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Crítica | Star Trek: Discovery – 01×06: Lethe

Star Trek: Discovery já se mostrou extremamente versátil no sentido narrativo: desde o primeiro episódio, a série conseguiu entregar uma das melhores soap operas espaciais da televisão contemporânea, fornecendo uma perspectiva original para a jornada do herói vista nas clássicas iterações deste panteão intergaláctico ao mesmo tempo em que trouxe elementos nostálgicos – incluindo inúmeras referências que deleitaram os fãs de longa-data. E, como é de costume, chegamos ao ponto em que, aliado às constantes viradas da macro-trama, é-nos apresentado um momento reflexivo que se mostra diferente para cada um dos protagonistas.

É claro que o show não perde sua identidade neste novo capítulo, ainda navegando através da imensidão do espaço e explorando as infinitas possibilidades que circundam a U.S.S. Discovery e até mesmo a própria Frota Estelar. Entretanto, o objetivo das múltiplas tramas que se desenrolam em Lethe, como foi intitulado o sexto episódio, convergem para um mesmo tema-base: a autorreflexão. Cada um dos personagens está submetido em uma jornada individual no melhor estilo coming-of-age, com uma inclinação para a tour de force – ambas as vertentes utilizadas aqui para fornecer um pouco mais de complexidade para o contexto geral.

Primeiramente, precisamos entender que a batalha entre a Frota e os Klingons, que ascenderam à posição imperial mais uma vez após emergirem do esquecimento, ainda é o arco em comum que une esses inúmeros personagens. Ainda com a missão de encontrar uma utópica paz entre os povos e desbravar o desconhecido, a nave comandada pelo Capitão Gabriel Lorca (Jason Isaacs) parece ter adquirido uma personalidade única, uma extensão mecânica que parte daquele que a dirige: ela é o receptáculo mais poderoso de toda a esquadra “heroica” do espaço, mas mesmo assim é utilizada com certa irresponsabilidade, mergulhando em missões de resgate não-autorizadas pela Federação apenas para buscar um senso inexistente e incomprovado de justiça. E aqui, a missão liderada por Lorca é resgatar Sarek (James Frain), pai de um conhecidíssimo personagem da franquia Star Trek: Spock.

Tudo começa em um breve prólogo no qual o líder dos vulcanianos está em uma missão diplomática e é atacado por um extremista, o qual discorre sobre a irrisória ideia de uma raça tão superior quanto a deles querer integrar as falhas humanas em seus sistemas. Até mesmo para aqueles que não são fãs de carteirinha da série, o embate entre humanos e vulcanianos – ou seja, o paradoxo entre emoção e lógica – sempre foi um dos temas analisados pela narrativa. Na franquia cinematográfica, por exemplo, Spock e Kirk entram em conflito inúmeras vezes por não compartilharem da mesma perspectiva, cuja explicação se deve à gritante diferença de criação de ambos os personagens. Em Discovery, esse obstáculo é transposto para um círculo mais íntimo e pessoal ao discorrer sobre a não-aceitação da Tenente Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) no Grupo Expedicionário Vulcano, para o qual havia sido treinada, mas foi recusada justamente por ter instabilidades emocionais próprias de sua raça.

Através do episódio, vemos a diferença entre Burnham e Sarek atingirem um nível transcendental, visto que ambos compartilham do mesmo katra, uma força inexplicável que mantém certa ligação psíquica entre os dois. Ambos carregam suas diferenças e segredos, e é através da revelação dos mesmos que o time recrutado por Lorca consegue resgatar Sarek de morrer dentro de uma conturbada nebulosa. Burnham utiliza-se de seu conhecimento e de sua lógica para entender quais os motivos que mantêm esse afastamento para com seu pai – e o resultado é a introdução de uma personagem já conhecida neste panteão: sua mãe Amanda (Mia Kirshner), que também é progenitora de Spock e nos leva a induzir que os eventos nesta nova série são anteriores aos que já conhecíamos.

De qualquer modo, o ápice do capítulo vem com a descoberta e o autoconhecimento. Até mesmo um povo regido essencialmente pela lógica comete falhas – e Burnham, por mais que tenha sido criado em um ambiente onde fracassos não são encarados com emoção, abraçou seu lado humano para tornar-se mais hábil e mais flexível no tocante à simbiose social que deve acontecer dentro da espaçonave, ou seja, dentro de seu novo lar.

Lorca também não é deixado de fora. Após ignorar os protocolos necessários para a missão de resgate supracitada, o Capitão recebe a visita da Almirante Cornwell (encarnada pela incrível presença de Jayne Brook), a qual parece ter um passado com o personagem. Os dois discorrem acerca das imprudências realizadas com a U.S.S. Discovery, principalmente no quesito da espaçonave portar a arma mais poderosa e mais perigosa do universo – o combustível feito a partir de esporos de micélios – e ser utilizada abertamente para quaisquer fins. Entretanto, os diálogos travados entre os dois não se restringem apenas à quebra de regras e parecem mergulhar em um campo muito mais profundo que recorre ao passado de Lorca e a possíveis traumas não resolvidos.

Que o Capitão possui segredos ocultos não é nenhuma surpresa. Mas a partir deste novo capítulo, parece que ele não irá conseguir mantê-los às escondidas por muito mais tempo. Afinal, Cornwell revela ao público que Lorca mentiu sobre seus testes psicológicos e está mentalmente instável – ora, ele dorme com um arma faser em mãos para se proteger. Sabe-se que o personagem cometeu um ato de sacrifício incontestável quando comandava outra nave, mas não conhecemos exatamente quais foram os corolários de toda a caótica situação que o levou a explodir a equipe que comandava para não condená-los a um futuro de solidão e escravidão.

Apesar da refreada rítmica, Lethe é um ótimo episódio que nos permite respirar e conhecer mais as sólidas relações entre os personagens. A mescla entre ação e reflexão ainda precisa de umas lapidadas; mas, até agora, Star Trek: Discovery não nos desapontou, entregando algo satisfatoriamente emocionante.

Star Trek: Discovery – 01×06: Lethe (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Alex Kurtzman
Direção: Douglas Aarniokoski
Roteiro: Gene Roddenberry (baseado em Star Trek), Joe Menosky, Ted Sullivan
Elenco: Doug Jones, Sonequa Martin-Green, Jason Isaacs, Michelle Yeoh, Rainn Wilson, James Frain, Terry Serpico, Anthony Rapp, Shazad Latif
Emissora: Netflix
Gênero: Ficção científica, Ação
Duração: 45 minutos

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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