Se no episódio passado Why Women Kill explorou as complexidades do ciúme e suas consequências, o novo episódio da deliciosas e tragicômica série de Marc Cherry muda consideravelmente a perspectiva de uma das narrativas principais ao nos revelar algo chocante e que, sem sombra de dúvida, vem com catártico potencial para o futuro da temporada. E não apenas isso, mas o criador e roteirista também aproveita para quebrar alguns tabus anacrônicos engessados pela indústria do entretenimento e deixar que os próprios personagens rejam o que lhes convém: não é surpresa que, enquanto o capítulo anterior se valeu muito das investidas melodramáticas, este abra espaço para uma envolvente e suntuosa comédia.

Viajando para os anos 1950, Beth Ann (Ginnifer Goodwin) continua a se aproximar de sua mais nova “amiga”, April (Sadie Calvano), chegando a revelar que até mesmo gosta de sua personalidade rebelde e sem preocupações. April, na verdade, é bem mais profunda do que poderíamos imaginar e reconhece que a traição não é algo aceitável (ainda mais levando em conta a época em que vive); entretanto, a personagem quebra o tradicionalismo patriarcal e masculino no qual vive e decide buscar por uma autonomia artística própria, desencadeando um desejo reprimido da própria Beth Ann – e isso explica os eventos que se sucedem: ela, contrariando tudo o que lhe fora ensinado, experimenta brownies de maconha para “se libertar” de suas amarras.

As coisas tomam um rumo de nos arrancar gargalhadas, ainda que esperado, pelo jeito que a impecável dona de casa se comporta. Eventualmente, ela se recorda de quem tem um jantar de negócios ao qual deve comparecer com o marido, Robert (Sam Jaeger), e minutos antes de terminar de se arrumar, a brisa do composto a acomete. É claro que, durante o curso da reunião, ela não se segura e acaba sendo o divertimento do encontro, atraindo a atenção repreensível de seu esposo. Apesar do arco principal ser bem maior do que este, tais eventos servem para reaproximar o outrora distante casal, levando Beth Ann a comentar sobre sua necessidade de se reencontrar e a consecutiva revelação de que seu marido não aguenta mais seguir as regras que lhe foram impostas – e é assim que ambos resolvem fazer algo único: andar de patins pelas ruas de sua vizinhança na calada da noite.

Para o público, já ficou bem claro que Cherry e seu time de roteiristas brinca com sutilezas e explanações da forma que lhe convém, e que cada um dos episódios trata de um tema familiar específico. Aqui, nos restringimos às divagações da honestidade por meio de revelações satisfatórias (a princípio), e isso não se ausenta da trama envolvendo Simone (Lucy Liu), Karl (Jack Davenport) e Tommy (Leo Howard). Karl segue acreditando que Simone encontrou uma escapatória saudável para lidar com a traição, mas não tem ideia de que a socialite se encontra religiosamente com o jovem Tommy, filho de sua melhor amiga. Entretanto, a conturbada relação ganha um patamar mais intrincado quando Amy (Li Jun Li), filha do primeiro casamento da dona de casa, aparece anunciando que não vai mais se casar devido a uma quebra de confiança imperdoável.

Isso não apenas serve como base para que Simone reflita sobre suas atitudes, como a coloca em um caminho de aceitar que nutre de certos sentimentos pelo amante e anunciar, ao menos para ele, que é possível que os laços em questão tenham um futuro próspero. Nesse meio tempo, o roteiro assinado por Greg Malins aproveita o espaço para delinear um ou outro elemento passional que dialoga com a iteração predecessora e, talvez mais rápido do que deveria, mergulha em uma rápida conclusão que reafirma o rótulo de filler e acaba frustrando os telespectadores que esperavam por mais.

Mas é o trio formado por Taylor (Kirby Howell-Baptiste), Jade (Alexandra Daddario) e Eli (Reid Scott) que nos rouba a atenção ao expandir o problemático relacionamento que se firma entre eles. Taylor e Eli entraram em comum acordo para convidar Jade a se juntar à família, mas não contavam com o retorno do psicótico Duke (Kevin McNamara) para a vida da jovem moça. De alguma forma, ele descobriu que sua ex-namorada estava morando em outra casa e resolveu visitá-los para obrigá-la a voltar para ele – coisa que não acontece, dado à capacidade infalível que Taylor tem de convencer as pessoas de seus erros. Entretanto, essa calculista e organizada habilidade é confrontada pela síndrome de super-herói de Eli, que faz de tudo para recuperar o cachorro de Jade e devolver-lhe a única lembrança boa de seu doloroso passado.

Ainda que Taylor e Eli se encontrem em mais um obstáculo que deve ser ajeitado nos próximos capítulos, o clímax que se segue é mais chocante e mais inesperado do que qualquer outra coisa: Jade, chegando ao seu limite, ataca Duke com força descomunal e o ameaça de morte caso ele resolva voltar a importuná-los. Apesar de honrável sua atitude, é inegável sentir uma crescente obscuridade por parte da jovem – ainda mais levando em conta a mórbida narração proferida por um fantasmagórico necropsista que pode ter premeditado tragédias não tão distantes assim.

Why Women Kill dá uma deslizada em sua nova semana, mas mantém-se em um nível considerável de originalidade e envolvência narrativa. Erguendo-se mais uma vez com escapes cômicos bem estruturados e um elenco que explora ao máximo cada um de seus personagens, a produção de Marc Cherry caminha para um glorioso e aguardado desfecho.

Why Women Kill  – 01×04: You Had Me at Homicide (Idem, 2019 – EUA)

Criado por: Marc Cherry
Direção: Valerie Weiss
Roteiro: Greg Malins
Elenco: Ginnifer Goodwin, Lucy Liu, Kirby Howell-Baptiste, Alexandra Dadario, Sam Jaeger, Jack Davenport, Reid Scott, Leo Howard, Sadie Calvano
Emissora: CBS
Gênero: Drama, Comédia
Duração: 42 minutos