nota-4

Depois de um inexplicável e angustiante hiatus de três semanas, Scream Queens retornou à sua programação normal e parece ter feito bom proveito destas férias não planejadas para rever alguns conceitos de narrativa e nos entregar um ótimo episódio nessa última semana, intitulado Chanel Pour Homme-Icide.

Para aqueles que não se lembram, as coisas ficaram um tanto quanto sangrentas no capítulo anterior. Denise Hemphill (Niecy Nash) e Chanel #5 (Abigail Breslin) tiveram seu encontro brutal com o assassino – agora apelidado de Green Meanie (Demônio Verde, na tradução brasileira) -, e tudo indicava que os nossos dois alívios cômicos da série haviam sido eliminados sumariamente. Mas Ryan Murphy é fã de viradas inesperadas e quando a dupla atacada é finalmente encontrada pelas outras personagens – Kathy Munsch (Jamie Lee Curtis), Chanel Oberlin (Emma Roberts), Chanel #3 (Billie Lourd) e Zayday Williams (Keke Palmer) -, descobrimos que Chanel #5 ainda permaneceu viva, ainda que com sequelas, e a oficial do FBI entrou em coma após ser eletrocutada com uma máquina de ECG.

Munsch e Zayday, pois, decidem colocá-la numa cápsula de criogênio que magicamente surgiu nos porões abandonados do complexo hospitalar, mantendo-a em preservação até que alguém miraculosamente encontre uma cura para o que ela tem. Mas as complicações não acabam por aqui: como também vimos há algumas semanas, Hester (Lea Michele) foi trazida do manicômio para o hospital e foi solta por algumas horas com a condição de que ajudasse os alvos do serial killer a pegá-lo. Entretanto, ela foi uma das protagonistas no homicídio de Denise e depois simplesmente desapareceu, deixando absolutamente nenhum rastro. E para completar, todos os pacientes que estavam lá na última noite – referências escrachadas ao musical Hamilton – foram eliminados de forma literalmente visceral. Obviamente, todos pensamos que este seria o fim do novo empreendedorismo da ex-reitora, que agora deveria chamar a polícia para lidar com uma força incontrolável e mortal.

Mas o absurdo corre solto em Scream Queens, e a má publicidade que o C.U.R.E. recebeu pela imprensa – uma alusão muito bem encaixada à polêmica que o remake de Caça-Fantasmas causou há alguns meses – foi tamanha que o hospital começou a receber as doenças mais raras a serem tratados pela equipe limitada no tocante a quantidade. Não é de se esperar que a movimentação atraia a atenção do assassino. E todos esses acontecimentos se desenrolaram bem na volta da Dra. Hoffel (Kirstie Alley), a qual havia sido varrida para debaixo do tapete por um tempo e que simboliza o arquétipo do conservadorismo exacerbado, condenando a mísera existência de Chanel e suas “minions” em âmbito hospitalar.

Em Chanel Pour Homme-Icide, tensões construídas desde o episódio de estreia afloram de forma espetacular. Hoffel e Munsch, cuja antipatia já dava indícios de existir há bastante tempo, entram num diálogo existencialista tragicômico que coloca em cheque o próprio papel da ex-reitora: ora, como alguém que ingere carne humana num ritual canibalístico tem sanidade o suficiente para comandar um hospital? Ameaças são feitas, e Hoffel torna-se a vitoriosa – ao menos por enquanto. Pela primeira vez, alguém com a personalidade tão evasiva quanto a protagonista da temporada anterior conseguiu deixá-la sem o que dizer.

Ao contrário dos capítulos anteriores, a direção de Barbara Brown mostra-se mais contida. Os planos antes harmonizados entre holandeses e big close-ups mantém-se às escondidas e dão lugar para uma racionalidade exacerbada que a princípio não combina com o estilo da série, mas depois é justificada: afinal, Chanel #5 e Zayday parecem ter se unido para dar continuidade às investigações sobre quem pode ser o assassino desta vez. Trilhando a mesma linha que antes, o bebê do homem morto no antigo hospital – Nossa Senhora de Todas as Lamentações – por negligência médica pode ter retornado para concluir sua vingança. E agora que se tem ciência de quem é a mãe, tudo fica um pouco mais fácil. Ela está viva, então tudo o que elas devem fazer é interrogá-la. As premissas lógicas são interligadas com a simetria dos enquadramentos e com o ritmo agitado dos diálogos e da ascendência para o clímax.

O ponto forte deste episódio fica com o roteiro de Ian Brennan, um dos grandes parceiros de Murphy. Já sabemos que Scream Queens utiliza os clichês a seu favor, mas esta é a primeira vez em que as personagens têm total consciência desta metalinguagem e mergulham de pura e espontânea vontade num ciclo mortal para pegar o serial killer – ou ao menos desviar seu alvo: Chanel, com a ajuda de Munsch, “contrata” novas seguidoras fanáticas – desta vez pacientes do C.U.R.E. – para ajudá-las com os trabalhos mais árduos, por assim dizer, mas com o objetivo de conseguir mais vítima secundárias. Hester inclusive vai morar na casa das Chanels e diz em dado momento que há regras a serem seguidas – ainda que ela poderia dizer-lhes a real identidade do assassino. A consciência aqui é capaz de atingir níveis absurdos: elas adotam as características dos filmes de terror, pincelando-os com ironia e sarcasmo, e os reafirmam com orgulho.

Infelizmente, nem tudo são flores, e o episódio peca aqui na comédia: uma das pacientes sofre de uma doença inominável cuja principal característica é mudar sua forma de falar, ou seja, ela pronuncia cada frase com um sotaque diferente. Não sou capaz de afirmar se essa desinência mental existe, mas o modo como ela é tratada poderia ter sido melhor aproveitada. Em vez do escape de toda a tensão, sentimos que essas cenas estão apenas jogadas para cobrir espaço e garantir que os quarenta e dois minutos fechassem um ciclo. Talvez se esse fator se restringisse a uma subtrama mais fechada e não roubasse o foco dos arcos principais, a harmonia tivesse sido maior.

Chanel Pour Homme-Icide é um ótimo retorno à forma para a série depois de um tempo sem dar as caras. Apesar dos deslizes, a segunda temporada de Scream Queens tem total noção de sua identidade e caminha para um clímax cujas proporções são inimagináveis.

Comente!