Patrulha do Destino se aproxima gradativamente do aguardado season finale e, apesar de ter perdido um pouco o fio da meada algumas semanas atrás, constrói uma efervescente atmosfera que nos carregou através de viradas incríveis e revelações estupendas sobre alguns dos personagens mais excepcionais dos quadrinhos e da indústria audiovisual. Porém, é inegável dizer que a série arquitetada por Jeremy Carver traz alguns elementos próprios de um classicismo narrativo que até hoje é reutilizado por diversos showrunners – e aqui, faço questão de citar a jornada do herói e um grande respaldo em histórias da década de 1950 que foram reinventadas das mais variadas formas nos dias de hoje. É justamente por aí que Carver reúne sua equipe criativa e entrega ao público mais um episódio aplaudível.

Para aqueles que não se recordam, Cyborg (Joivan Wade), nos momentos finais do capítulo anterior, foi capturado pelo Bureau of Normalcy (Bureau de Normalidade, em tradução livre) e encarcerado em uma minúscula jaula para sofrer o mesmo destino que seus conterrâneos “anormais”: ser estudado e, eventualmente, exterminado por fugir dos execráveis padrões impostos pela sociedade. Entretanto, não pense que essas críticas são jogadas profusamente, preferindo fundir-se a uma jornada epopeica de resgate que emula a diversas obras heroicas já adaptadas para a televisão – com uma perspectiva única e própria das produções da DC.

Após se salvar das garras do Bureau, Jane (Diane Guerrero) convoca uma reunião extraordinária com os outros moradores da Mansão, dizendo que Vic foi sequestrado e que eles precisam arquitetar um plano para tirá-lo de lá e trazê-lo são e salvo para casa. O interessante é que nem um deles tem a mínima ideia do que faz, ainda mais considerando que ninguém se enxerga como super-herói, e sim como uma escória humana marginalizada e restringida a um seguro cosmos que agora é ameaçado pelas mais diversas formas. Aliás, a única persona que abria espaço para que cada um se sentisse um pouco mais especial era Cyborg, e agora ele não está lá para ajudá-lo.

Carver sempre fez questão de trazer em cada uma das investidas cênicas um tema em específico, travestindo a trama principal em pequenas articulações sobre as fragilidades de seus personagens. Jane, por exemplo, ganhou uma profundidade muito mais complexa do que já havia nos apresentado no momento em que visitamos seu subconsciente, um lugar sombrio povoado por sessenta e quatro personalidades completamente distintas entre si. Larry (Matt Bomer), por sua vez, lida noite após noite com pesadelos que o jogam de volta a um passado marcado por traumas e complicados arrependimentos. Agora, chegou a vez de Vic mergulhar em uma escuridão assustadora que abre margens para que chegue ao limite de sua sanidade.

Para que seja resgatado, a equipe contará com uma ajuda inesperada: Silas Stone (Phil Morris). É claro que sua chegada é recebida com receio pela maior parte do time, devido à sua história com o filho – e dado o fato de ninguém confiar nele. Entretanto, ele é o único que sabe como entrar na Fazenda de Formigas (facilidade responsável por manter as “aberrações” presas) e sair de lá com vida. Os problemas, todavia, aparecem quando Silas aparentemente os trai, deixando-os ser levados pelos cientistas em troca de ver uma última vez o rosto de Vic. É aqui que o roteiro assinado por Shoshana Sachi se delineia com viradas nostálgicas e surpreendentes que nos transportam para os primeiros anos da década de 2000 – talvez até mesmo antes.

O arco de cada uma das personagens recebe uma estruturação concisa, mantendo-se sólida conforme segue para o trágico e emocionante final. O showrunner prova aqui que é adepto a fazer sacrifícios necessários para a continuidade da sua obra – muito bem-vindos, por sinal, visto que já faz algum tempo desde a catarse dramática deu suas caras na série. É por essa razão que Cyborg enfrenta seu pai em um acesso de raiva, culminando em uma agonizante morte. A princípio, não conseguimos entender por que diabos Vic faria uma coisa dessas, considerando que sempre se postou como o mais equilibrado do grupo. Mas então, num plot twist sensacional, o temível Mr. Nobody (Alan Tudyk) retorna para aumentar seu reino de caos e “ver o circo pegar fogo”.

É difícil não se sentir desconfortável com o que o novo episódio nos entrega – e não digo isso com carga pejorativa, muito pelo contrário: apesar dos momentos de descontração próprios da identidade imagética e narrativa do show, como as sequências protagonizadas por Cliff (Brendan Fraser) e Rita (April Bowlby) – divindo dividem nosso foco e nossas risadas quando Karen, um dos alter-egos de Jane, vem à tona para salvá-la de uma possível sessão de tortura -, não podemos deixar de notar que a subtrama em questão caminha para um desfecho melopeico, preconizado até mesmo pelo olhar de Silas durante o capítulo.

Patrulha do Destino nos entrega mais uma memorável iteração e é quase imaginar que outras ideias Carver poderá trazer para as telinhas para se manter nesse aplaudível patamar. Ainda que não possamos pensar em nada por enquanto, mas não duvidamos das incríveis habilidades de nossa querida equipe em nos manter vidrados até os segundos finais de cada uma dessas histórias.

Patrulha do Destino – 01×12: Cyborg Patrol (Doom Patrol, 2019 – EUA)

Criado por: Jeremy Carver
Direção: Carol Banker
Roteiro: Shoshana Sachi baseado nos personagens de Arnold Drake, Bob Haney, Bruno Premiani
Elenco: Diane Guerrero, April Bowlby, Alan Tudyk, Matt Bomer, Brendan Fraser, Joivan Wade, Will Kempo, Jasmine Kaur, Lesa Wilson, Phil Morris
Emissora: DC Universe
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 45 minutos

Comente!