nota-2

Nessa última semana, Scream Queens nos presenteou com uma digressão inesperada e com algumas verdades assustadoras sobre algumas pontas soltas em sua temporada de estreia, além de finalmente contar ao público a identidade do terceiro e último assassino. Ainda assim, não consigo deixar de sentir que a série está a ir por água abaixo num ritmo assustador e completamente frenético, sem qualquer balanço entre comédia, drama e terror.

No oitavo episódio, intitulado Rapunzel, Rapunzel, o C.U.R.E. recebe um novo paciente que é ninguém mais, ninguém menos que Wes Gardner (Oliver Hudson), um rosto bem familiar do primeiro ano da série. Para aqueles que não se recordam, Gardner é pai de Grace (Skyler Samuels), uma das novas calouras da Kappa Kappa Tau. Aparentemente, ele aparece no hospital com um tumor gigantesco no estômago, mas sua prioridade é reconquistar a ex-reitora Munsch (Jamie Lee Curtis).

Prioridades muito mal definidas, para falar a verdade. Mas vou tentar explicar aqui. Acontece que Wes e Kathy tiveram um caso romântico de curta duração após os eventos da fraternidade chegarem a um fim. Enquanto o campus era fechado e a reitora deposta de seu cargo, ambos fugiram para o meio de um retiro espiritual natural, onde permaneceram longe de qualquer sinal de civilização. Grace até foi varrida para debaixo do tapete e ignorada pelo próprio pai durante bastante tempo. A utilização de cenas em flashback foi uma jogada interessante – já não víamos essa estética há alguns episódios -, mas sua resolução deixa a desejar. Afinal, após uma crise de ciúmes do Dr. Holt (John Stamos), o qual ainda demonstra sentimentos pela diretora, mesmo construindo um arco pseudo-romântico com Chanel (Emma Roberts), Munsch decide ficar com seu antigo parceiro, recriando algumas microssequências de longas bem conhecidos como Beleza Americana, mas sem qualquer indício de química.

Enquanto isso, Ryan Murphy continua apostando na exploração das subtramas românticas. E posso dizer com toda convicção que, depois de sete episódios, essa decisão não poderia ter vindo em pior hora. Primeiramente, temos três antagonistas principais, dentre os quais o terceiro foi revelado em Rapunzel, Rapunzel, o que traz uma sensação de estofamento desnecessário. Se as coisas se confundiam com apenas dois serial killers na temporada anterior, imagine agora! A condensação destes personagens alcançou níveis extremos e que impossibilitaram a construção completa de suas personalidades. Holt, Cascade (Taylor Lautner) e Hoffel (Kirstie Alley) poderiam muito bem ser as melhores dúvidas deste ano, mas em vez disso caíram nos próprios clichês que tanto contribuíram para a identidade da série e se tornaram unidimensionais e monótonos.

De qualquer forma, alguma coisa boa deve sair disso. No caso, com as cenas cômicas e escrachadas entre Holt e Chanel, a qual, aconselhada por Hester (Lea Michele), prepara uma festa temática dos anos 1950, claramente se confundindo com a idade de seu amante, com suas “minions”. O resultado não poderia ser outro: a absurdidade é tamanha que não podemos evitar de rir com as tentativas medíocres da protagonista em conquistar o suposto “homem da sua vida”. Tudo é construído de forma milimetricamente a casar com o teor satírico da vida, mas aqui a identidade se afasta da ironia quanto a filmes de terror e move-se para as comédias românticas impossíveis.

Este talvez tenha sido um dos poucos pontos positivos de um episódio medíocre e sem qualquer expectativa futura. Outro fator que se desenrolou de forma satisfatória foi a firme direção de Curtis, primeiro trabalho da atriz como diretora. Em vez de se basear nos planos angustiantes utilizados em outros episódios, preferiu manter um foco mais perto do real e do verossímil, aproximando o público ainda mais da série e permitindo uma conexão interessante entre os próprios personagens. Nos últimos capítulos, essas relações haviam se perdido, deixando os protagonistas perdidos pelos longos e límpidos corredores.

Mas o que está acontecendo com esta temporada? Bem, além das diversas subtramas desnecessárias, o problema está na construção dos personagens. Em franquias como Pânico – ou até na série originada destes filmes, Scream -, o papel do assassino é elevado a um patamar metalinguístico cujos diálogos bem elaborados permite ao público criar uma relação de afeto até com o menos aparente dos personagens. No primeiro volume da franquia supracitada, a presença de Drew Barrymore é quase ínfima, mas sua arquitetura foi tão bem pensada que transformou a cena em um dos ícones do terror, recriada e relida das formas mais esgotáveis possíveis. Aqui, essa preocupação não existe: o trash e o gore sucumbem à superficialidade das personagens e em nenhum momento conseguimos sentir qualquer empatia ou compaixão por aqueles que morrem.

A partir do quinto episódio, intitulado Chanel Pour Homme-Icide, a ideia foi contratar mais e mais atores secundários para serem alvos dos serial killers, o que veio primeiramente como uma autoconsciência da própria série, mas que se mostrou desperdiçada em sua completude. Seu potencial não foi explorado, e a eliminação sumária de coadjuvantes começou a se tornar repetitiva e apática.

Mesmo com todos esses defeitos, alguns pontos de luz ainda brilham no abismo da mediocridade. Espero, como sempre, que a série reencontre sua identidade e sua linha narrativa – nem que seja para acabar de vez com as malditas Chanels.