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Crítica | Once Upon a Time – 6×14: Page 23 / 6×15: A Wondrous Place

ONCE UPON A TIME - "A Wondrous Place" - When Hook finds himself trapped in another realm along with the Nautilus and her crew, he races to return to Emma before Gideon can execute the rest of his plan. In Storybrooke, Regina and Snow take Emma out to get her mind off Hook's disappearance. And in a flashback to Agrabah, Jasmine befriends Ariel, and together they set out to locate Prince Eric as the threat from Jafar intensifies, on "Once Upon a Time," SUNDAY, APRIL 2 (8:00-9:00 p.m. EDT), on The ABC Television Network. (ABC/Jack Rowand) KAREN DAVID, COLIN O'DONOGHUE

E mais uma vez Once Upon a Time resolve apostar em seus personagens secundários para garantir um pouco mais de complexidade às multitramas de sua sexta temporada. A série criada por Edward Kitsis e Adam Horowitz vinha há alguns episódios numa onda de melhorias e lapidações dignas de iterações anteriores – resgatando o motivo que fez os fãs se apaixonarem pelos personagens em 2011 -, mas no décimo quarto e no décimo quinto capítulos deste novo ano, alguns deslizes retornaram, ainda que com menos força.

Nestes dois últimos episódios, dois arcos significativos encontraram respectivamente seu fim e seu começo, ambos se relacionando com uma atmosfera que nos carrega lentamente para o season finale e para o desfecho de mais uma aventura vivida pelos protagonistas. No caso, estamos falando da volta triunfal da Rainha Má (Lana Parrilla), alter-ego de Regina (também Parrilla), que havia sido presa por uma força obscura no corpo de uma víbora, mas que, com a ajuda do sósia reverso de Robin (Sean Maguire) conseguiu recuperar seu invólucro humano. Sabemos da dualidade de personalidade entre as personagens supracitadas, e em Page 23 aparentemente tudo chegará a um final.

A luta entre as nuances intrínsecas de Regina sempre se configurou como um dos temas-base de Once Upon a Time e é um dos poucos a ainda continuar chamando a atenção dos fãs e de um público que se interesse por contos de fada. Entretanto, os twists e os toque de distorção são muito presentes nesta obra audiovisual de fantasia, e várias das histórias que conhecemos se relacionam entre si – e apontam para a crueldade insensível e desumana da protagonista. A escuridão esteve em seu caminho desde seu nascimento, e até mesmo tentativas sem sucesso de “cortas a linha do Destino” trouxeram apenas amargura para seu dia a dia, afastando-a de quem realmente ama.

O aprofundamento psicológico em vertentes freudianas como alter-ego, ego e subconsciente encontra uma presença palpável envolvendo uma batalha muito bem coreografada e permeada com diálogos detalhadamente pensados, partindo do roteiro assinado por Jane Espenson e Jerome Schwartz. O final é relativamente previsível, mas uma saída que casa com o final feliz desejado por Regina para si própria, ainda que na forma de uma cruel tirana que só nos quarenta e cinco do segundo tempo encontrou a paz interior que tanto necessitava.

Enquanto isso, Emma (Jennifer Morrison) e Hook (Colin O’Donoghue) se encontram num dilema moral que envolve a morte do pai de David (Josh Dallas) e as mentiras que circundam seu relacionamento. A trama é essencialmente novelesca, mas adiciona algumas camadas instáveis à história; o grande problema é a execução e a retomada de acontecimentos que o público já conhece. As oscilações, desde meados da terceira temporada, encontram espaço entre o casal episódio após episódio e, por vezes, satura as sequências de drama.

Mas tudo é compreensível, principalmente com a transmissão de A Wondrous Place: acontece que essas discussões e reviravoltas foram de certo modo causados por Gideon (Giles Matthey), um dos personagens com mais amargura que posso citar na série. Sua perspectiva de vida e seus objetivos obscuros ultrapassam o entendimento humano, até quando comparados às tentativas de destruição de Regina e de Zelena (Rebecca Mader) para com Storybrooke e seus habitantes. Apesar de ser fruto de um amor verdadeiro, ainda que conturbado, sua vivência traumatizante com a Fada das Trevas o transformaram numa criatura sedenta por vingança e por se tornar, a qualquer custo, o próximo Salvador – mesmo que tenha que destruir Emma para isso.

Acontece que, após brigar com Emma, Hook vai ao encontro do Capitão Nemo (Faran Tahir), pedir um lugar para passar a noite e refletir sobre suas ações e suas mentiras. Entretanto, Gideon utiliza de seus poderes e dos encantamentos do Náutilus para obrigá-los a viajar entre Reinos, separando o casal e nos deixando ansiosos para o desfecho dessa subtrama.

Eis que, ao chegarem à Floresta Encantada, os viajantes se reencontram com os esquecidos Aladdin (Deniz Akdeniz) e Jasmine (Karen David) cujas tentativas em encontrar Agrabah falharam miseravelmente, colocando-os numa jornada interminável por florestas infinitas em um Reino desconhecido e que os levou a lugar nenhum. Todos então resolvem se unir tanto para encontrar o território perdido quanto para tentar mandar Hook de volta para casa, para que possa alertar Emma dos perigos que estão à espreita. Apesar de pouco explorado, suas cenas de insanidade e falta de coerência frente ao fato de estar longe e sua amada causam certa angústia e nos fazem esperar um desfecho feliz entre os dois.

É inegável que os deslizes narrativos voltam a ser cometidos aqui, principalmente o apressamento dos desfechos de alguns arcos. Já era de se esperar que Jasmine e Aladdin finalmente encontrariam um pouco de paz ao final de A Wondrous Place – o que me parece compreensível -, mas Espenson e Schwartz tomaram cautela para manter Hook em busca de um modo para retornar a Storybrooke – além de encontrar brechas para o retorno de duas personagens muito queridas e protagonistas das sequências mais adoráveis: Sininho (Rose McIver) e Ariel (Joanna Garcia), que já não davam às caras desde a quarta temporada e que adicionaram elementos nostálgicos para os episódios.

A comédia também foi muito bem utilizada aqui, em especial numa cena que se passa dentro de um bar chamado Aesop (cujo dono é ninguém menos que o grande poeta grego Esopo, responsável por fábulas atemporais como A Raposa e as Uvas e A Lebre e o Coelho) e que tem como foco a bebedeira de Snow (Ginnifer Goodwin) e sua total falta de senso e responsabilidade frente a outros clientes – incluindo vikings assustadores. O timing é perfeito, e contrasta com outras construções dramáticas.

Os últimos dois capítulos de Once Upon a Time retrocederam um pouco em termos narrativos, mas ainda sim entregaram desfechos importantes e fiéis à identidade da série. E entre altos e baixos, o público se mantém confiante de que, no final do dia, todos poderão encontrar um pouco de felicidade em meio a um cenário caótico.

Once Upon a Time – 6×14: Page 23 / 6×15: A Wondrous Place (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: Adam Kitsis, Edward Horowitz
Direção: Kate Woods, Steve Pearlman
Roteiro: Jane Espenson, Jerome Schwartz

Elenco: Lana Parrilla, Josh Dallas, Jennifer Morrison, Ginnifer Goodwin, Jared S. Gilmore, Emilie de Ravin, Colin O’Donoghue, Sean Maguire, Robert Carlyle, Rebecca Mader
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 42 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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