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Crítica | Star Trek: Discovery – 01×01: The Vulcan Hello / 01×02: Battle at the Binary Stars

Nós viemos em paz.

O anúncio da mais nova série envolvendo o panteão Star Trek não apenas causou um rebuliço nos fãs das primeiras iterações do show, mas também tornou-se um dos mais aguardados do ano – e qual foi a surpresa quando o serviço de streaming Netflix também fez uma declaração e confirmou a transmissão dos episódios semanais através de sua plataforma. E fico muito feliz em informar que o episódio piloto – arquitetado como dois capítulos sequenciais – é exatamente aquilo que promete: uma aventura espacial perscrutada com personagens cativantes e uma storyline que brilha e não deixa a desejar em nenhum momento.

Iniciando com um pequeno prólogo nos introduzindo ao suposto extinto Império Klingon – uma das raças mais famosas do universo cósmico de Jornada nas Estrelas e que se configura até hoje como a maior ameaça enfrentada pelos protagonistas – que busca em suas raízes um modo de se unificar e proclamar superioridade frente às outras galáxias e principalmente perante ao seu maior inimigo: a Federação. O objetivo dos antagonistas da história já fica claro até demais com alguns diálogos superexpositivos sobre conquista, guerra e honra, resgatando elementos vistos em obras de ficção que remontam até mesmo aos gladiadores e povos conquistadores da antiguidade. Mas em momento algum esse pequeno deslize narrativo consegue apagar o brilho que perscruta o episódio segundos depois, com a introdução da Tenente Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) e a Capitã Georgiou (Michelle Yeoh) como uma dupla no melhor estilo mestre-pupilo que se pode imaginar.

O contraste entre a escuridão plena da espaçonave Klingon e a forte saturação de cores que acompanha os nossos heróis é bem nítida, principalmente através de uma montagem paralela que desenrola as duas tramas principais até uni-las dentro de uma das mais esperadas saídas das histórias espaciais: a batalha. Entretanto, faz-se necessário entender como essas perspectivas diferentes são construídas até atingirem seu ápice. E é de forma extremamente satisfatória que o duo Burnham-Georgiou convive com as diferenças – uma essencialmente regida pela lógica enquanto a outra abusa do sarcasmo para reafirmar sua posição como comandante-mor. A organicidade entre elas nos relembra da emergência paradoxal que acompanhou Spock e Kirk na série original, fornecendo camadas tanto de complexidade quanto de nostalgia para a nova investida.

Dividido em duas partes, o piloto inicia-se com The Vulcan Hello, um nome bem atraente para os fãs mais assíduos do macrocosmos intergalácticos e que premedita, certamente, a aparição da raça mais desprovida de nuances emocionais da galáxia: os vulcanos (Spock de novo!). Entretanto, diferentemente da história à qual estávamos acostumados, a backstory serve como modo de aprofundar a personalidade compulsiva e ao mesmo tempo retraída de Burnham, que foi resgatada por seu mentor e foi influenciada a seguir a saída mais lógica em detrimento dos espasmos emocionais próprios do ser humano, tornando-se “fria” (até a página dois, para dizer a verdade). A ideia aqui, e que acompanha de forma diferenciada cada um dos personagens apresentados, é analisar como cada ser encara a necessidade do individualismo de forma completamente diferente.

T’Kuvma (Chris Obi), líder dos Klingon, necessita da reafirmação de autoridade e da unificação das 24 casas de sua raça novamente para não se tornar apenas mais um corpo vagando sem destino pelo espaço. Ele precisa resgatar os ideais próprios de seus conterrâneos – a constante guerra e a sustentação da honra geracional -, e isso é compreensível, se analisarmos com um olhar essencialmente antagonista aos considerados heróis. Ao mesmo tempo, a personagem de Yeoh traz uma constância pacifista que acompanha a Federação desde sempre e que condiz com os seus emblemas éticos, ainda que desagrade a outros colegas – como o Tenente Saru (Doug Jones), um cientista que prefere muito mais permanecer nos bastidores a utilizar-se da força.

Ao longo de dois capítulos de quarenta minutos cada, é possível traçar um paralelo sobre cada um dos personagens e analisar seus comportamentos divergentes e memoráveis, que em momento algum são ofuscados, mas compõe a arquitetura geral. Apesar dos poucos cenários – a maior parte das ações ocorre dentro das espaçonaves -, é inegável que há uma preocupação notável para os efeitos especiais e para a composição cênica. Primeiro, a paleta de cores neutra funde-se às cores quentes das nebulosas e das estrelas, transmitindo a sensação do desconhecido para a audiência e nos levando a questionar sobre os mistérios que se escondem por trás dos cinturões de asteroides e dos incontáveis planetas que estão espalhados por aí. Segundo, a câmera consegue ao mesmo tempo deslizar de forma sinuosa pelas construções tanto da Federação quanto do Império Klingon, fornecendo a sensação de imensidão, e optar por planos mais fechados em momentos de tensão, optando por uma perspectiva mais claustrofóbica.

Os primeiros atos são verborrágicos. Apesar das sequências de ação tão aguardadas cumprirem seu propósito, precisamos conhecer as divergências e convergências entre os personagens para haver uma conexão entre público e série, e permitir um mergulho total nessa incrível mitologia. Seguimos, através de um jogo narrativo que muito se assemelha às histórias detetivescas, a descoberta do porquê o Império Klingon estar ali, bem como quais são suas reais intenções ao investir em um ataque que lhes trará consequências drásticas também. Mas não temam: o confronto eventualmente vem, com duas frotas gigantescas batalhando entre si em vários planos longos e planos-sequência magnificamente bem coreografados e que traz o melhor tanto do seriado original quanto da franquia cinematográfica para cá.

Bryan Fuller e Alex Kurtzman parecem ter uma conexão mágica para fazer acontecer. Kurtzman já traz sua experiência na trilogia fílmica para trabalhar em alguns pontos fracos, principalmente narrativos, enquanto Fuller traz seus traços macabros da série Hannibal para costurar o melhor do épico de ficção científico a algumas saídas do gênero terror – incluindo sacrifícios. Battle at the Binary Stars é o desfecho perfeito, conseguindo dosar as lutas, os resgates e perdas necessárias, porém nada previsíveis – e de ambos os lados. Apesar da conclusão de alguns arcos, a finalização do capítulo vem com um cliffhanger extremamente bem pontuado que nos leva a divagar sobre o futuro da série e como todos os acontecimentos iniciais irão impactar na tripulação do U.S.S. Shenzou.

O pontapé inicial de Star Trek: Discovery é exatamente o que gostaríamos de ver em uma epopeia espacial: adornada com todos os elementos que já conhecemos com uma roupagem original e aprofundada, o novo show da Netflix e da CBS é, sem sombra dúvida, digno de ser acompanhado.

Star Trek: Discovery – 01×01: The Vulcan Hello / 01×02: Battle at the Binary Stars (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Alex Kurtzman
Direção: David Semel, Adam Kane
Roteiro: Gene Roddenberry (baseado em Star Trek), Bryan Fuller
Elenco: Doug Jones, Sonequa Martin-Green, Jason Isaacs, Michelle Yeoh, Rainn Wilson, James Frain, Terry Serpico, Anthony Rapp, Shazad Latif
Emissora: Netflix
Gênero: Ficção científica, Ação
Duração: 45 minutos

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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