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Retomando textos passados, é sempre bom frisar que Patrulha do Destino é uma série única, divergente dos costumeiros dramas de super-heróis que permeiam a televisão contemporânea. Partindo desse princípio, é um pouco assustador quando a obra criada por Jeremy Carver resolve se restringir e se limitar aos convencionalismos do gênero, permanecendo numa zona conhecida em detrimento de algo original – e é justamente o que resolveu fazer no mais novo episódio, intitulado Jane Patrol. Na mais nova subtrama que se abre, continuamos nossa jornada pela conturbada construção de Crazy Jane (Diane Guerrero), que esbarra em uma espécie de letargia psicótica depois que Karen, um de seus alter-egos, dá as caras e quase destrói a sua vida ao seguir seu sonho estagnado de viver em uma comédia romântica dos anos 1990.

No nono capítulo, Jane é levada às pressas para o laboratório da mansão de Niles Caulder (Timothy Dalton), que inclusive perde um pouco de seu protagonismo e cultiva um terreno propício para que os holofotes se voltem ao time de anti-heróis. A personagem em questão, agora, está confinada em seu subconsciente e deve lidar com todas as outras personalidades que habitam o Subsolo (Underground, no original), lar de 64 construções distintas, cada qual com seu respectivo poder. Karen é imediatamente encarcerada por Hammerhead por ter chegado muito perto de desconstruir tudo o que haviam conseguido até agora, sendo jogada numa prisão dentro de outra prisão, condenada a ficar por lá o resto de seus dias – se é que isso é possível.

Em outra perspectiva, a própria Jane, cuja personalidade é-nos informada como primária em comparação com as dezenas de outras que compartilham o mesmo lar, se vê cansada de ficar em uma cíclica rotação com personas tão fortes e amarguradas como Polly, Lucy, Kay e Silver Tongue. E, em seu caminho para retornar à superfície, ela cruza caminho com Driver 8, responsável por cuidar do trem mental que cuida da conexão entre o Subsolo e a realidade como qual a conhecemos. Driver 8 inclusive a ajuda a “tirar um tempo para si”, mergulhando o receptáculo de carne e osso em um proposital vazio – refletido, por exemplo, pelos olhos sem expressão que Guerrero nos apresenta, pela constante escuridão e pelo medo que nutre ao que está por vir.

A narrativa em questão é centrada em Jane, obviamente. E permaneceria em sua epopeia tour-de-force com um fim bastante premeditado caso Cliff (Brendan Fraser) não resolvesse interferir no destino que sua amiga deseja dar a si própria. Afinal, ele se sente responsável por tê-la levado ao limite e, com a ajuda da força cósmica que habita Larry (Matt Bomer), ele é transportado, em uma perspectiva metafísica, para a mente dela. A junção dos dois protagonistas havia sido preconizada desde a iteração-piloto, visto que ambos construíram esse precário e quase abusivo relacionamento baseado em traumas e fantasmas do passado – entradas que, aqui, ganham uma palpabilidade assustadora.

A dupla não aceita quem realmente são. Tal ideia serve de força-motriz para que ambos explorem o mais fundo que conseguem, ultrapassando obstáculos a priori intransponíveis e chegando a uma epifania clássica, beirando o platônico. Jane resolve consultar às criaturas que habitam as profundezas obscuras de suas memórias, guardando em uma caixinha eventos remotos que a moldaram, como os abusos que o pai infligia-lhe quando criança, sua batalha contra a autossabotagem, e até mesmo o tempo que passou no hospital psiquiátrico, sendo vítima das torturas mais desumanas possíveis – que também já foram esclarecidos em episódios anteriores. Não é surpresa que ela, pois, queira acabar com o sofrimento, deixando-se ser consumida pelo Poço, um lugar que literalmente tem a capacidade de exterminar seus múltiplos alter-egos.

A grande revelação vem de modo bastante sutil: acontece que Jane nem sempre foi Jane, e sim Miranda, uma outra personalidade primária que não aguentou as pressões de seu cotidiano e se atirou no Poço, acabando com suas próprias memórias e criando um espaço obscuro e temível dentro de seu subconsciente. Em outras palavras, o indivíduo em questão morreu para renascer de novo, para abrir portas a outra líder que sustentasse o equilíbrio entre as outras figuras – e que, agora, enfrente o mesmo perigoso apetite por encontrar a paz e se livrar do fardo que carrega há bastante tempo.

É interessante também observar de que como Carver e sua equipe criativa arquitetam uma atmosfera sádica, muito diferente do cotidiano realístico no qual a Patrulha vive. O Subsolo é um lugar decrépito, decadente, abraçado por uma tênue mortalidade respaldada por uma luminosidade ocre e infernal. A máxima “o inferno somos nós” é recebida de braços abertos, seja nos túneis obscuros e pichados que conectam as várias facetas de Jane, seja nas ambientações mnemônicas que, volta e meia, insistem em persegui-la.

Patrulha do Destino encontra o inesperado no esperado e alça voo em mais um capítulo envolvente e satisfatório, no qual as explícitas bizarrices, na verdade, são colocadas nas composições imagéticas ao invés de adornarem a narrativa principal. E, ainda que enxerguemos essa nova história como um filler, diferente de outras iterações que seguiram o mesmo passado, Jane Patrol é necessário e contribui para compreendermos a relação macrocósmica que a própria série insiste em seguir.

Patrulha do Destino – 01×09: Jane Patrol (Doom Patrol, 2019 – EUA)

Criado por: Jeremy Carver
Direção: Harry Jierjian
Roteiro: Marcus Dalzine, baseado nos personagens de Arnold Drake, Bob Haney, Bruno Premiani
Elenco: Diane Guerrero, April Bowlby, Alan Tudyk, Matt Bomer, Brendan Fraser, Joivan Wade, Will Kempo, Jasmine Kaur, Lesa Wilson
Emissora: DC Universe
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 45 minutos

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