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Crítica | Soul – Celebrando a Vida

De alguma forma, os estúdios Pixar nutrem de uma originalidade narrativa que não é vista em nenhuma outra grande companhia ocidental. Desde seu surgimento ainda em 1995 até sua compra pela Walt Disney, o competente time criativo trabalha com cautela extrema para entregar ao público obras animadas que fogem do convencionalismo principesco ou da comédia escrachada, por exemplo, valendo-se de profundos temas antropológicos que transformam cada capítulo dessa ainda breve história em uma ode ao próprio ser humano – e em produções destinadas tanto às crianças quanto aos adultos.

Ao longo de vinte e cinco anos (quase a idade do autor por trás desta singela crítica), a Pixar mergulhou nas águas profundas de Procurando Nemo e da inesperada sequência Procurando Dory, viajou a longínquas terras paradisíacas com Up e visitou (e revisitou) o mundo dos brinquedos com a aclamada e premiada franquia Toy Story, uma das mais adoradas de todos os tempos. Em suas bodas de prata, a companhia apostou em uma revitalização sequencial que manteve vivo as incursões psicopedagógicas de Divertidamente e as celebrações mnemônicas de Viva – A Vida É uma Festa (por mais que este último título tenha cedido às novelescas construções narrativas em prol de um visual espetacular). Enquanto as fichas se restringiam há algum tempo em sequências para levar a nova geração a conhecer as preciosidades cinematográficas do estúdio, estava mais que na hora que um enredo original ganhasse nossos corações novamente.

E então surgiu Soul. O título, que definitivamente não precisa de uma tradução para o português, visto que pode se referir ao estilo musical homônimo, traz de volta Pete Docter para a cadeira da direção cinco anos depois de sua última investida – e onze depois de ter feito sua estreia com o atemporal Monstros S.A.. A simplicidade da trama entra como máscara de uma análise interessante sobre a vida após a morte e sobre como somos “programados” para ganhar vida na Terra, unindo diversas mitologias em um lugar só e abrindo espaço para as reflexivas considerações do espiritismo. Aqui, Jamie Foxx dubla Joe Gardner, um pianista frustrado que talvez tenha reencontrado sua vontade de seguir em frente, esmaecida com o passar dos anos e com dezenas de rejeições, ao ensinar jovens sobre o poder da música. No momento em que ele acredita que sua vida está prestes a mudar ao ser chamado para tocar com a lendária Dorothea Williams (Angela Bassett), ele sofre um acidente e morre.

Na verdade, Joe não morre logo de cara; conforme fica claro poucos momentos depois do personagem cair em um bueiro aberto, ele se vê em uma inexplicável situação. Caminhando em direção à luz de um universo minimalista, acompanhado de tantas outras almas que aguardam o descanso eterno, ele faz de tudo para retornar ao corpo que deixou para trás, mas acaba indo para um lugar conhecido como pré-vida. O infinito cenário, que nos chama a atenção pela ausência de detalhes explosivos e por uma comedida utilização artística (algo “estranho” quando comparado com a exuberância de outras entradas do catálogo Pixar), é onde as almas não nascidas ganham suas personalidades e suas pré-disposições antes de finalmente se tornarem parte do mundo material – e onde a rebelde alma chamada 22 (Tina Fey) se recusa a encarnar.

É aí que Joe encontra a brecha para voltar à vida que conhecia e para finalmente transformar seu monótono cotidiano em algo que vale a pena, ansioso por estar beirando a meia-idade e por ser tratado com condescendência crítica pela mãe (Phylicia Rashad). Joe rouba a identidade de um dos “mentores” do pré-vida e é destinado a 22 para prepará-la para o nascimento, buscando nos confins do universo metafísico uma missão. Visto que as coisas não saem como o planejado, ele decide usá-la como canal para recuperar o que perdeu – e talvez seja a partir daqui que os enredos começam a se fundir em um transbordante panorama que, vez ou outra, tropeça em sua própria ambição.

Não se engane: Soul é mais uma ótima entrada desse panteão cinematográfico e um sopro de originalidade em meio a produções mainstream que apenas reciclam tramas datadas e formulaicas. É claro que o conceito de destino e do que existe quando passamos para um outro estágio da jornada humana moveu inflexões de diversos artistas ao longo dos séculos, desde os primeiros filósofos greco-romanos até as fusões sci-fi do estilo cyberpunk com as íntimas alegorias do determinismo sociológico. Joe é movido pela simples acepção de que seu propósito é a música; 22, por sua vez, não acredita que tem uma missão e, por essa razão, prefere ficar em um lugar que já conhece a enfrentar os obstáculos mundanos que a humanidade cria e recria dia após dia. A verdade é que ambos não conseguiam enxergar um palmo à frente dos olhos para compreender que essa delegação não existe: o que há, de fato, é a busca por fazer o máximo de algo efêmero e inevitável – o tempo.

Docter começou a trabalhar no longa-metragem ainda em 2016, desenvolvendo conceitos que dialogassem com as entidades abstratas que regem a origem de tudo. Em um lugar para além da prática cronologia que conhecemos, a medição de algo impalpável é nada mais que uma tentativa esdrúxula de ter poder sobre o subjetivo, sobre uma ideia. É por essa razão que o minimalismo imagético é a força-motriz da obra, entrando em conflito espasmódico com o proposital excesso das sequências na Terra – marcando uma profunda quebra entre as produções anteriores do diretor e o que lhe aguarda no futuro.

Soul pode não ter o melhor filme já criado pela Pixar, mas certamente é um que deixará sua marca criativa para os membros da companhia e até mesmo para o modo como contamos histórias. Entre celebrações do aqui e do agora, a animação é o estandarte do carpe diem que não sabíamos que precisávamos até os créditos finais subirem nas telas.

Soul (Idem – EUA, 2020)

Direção: Pete Docter
Roteiro: Pete Docter, Mike Jones, Kemp Powers
Elenco: Jamie Foxx, Tina Fey, Questlove, Phylicia Rashad, Daveed Diggs, Richard Ayoade, Angela Bassett
Duração: 100 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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