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Desde o primeiro episódio, Patrulha do Destino prometeu nos entregar uma série diferente de todas as outras. E, sem sombra de dúvida, alcançou seu objetivo das formas mais inesperadas possíveis, unindo em um único lugar o melhor da comédia, do bizarro, do autoexplicativo e, obviamente, das narrativas super-heroicas que ganharam o cinema e a televisão nas últimas décadas. Logo, era quase automático esperarmos que a trama principal caminhasse para um épico season finale – e foi o que recebemos: os dois últimos capítulos da primeira temporada, funcionando entre si como relações de causa e consequência, finalizaram uma das epopeias mais irreverentes da televisão contemporânea e, ao mesmo tempo, prepararam o terreno para um já aguardado segundo ano.

Para aqueles que não se recordam, o time que empresta seu nome ao título da produção resgatou das amarras da Fazenda de Formiga o último elemento necessário para ajuda-los a encontrar Niles Caulder (Timothy Dalton). O herói, que há muito perdera sua essência benévola e transformara-se em um aparato amorfo sem qualquer motivação aparente, era conhecido em seus dias de glória como o maravilhoso Flex Mentallo (Devan Long) e entrou em um compulsório arco de sacrifício para recuperar sua personalidade. Apenas desse modo, Flex e o restante da equipe se reuniram com um dos personagens mais adoráveis desse novo panteão – Danny, a Rua -, e deram início à última luta contra Sr. Ninguém (Alan Tudyk).

Conforme a iteração se desenrola, percebemos que o criador Jeremy Carver não perde suas habilidades obscuras e segura os clímaces até os segundos finais. Afinal, é de costume que, partindo de uma perspectiva dramática, revelações de cunho quase metafísico se restrinjam ao momento em que os personagens principais, os quais julgávamos ter uma tendência heroica e altruísta, revelam ser o exato oposto – e vice-versa. Porém, isso parte exclusivamente de Niles, que mergulha em um arco de redenção às avessas, proferindo uma dura verdade que muda a organicidade de cada um de seus protegidos. Acontece que o Chefe foi responsável por transformar para sempre a vida de suas “cobaias”; em outras palavras, ele e seus asseclas engolfaram Larry (Matt Bomer) em uma fusão com a força cósmica que habita seu corpo; eles arquitetaram o acidente que destruiu a vida de Cliff (Brendan Fraser) e sua esposa; eles entregaram de bandeja Jane (Diane Guerrero) para uma instituição psiquiátrica, deixando que fosse torturada ao extremo até entrar em sintonia com cada uma de suas 64 personalidades.

É claro que essa revelação já fazia parte dos planos sombrios e deturpados do Sr. Ninguém. O antagonista da nossa história permanece em seu desejo megalômano de dominar o mundo, mas primeiro precisava que os obstáculos em seu caminho se libertassem de suas crenças e traçassem seus próprios caminhos, deixando Niles abandonado. Não é surpresa que cada um deles destrua a si próprio sem qualquer guia para orientá-los: Rita (April Bowlby), por exemplo, tenta voltar aos seus dias de glória ao ensinar artes teatrais para adolescentes, e falha miseravelmente; Vic (Joivan Wade), após perceber que seu pai não lhe fez nada além de criar mentiras sobre a morte de sua mãe e sobre seu passado, parte em uma jornada para encontrar a si mesmo; e Jane resolve colocar a si mesma numa inebriante calmaria que inibe todos os incontroláveis alter-egos que habitam sua mente.

Carver delineia um panorama ambíguo e paradoxal que nos lidera direto para uma proposital conclusão precipitada – quer dizer, até que o real jogo comece. O mais interessante, talvez, seja como o showrunner, que fica responsável também pelo roteiro, abraça com toda a cautela a bizarrice e o non-sense para comandar o prenúncio do apocalipse – materializado pelo solilóquio de um pequeno e a priori inofensivo personagem, Ezequiel. Ezequiel é a pomposa e vibrante barata que volta e meia aparece em cena para nos atormentar com discursos prontos sobre a força de sua raça e como ele, em específico, deve ser o arauto de toda e qualquer destruição.

E isso não é tudo: após adquirir uma dimensão literalmente gigantesca, ele se une com o pequeno ratinho que resolveu se vingar da precoce morte da mãe para destruir Danny, a Rua, e fincar seu mortal estandarte para o desesperador futuro que aguarda cada ser humano da Terra – roubando todo o poder do Sr. Ninguém e obrigando-o a trabalhar com a Patrulha para salvar a si mesmo. De forma irônica, a presença onisciente desse complexo personagem é varrida da existência após perceber que caiu nas armadilhas de Niles e de sua trupe uma última vez.

É um fato dizer que os dois últimos episódios trazem consigo uma carga circense e mirabolante travestida de um tour-de-force expressivamente chocante. Apesar das estranhezas serem a força-motriz da narrativa, é quase impossível tirar os olhos da tela, mergulhando cada vez mais fundo em uma epopeica aventura. É claro que, à medida que os minutos finais se estendem em uma breve conclusão à la contos-de-fada, não podemos deixar de sentir um gostinho agridoce pela maneira acelerada como as coisas terminaram, ainda que a trama tenha feito bom uso de seus personagens. Mesmo assim, os ínfimos deslizes não são suficientes para desconstruir a identidade da série e jogar o que foi nos apresentado até agora no lixo.

A primeira temporada de Patrulha do Destino carrega uma estética híbrida entre os épicos heroicos da televisão contemporânea e as comédias autoexplicativas, dando vida, como já dito em tantos textos anteriores, a algo único que sem sombra de dúvida nos cativou. O season finale deu fim ao ciclo inicial dessa nova investida da DC, mas promete ir muito mais além em seu próximo ano.

Patrulha do Destino – 01×14: Penultimate Patrol /01×15: Ezequiel Patrol (Doom Patrol, 2019 – EUA)

Criado por: Jeremy Carver
Direção: Rebecca Rodriguez
Roteiro: Jeremy Carver, baseado nos personagens de Arnold Drake, Bob Haney, Bruno Premiani
Elenco: Diane Guerrero, April Bowlby, Alan Tudyk, Matt Bomer, Brendan Fraser, Joivan Wade, Will Kempo, Devan Long, Haley Strode
Emissora: DC Universe
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 51 minutos

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