a personagem em questão, também conhecida como Mulher Elástica, conseguiu superar todas as nossas expectativas ao enfrentar os asseclas do Decriador e tentar salvar um jovem garoto – afastando-se de sua construção propositalmente estereotipada da mulher pin-up dos anos 1950, da famosa atriz de Hollywood que faria o que pudesse para recuperar sua fama perdida. Inclusive, tais entradas em sua “história de origem” são exploradas, ainda que brevemente, até o momento em que ela deixa que seu mortal potencial assassine um produtor machista e assediados e depois é resgatada por Niles, a quem deve sua vida. E em Doom Patrol Patrol, como ficou conhecido o novo episódio, ela retorna para sua instropecção apenas para encontrar uma grandiosa e emocionante conclusão em seu arco – que envolve a primeira Patrulha do Destino da qual conhecemos a existência.

Já sabemos que a série é perscrutada por um anacronismo nada convencional que dá a cada uma de suas personas uma espécie de “vida eterna”. Afinal, os membros da nova equipe datam de praticamente todas as décadas do século passado e parecem não ter envelhecido nem um pouco – parte devido aos poderes que adquiriram, parte graças à obscura e descontruída mente de Carver que não se prende às generalizações da verossimilhança para entregar a seu público histórias interessantes e tragicômicas. Porém, a inexorabilidade do tempo, de forma paradoxal, é a base para que a narrativa se desenrole nesta semana – e associa-se com as habilidades manipuladoras e psicóticas do Sr. Ninguém (Alan Tudyk).

Jane (Diane Guerrero) que, embebida pela personalidade sedutora e persuasiva da Dra. Harrison no capítulo anterior, acabou criando uma relação inesperada com o personagem de Tudyk e foi incitada a procurar a Patrulha original. Acontece que a busca por essas famosas pessoas de uma época que já deixou de existir também cruzaram caminho com Niles na primeira tentativa de derrotar o ardiloso antagonista – em uma sequência hilária e petulante que envolve um balão em forma de nádegas e uma loucura generalizada. A quebra na expectativa reside no modo como os narradores tratam a cena, em solilóquios dramáticos e cheios de angústia que definitivamente não conversam com aquilo a que somos apresentados e aumentam a identidade rebelde do show.

Entretanto, essa sagaz brincadeira tragicômica logo é abandonada e, em um piscar de olhos, adentramos um lugar que parece ter saído dos obscuros confins de Silent Hill. Acontece que o trio de heróis original, formado por Mento (Will Kempo), líder e ex-amante de Rita com habilidades telepáticas, Arani (Jasmine Kaur), uma habilidosa meta-humana que conjura gelo e fogo ao mesmo tempo, e Rhea (Lesa Wilson), dotada de poderes eletromagnéticos, não existem mais; quer dizer, eles até existem, mas perderam o sentido de suas vidas ao enfrentarem Sr. Ninguém e perderem a batalha, fadados a duvidar de suas próprias capacidades e a se contentar com ilusões para não padecerem com tanto sofrimento. Em suma, eles também permanecem presos em uma espécie de instituição para ex-heróis, aguardando que a morte lhes leve para um lugar melhor e mais feliz.

De certa forma, esse cárcere forçado se conecta com o arco de Rita de modo fluido e natural – todavia, diferente do cruel destino dos nomes supracitados, ela ainda tem a chance de sair de sua bolha e postar-se como a heroína que pode ser, afastando-se de uma vitimização compulsória e erguendo a cabeça para enfrentar seus problemas. Em certo momento, a tensa atmosfera e o desenlace pungente se chocam com eventos excessivamente exagerados, o que desmantela o ritmo do episódio por alguns minutos até reencontrar seu caminho e uma conclusão um tanto quanto forçada e desnecessária, mas que, na completude da iteração, é funcional.

Carver talvez deva dar um pouco mais de atenção a uma possível mudança de pano de fundo, visto que a busca por Niles Caulder já exala uma certa saturação. Não obstante, Patrulha do Destino retorna com mais um ótimo capítulo em que até os deslizes mais gritantes são ofuscados por opções estéticas e cênicas on point e aprazíveis.

Patrulha do Destino – 01×06: Doom Patrol Patrol (Doom Patrol, 2019 – EUA)

Criado por: Jeremy Carver
Direção: Christopher Manley
Roteiro: Tamara Becher-Wilkison, baseado nos personagens de Arnold Drake, Bob Haney, Bruno Premiani
Elenco: Diane Guerrero, April Bowlby, Alan Tudyk, Matt Bomer, Brendan Fraser, Joivan Wade, Will Kempo, Jasmine Kaur, Lesa Wilson
Emissora: DC Universe
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 57 minutos