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A crítica contém SPOILERS.

Quando a irregular sexta temporada de “The Walking Dead” havia terminado, eu estava em dúvida. Não pela qualidade como um todo do último episódio – ótimo –  mas pela decisão do cliffhanger final que ocultava a vítima de Lucille, o bastão de Negan. A temporada já havia utilizado esse artifício fácil de roteiro algumas vezes, o que contribuiu para a sensação de decepção.

Porém, fora o lado comercial – que provou-se acertado, visto a expectativa criada e audiência de ontem -, eu entendi, enquanto história, a estratégia. Algum tempo depois, os próprios envolvidos com o show ratificaram o motivo da decisão. Trata-se de um ciclo que termina quando Negan mata um membro do grupo e um outro ciclo que se inicia no momento que vemos quem foi a vítima e o que o fato acarreta logo depois, que resulta em outra morte.

Fico feliz em dizer que não me decepcionei e, melhor ainda, trata-se de um dos melhores episódios até agora. O capítulo se inicia, sabiamente, não mostrando de imediato a vítima de Negan e foca na reação de Rick e na reunião particular entre ele e o vilão dentro de um trailer durante um passeio. Em performance excepcional de Andrew Lincoln, que tenta matar Negan com uma machadinha ao ser testado por ele, sem nem pensar no que o feito poderia acarretar ao seu grupo, e quase é morto ao tentar escapar de uma horda de zumbis em outro dos testes para pegar a tal machadinha no teto do trailer, acompanhamos toda a raiva e desespero do personagem, antes líder de uma comunidade e agora submetido às ordens de Negan, e sua gradual transformação de um humano arrogante que passou a sexta temporada inteira matando quem estivesse na frente a um humilde servo que se curva perante as ameaças de um antagonista maior. Merecida uma indicação ao Emmy.

Igualmente competente estava Jeffrey Dean Morgan, já se provando como o melhor vilão da série até o momento. Sua presença é dominante e inquietante, de dar calafrios. Se portando de maneira imprevisível, ficava imaginando se durante o passeio no trailer, o vilão não iria pegar a machadinha a qualquer momento e cortar o braço de Rick. A forma serena com que zomba da tragédia e profere diálogos carregados de sarcasmo e maldade sempre com uma risada no rosto não é facilmente dominada por qualquer ator e Jeffrey, já tendo certa experiência nesse tipo de papel por ter interpretado o Comediante em Watchmen, acerta em cheio sem soar caricato, algo difícil, afinal não havíamos visto Negan antes, não conhecemos sua história de origem. É um vilão que veio pronto e apenas contou com a construção da áurea de “chefe malvado” na temporada anterior. Também merecida uma indicação ao Emmy.

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A montagem também é acertada, só revelando as vítimas durante flashbacksatravés de Rick, enquanto tenta pegar a machadinha em cima do trailer. A primeira trata-se de Abraham (Michael Cudlitz) personagem do qual gostava muito e que não foi devidamente explorado desde sua primeira aparição. Abraham, quando escolhido por Negan no uni-duni-tê, encara sua morte com honra sem pestanejar. Já tendo perdido sua família por causa de seu comportamento, o personagem aceita o sacrifício, leva a primeira paulada, se levanta, é zombado pelo vilão e continua apanhado até morrer. Difícil de ver.

A morte de Abraham mexe com Darryl (Norman Reedus) que se levanta para agredir o vilão. Por alguns segundos, também pensei que os dias do motoqueiro de besta haviam acabado ali. Entretanto, em mais uma virada imprevisível de Negan – previsível para os leitores dos quadrinhos dos quais a série se baseia -, o vilão decide poupar Darryl por reconhecer seu valor, para matar Glenn, reproduzindo um icônico momento dos quadrinhos que há tempos os fãs esperavam ver, em que o olho do personagem aparece esbugalhado após receber beijos de Lucille. Em uma cena mais gore e gráfica do que de costume na série, o grupo entra em choque enquanto observa seu amigo de longa data ser morto. Glenn, em seus momentos finais, vira para sua esposa grávida, Maggie, e apenas diz que “vai encontrá-la”, se referindo a Beth, irmã de Maggie, morta na quinta temporada. Um final digno e fiel ao personagem que havia sobrevivido às mais improváveis situações com intenso roteirismo anteriormente.

