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Crítica | Star Trek: Discovery – 01×03: Context is for Kings

De forma clara e sem floreios, Star Trek: Discovery continua surpreendendo!

Após uma incrível estreia no costumeiro episódio duplo, a série, a qual recupera inúmeras referências e concepções imagéticas de iterações anteriores – seja na televisão, seja no cinema -, emergiu como uma incrível surpresa que mantém um ritmo de ficção científica perscrutado com drama, mistério e algumas pinceladas sutis do clássico coming-of-age. Em Context is for Kings, como foi intitulado o terceiro capítulo, seguimos as consequências do suposto motim ocasionado pela ex-Tenente Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) seis meses após a morte da Capitã do U.S.S. Shenzhou, Philippa Georgiou (Michelle Yeoh).

Ao final do segundo episódio, fomos introduzidos à sentença que condenou Michael para a prisão perpétua, servindo até seus últimos dias ao lado de carcereiros, homicidas e traidores da Frota Estelar. No ato inicial dessa nova iteração, o contraste entre seus companheiros de trabalho comunitário e sua expressão continuamente blasé (nos relembrando de sua criação vulcânica) é um dos principais indícios de que, mesmo em situações caóticas e irreversíveis, ela se mantém fiel à sua personalidade. Logo após serem transferidos para a nave-mãe da Frota, a U.S.S. Discovery, a protagonista é constantemente bombardeada por olhares de desprezo e reprovação, além de receber a alcunha amorfa de “amotinada”. Mas assim que uma breve e dilacerante sequência de luta entre os prisioneiras culmina em sua “promoção”, por assim dizer, percebemos que as coisas definitivamente não são o que parecem ser.

Michael acaba se encontrando com o Capitão da Discovery, Gabriel Lorca (Jason Isaacs), o qual, desde o primeiro momento em que aparece em cena, mostra ter segundas intenções, ainda que não as revele. Sua presença misteriosa e quase onírica parece causar estranhamento até mesmo na mente essencialmente lógica da protagonista, tentando descobrir exatamente quais são seus planos com uma “de sua laia”. É claro que isso não será revelado até a season finale ou até mesmo em um possível futuro para a série, mas já podemos pensar em algumas teorias com os acontecimentos desse episódio.

Acontece que Gabriel oferece para a ex-Tenente um trabalho na área de engenharia da espaçonave, atuando sob a supervisão de Paul Stamets (Anthony Rapp), cuja principal característica é o ceticismo. Desde que Michael pisa em seu laboratório, o cientista a trata com desprezo, seja por sua condição como detenta, seja por sua formação educacional rígida – que eventualmente a condiciona para um olhar estritamente linear das coisas, esquecendo-se da carga emocional e prática. Michael logo descobre que Paul na verdade está trabalhando em um projeto secreto associado ao ataque à irmã da Discovery, nomeada U.S.S. Glenn, e também ao cultivo de inúmeros fungos que se alimentam de energia elétrica – levando-a a crer com todas as suas forças que a Frota está testando novas armas em detrimento aos ideias pacifistas.

Apesar de ser cedo para chegar a um veredicto, Context is for Kings é, esteticamente, o melhor episódio até agora. Não apenas por conseguir transpassar a agonia solitária e o imenso vazio que se estende perante os personagens – sensações dignas de uma soap opera intergaláctica -, mas por deixar-se entrar no território identitário de outras produções do gênero, criando de forma interessante algo híbrido e que se conecte de outras formas com os fãs de longa data – e até mesmo os novos.

Gabriel pede para que Paul lidere uma missão investigativa e de resgate para a Glenn, para recuperar todos os artefatos tecnológicos e as pesquisas desenvolvidas pela Frota antes que elas caiam nas mãos dos inimigos – referindo-se, aqui, ao retorno da civilização Klingon e seu firmamento como um crescente império. Ao chegarem lá, se deparam com uma situação muito mais caótica – e que gradativamente nos recorda de um dos filmes de horror mais icônicos do cinema moderno: Alien – O Oitavo Passageiro. Desde a concepção da nave até a construção imagética (um compilado de frames justapostos e cortados freneticamente), toda a sequência nessa outra espaçonave parece fazer uma homenagem ao longa de Ridley Scott.

Toda a tripulação, incluindo supostos invasores Klingon, foi dilacerada por uma força inimaginável e desconhecida que não dá as caras até o clímax do segundo ato. A criatura, permanecendo nas sombras e vista de relance pelas armas de faser ou pela lataria destruída da nave, se assemelha muito ao antagonista espacial de Alien, seja em sua concepção, seja em sua forma de ataque. E mesmo com sua reputação um tanto quanto duvidosa, tendo produzido filmes como Jonah Hex e a franquia Atividade Paranormal, Akiva Goldsman supera suas próprias expectativas ao captar a essência necessária para esse momento, ao mesmo tempo em que não foge da caracterização da série.

Apesar disso, não podemos deixar de terminar o episódio com um gostinho de quero mais. Afinal, os eventos ocorrem num ritmo muito acelerado e parecem não ter tido um fim digno, visto que poderiam ter sido explorados muito além do que foi apresentado. É claro que, em quarenta e cinco minutos de duração, focar apenas em uma storyline é um trabalho complicado – e Bryan Fuller opta por nos apresentar a outros personagens que serão de grande importância para os próximos capítulos.

Star Trek: Discovery se firma como a série que todos estavam pedindo. Mais uma vez, a competente construção catártica não abandona suas raízes, colocando alguns easter eggs e a premeditação da entrada de rosto bem familiares, ao mesmo tempo que arquiteta uma nova perspectiva para o panteão espacial.

Star Trek: Discovery – 01×03: Context is for Kings (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Alex Kurtzman
Direção: Akiva Goldsman
Roteiro: Gene Roddenberry (baseado em Star Trek), Bryan Fuller
Elenco: Doug Jones, Sonequa Martin-Green, Jason Isaacs, Michelle Yeoh, Rainn Wilson, James Frain, Terry Serpico, Anthony Rapp, Shazad Latif
Emissora: Netflix
Gênero: Ficção científica, Ação
Duração: 45 minutos

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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