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Após um mediano episódio na semana passada, Patrulha do Destino teve uma grandiosa percepção de si mesma e mergulhou em uma renovação bastante bem-vinda. Resgatando a bizarrice identitária de seus primeiros episódios, a série abandonou alguns maniqueísmos narrativos excessivos – incluindo a busca interminável por Niles Caulder (Timothy Dalton) – e nos apresentou a um tour-de-force deliciosamente envolvente e que retorna a um incrível ápice cênico. Jeremy Carver não apenas reencontrou-se ao lado de sua equipe narrativa, mas também ousa em âmbitos imagéticos e estéticos que nos jogam em um drama familiar-social mimético a clássicos da indústria hollywoodiana, desde documentários como Paris Is Burning até romcoms da década de 1990 (como aqueles protagonizados por Julia Roberts).

Danny Patrol, nome do oitavo capítulo, começa com uma gigantesca crítica que não se importa em ser sutil, mas sim em deixar bem claro a mensagem que deseja passar ao público: nesse breve prólogo, somos apresentados ao Bureau of Normalysm (Departamento de Normalismo, em tradução livre), destinado a varrer da face da Terra qualquer “anormalidade” – e por anormalidade, leia-se qualquer um que fuja aos padrões impostos pela sociedade: LGBTs, góticos, “anomalias” sobrenaturais, super-heróis e marginalizados. É nesse contexto que insurge Danny, a Rua, um personagem multifacetado que se porta justamente como pensamos: ele (ou ela) é uma avenida repleta de vários estabelecimentos e que se tornou famosa por servir como refúgio para as minorias supracitadas. Não é à toa que essa criatura tenha chamado a atenção de grupos radicalistas que têm como único objetivo exterminar os que fogem da normalidade.

Eventualmente, Danny cruza caminho com dois dos nossos conhecidos anti-heróis, Cyborg (Joivan Wade) e Larry (Matt Bomer). A dupla, ainda em busca de Niles, viajam até esse lugar apenas para se depararem com um pano de fundo medonho: a outrora “vila”, por assim dizer, agora padece em um pânico generalizado que teme a chegada do próprio Bureau para acabar com seus habitantes ou até mesmo do temível Sr. Ninguém (Alan Tudyk), um dos seres mais poderosos das múltiplas dimensões que compõe o universo. É aqui que o ex-agente do departamento supracitado, Morris (Alan Mingo Jr.), encontra sua verdadeira identidade na drag queen Maura Lee Karupt, cujo próprio nome é composto por um didatismo interessante. Ela é a própria representação dos sonhos perdidos que nunca são tarde demais para serem recuperados – não é à toa que encontra sua real vocação para ser uma hostess de um clube de performers transformistas e sente-se feliz todos os dias.

Carver encontra um terreno fértil para explorar diversas composições originais, incluindo transformar Danny em uma força eletrônica e cósmica que se comunica através de letreiros clássicos que nos lançam de volta para os anos 1950. Aliás, a série em si é construída nos dias atuais, porém emula um passado não tão remoto que insiste em influenciar obras contemporâneas. Não é surpresa que a própria estilização dessa criatura intocável é tão mimética que nos envolve de modo imediato e quebra a padronização melodramática dos capítulos anteriores proposital e anacronicamente.

E, para completar essa clara homenagem, Jane (Diane Guerrero), que em Therapy Patrol protagonizou uma tensa sequência junto a Cliff (Brendan Fraser), dá espaço para a insurgência de uma nova e inexplicável personalidade, a psicótica Karen. Ela é praticamente um estereótipo arrancado das comédias românticas das décadas passadas que insiste em entregar-se além do necessário para um homem chamado Doug (Brent Bailey). Ambos têm uma hilária história que os acompanha desde sempre: Karen dá as caras em situações de grande carga emocional e permanece apenas por um tempo, correndo de volta para os braços de Doug e conseguindo convencê-lo de que um pertence ao outro – e não é por menos, visto que seu poder é hipnotizar e intervir no livre-arbítrio de outrem.

As coisas ficam ainda mais engraçadas quando Hammerhead, outro dos 64 alter-egos que fazem parte do conturbado consciente, consegue gritar por socorro para Rita (April Bowlby) de seu “delicado” modo. O conflito entre Karen e Hammerhead é icônico e ajuda a materializar uma das cenas mais surpreendentes da primeira temporada, envolvendo um casamento e uma iminente ameaça de morte – talvez só não chegue aos pés do momento em que Maura Lee enfrenta seus inimigos com a cabeça erguida e tudo o que aprendeu na academia. E é através dessas inesperadas histórias que o episódio em questão trata de temas delicados de autoconhecimento e autossabotagem de forma intrigante, estranho e até mesmo diabólico – reassumindo o que nos encantou algumas semanas atrás com o piloto.

Patrulha do Destino parece finalmente ter acertado seu tom, abandonando o estilo puramente filler e alguns excessos cênicos em prol de manter seu público fiel com revigoramentos aplaudíveis e um cliffhanger que consegue ao mesmo tempo esperar para uma aguardada continuidade e finalizar um arco há muito discutido – e que poderia ter fadado às ruínas do convencionalismo.

Patrulha do Destino – 01×08: Danny Patrol (Doom Patrol, 2019 – EUA)

Criado por: Jeremy Carver
Direção: Dermontt Downs
Roteiro: Tom Farrell, baseado nos personagens de Arnold Drake, Bob Haney, Bruno Premiani
Elenco: Diane Guerrero, April Bowlby, Alan Tudyk, Matt Bomer, Brendan Fraser, Joivan Wade, Will Kempo, Jasmine Kaur, Lesa Wilson
Emissora: DC Universe
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 52 minutos

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