Why Women Kill alcançou um nível de excelência surpreendente nestas últimas duas semanas ao utilizar todos os artifícios narrativos dos quais se dispôs desde sua première em prol de revelações chocantes e uma guinada catártica que nos tirou o fôlego do começo ao fim de cada um dos episódios. Entretanto, isso não foi tudo: guiados por atuações deliciosamente envolventes e encabeçadas por Ginnifer Goodwin, Lucy Liu e Kirby Howell-Baptiste, nossas personagens principais (fortes mulheres que percebem que as vidas que outrora conheciam estão prestes a ruir) encontram-se em novos arcos dramáticos mais complexos, profundos e que estão começando a delinear o aguardado season finale e a materialização da premissa que já nos foi apresentada.

Em meio a tantas produções familiares, Marc Cherry investiu em uma tragicomédia que se afasta daquilo a que estávamos acostumados. Sempre aproveitando as referências à sua outra icônica série (Desperate Housewives), as habilidades artísticas com as quais se nutre para dar vida a essas histórias maravilhosas e competentemente delineadas não se restringiram apenas ao roteiro ou apenas à memorável direção de arte: de fato, as intrincadas tramas uniram-se em uma alegórica fusão, enquanto os tons pastéis dos anos 1960 e a paleta vibrante dos anos 1980 dialoga, ainda que em propositais contradições, com os dias atuais e vêm correspondendo mais do que nunca com o mote regente dos capítulos.

Agora, Cherry abre as portas a uma dupla de diretores que fornece uma nova roupagem para suas construções – incluindo alguns esforços inovadores no tocante à condução cênica. Em There’s No Crying in Murder, título que recebeu o quinto episódio, David Grossman retorna para a cadeira de direção e parece um tanto quanto acuado em realmente mergulhar em experiências alternativas para o costumeiro drama televisivo: felizmente, em faz um ótimo uso das quebras de expectativa principalmente destinadas ao arco de Simone (Liu) e Tommy (Leo Howard), transferindo os beats bem demarcados para os cortes e para as fluidas tematizações técnicas.

Diferente das outras investidas, que nos deram uma sensação desequilibrada quanto aos três contos principais, aqui as coisas se fixam em um balanço digno do que o showrunner e criador vinha tentando nos entregar. Enquanto Simone rouba o nosso foco (como vem fazendo desde sempre), Beth Ann (Ginnifer Goodwin) parece se afastar gradativamente de seu plano para reconquistar o marido e se aproxima como nunca da jovem e não tão ingênua assim April (Sadie Calvano), descobrindo que prefere muito mais a companhia de sua recém-conquistada “amiga” do que ficar ao lado de uma pessoa cujas sagradas bases do casamento não passam de uma mentira.

Mais que isso, a personagem de Goodwin se vê em um dilema para além do que já aconteceu em seu conturbado cotidiano ao cruzar caminhos com Mary (Analeigh Tipton), uma de suas vizinhas que aparentemente está sofrendo abusos físicos do esposo. Fazendo o máximo que pode para manter a compostura e tentar salvá-la, ela se rende a uma metalinguística teatralidade que reflete conceitos como empatia e sororidade, bem como abrindo espaço para discussões próprias do feminismo. Eventualmente, Robert (Sam Jaeger) demonstra que seu segredo pode não ser mais tão oculto assim, explodindo em uma acalorada conversa com Beth Ann, que prova sem precisar fazer muita coisa que ele é um completo covarde e que a situação pode não mudar como ela esperava.

Em outro prospecto, Jade (Alexandra Daddario) é engolfada em uma rede de mentiras que culmina numa pequena resolução e no início de outra linha temática. Ao mesmo tempo que ajuda Eli (Reid Scott) a recuperar sua reputação como roteirista e dar um empurrãozinho para que termine seu próximo longa-metragem, ela percebe que vem despertando, mesmo que indiretamente, um sentimento de descabimento por parte de Taylor (Howell-Baptiste). Assim que percebe que Eli e Jade estão erguendo laços mais íntimos do que o premeditado, Taylor entende que essa nova situação romântica não está mais dando certo, chegando a revelar que seu marido é um ex-viciado em drogas. O resultado, arquitetado com precisão em Practically Lethal in Every Way, é chocante até para os menos desavisados – e se baseia num foreshadowing complicado para a próxima semana.

Dentro de problemáticos e palpáveis núcleos quase historiográficos, Cherry permite que seu time artístico ouse para além do possível: no sexto capítulo, por exemplo, David Warren encontra um fértil território para realizar um plano-sequência circular, transformando o já enorme casarão em um expansivo cenário que esconde segredos mais drásticos do que nos permite ver. Numa perspectiva semelhante, ele também se aproveita de um “teatro filmado”, baseando-se nos imaginativos romances de época realistas para despejar para o público e para os próprios personagens agressivos lampejos de vingança.

As duas novas iterações de Why Women Kill tangenciam uma perfeição televisiva e aproveitam insights tanto estéticos quanto narrativos para mostrar que ainda há muito para se contar dentro da indústria audiovisual do entretenimento. E mais do que isso, Marc Cherry reafirma seu nome dentro desse conturbado escopo e promete algo que, sem dúvida alguma, irá cumprir nas semanas seguintes.

Why Women Kill  – 01×05: There’s No Crying in Murder / 01×06: Practically Lethal in Every Way (Idem, 2019 – EUA)

Criado por: Marc Cherry
Direção: David Grossman, David Warren
Roteiro: Jeff Strauss, Brendan Stephan, Joe Keenan
Elenco: Ginnifer Goodwin, Lucy Liu, Kirby Howell-Baptiste, Alexandra Dadario, Sam Jaeger, Jack Davenport, Reid Scott, Leo Howard, Sadie Calvano
Emissora: CBS
Gênero: Drama, Comédia
Duração: 47 minutos