Mas o episódio não para por aí! Depois de acompanharmos os flashbacks, Rick, com a ajuda de Negan e sua metralhadora, escapa dos zumbis com a machadinha retornando ao trailer ao mesmo tempo que imagina todos os integrantes do grupo serem mortos pelo vilão, deixando claro que o grupo nunca mais será o mesmo. Quando ambos retornam ao local em que o grupo se encontra refém, já amanhecendo, Negan reprova o olhar de Rick sobre sua pessoa e, em mais uma cena tensa, pede para o mesmo cortar o braço de seu filho, Carl.

Por Rick já ter pedido o braço nos quadrinhos, eu realmente imaginei que Carl poderia ser decepado dessa vez. Ainda mais pelos diálogos de Negan sobre não ter outra maneira de salvar o grupo e existir um ótimo médico para tratá-lo. Carl, corajoso, diz para o pai o fazer. Rick, em prantos, quase o faz mas é parado por Negan no último segundo, que diz que aquele olhar era o que ele estava esperando. O olhar de submissão, obediência, desesperança e pânico.

E assim, Negan parte com seus “Salvadores”, deixando Rick e seu grupo paralisados e conscientes de que, agora, devem metade de sua produção a ele assim como são propriedades do vilão. Desamparados, não sabendo como reagir, tentando ajudar Maggie lidar com a negação e raiva da morte de Glenn, o episódio ainda exibe um flashforward paralelo mostrando um almoço em dia de sol com todo o grupo vivo na mesa, incluindo Glenn com seu bebê e Abraham, algo que sabemos ser impossível de acontecer, aumentando ainda mais a sensação de perda.

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A parte técnica também deve ser enaltecida. Conversando diretamente com o psicológico dos personagens envolvidos, a direção aproveita muitos closes e big closes nos rostos dos atores que realçam a dramaticidade nas suas atuações. Rick é o foco principal. Os closes nos seus olhos na cena do trailer, enquanto digeria o ocorrido e imaginava o que poderia vir a seguir são notáveis. A fotografia recebe igualmente a mesma atenção e peso, com a névoa refletindo o estado mental de Rick e desaparecendo no final quase que de forma sobrenatural.

Note: Negan ordena que pegue a machadinha em meio a névoa, Rick entra nela e tudo que aconteceu antes é revelado. Como se o personagem estivesse em um purgatório, completamente perturbado e dominado psicologicamente pelo vilão. A “falsa ceia em família” ao final só exalta isso, com Rick dando intenso valor ao grupo, mais do que antes, sabendo que ninguém está a salvo mais.

A analogia religiosa também está presente e de forma muito bem inserida, por sinal. Trata-se do conto presente em “Gênesis” da fidelidade de Abraão. Na Bíblia, quando Deus diz a Abraão para sair de sua terra e ir para outra desconhecida, sob promessas grandiosas, ele obedece sem hesitar. Confiou no desejo divino, não deixando seu ego e arrogância humanos atrapalharem. Colocou o divino frente às necessidades pessoais.

A começar pelo nome da primeira vítima de Negan, Abraham, que confia no julgamento divino e aceita o sacrifício pelo grupo, até o abandono da arrogância e prepotência de Rick em nome das vontades do profano, em vez de Deus. Negan, aqui, é a representação da figura diabólica. Do pecado e pecador. Rick já vinha pecando há tempos na série, principalmente com o já comentado mar de mortos deixados pelo caminho na temporada passada e agora deve servir ao profano até encontrar sua redenção. Deve abrir mão de suas necessidades pessoais em nome do desejo demoníaco.

Com Carl acontece o mesmo. Em uma das piores provas de fidelidade de Abraão, ele oferece seu filho, Isaque, em holocausto. No episódio, Negan chama o filho de Rick para o sacrifício de seu braço em prol do grupo. O menino aceita e Rick, relutante, quase o concretiza, parado pelo profano que tem outros planos. A dominação psicológica está completa.

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Se há um defeito a ser apontado, talvez seja o roteirismo em torno de Rick na cena da névoa em sobreviver a todos os zumbis, algo que já vimos várias vezes na série. Porém, devido ao valor que a cena possui em termos de coesão narrativa e visual, não tenho como tirar ponto do episódio por causa disso.

Por concluir, fico feliz em ver que “The Walking Dead” voltou em altíssimo nível, dando atenção ao psicológico e dominação do mesmo no jogo protagonista X antagonista, à áreas técnicas de forma especial e com um forte subtexto religioso, tornando a série mais relevante do que nunca. Ao final do episódio, assim como o grupo assiste o zumbi lamber o sangue de Glenn, somos deixados num mar de incertezas do que está por vir, sendo a única certeza, o fato de que será cruel. Palmas para Scott Gimple e Greg Nicotero e torçamos para que a série mantenha o nível! E que venha Ezekiel!

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