É costume de Marc Cherry construir narrativas que caminhem para um glorioso e surpreendente final. Como já visto em Desperate Housewives, o criador e showrunner tem a capacidade inigualável de transformar dramas familiares em divertidas e irreverentes jornadas que se valem também de passagens misteriosas que premeditam tragédia ou redenção para seus personagens. Entretanto, em Why Women Kill, Cherry não se restringe apenas a construir episódicas jornadas para seus protagonistas, preferindo, em vez disso, mergulhar na causa e consequência como forma de atar alguns nós soltos e abrir portas para outras interessantes reviravoltas.

E, bom, é justamente isso que aconteceu nos últimos dois episódios dessa série: em meio a um começo convencional, por assim dizer, ele nos apresentou a donas de casa, socialites e mulheres independentes que lutam ao máximo para conseguirem o que quer – seja uma aventura romântica com o filho da melhor amiga, reconquistar um marido que se perdeu nos affairs com uma garçonete ou perceber que toda sua vida não passou de uma mentira. Agora, fazendo jus ao título da produção, caminhamos para um ápice que vem ganhando força desde o momento em que nossas três heroínas decidiram não se conformar com o status quo e buscaram uma irreverência narrativa hilária, permeada com constatações de tirar o fôlego.

Beth Ann (Ginnifer Goodwin) chegou a um ponto em que o relacionamento pelo qual batalhou, marcado pela infeliz perda de sua única filha, simplesmente não existe mais: após descobrir que a amante de seu esposo, April (Sadie Calvano), está grávida, ela tentou contar a Robert (Sam Jaeger) que sabia sobre o caso, mas acabou admitindo para si mesma que poderia sair por cima. Beth Ann, pois, decidiu inventar que fora diagnosticada com câncer e que teria apenas seis meses antes de falecer (a não ser que um “milagre” acontecesse); ao mesmo tempo, impediu que April, sua recém-conquistada amiga, seguisse em frente com o plano de abortar. Eventualmente – e também como era de se esperar -, suas mentiras inofensivas se transformaram em uma bola de neve incontrolável que a colocou em segundo plano e que culminou também em seu maior pesadelo: que Robert escolhesse a amante em vez dela.

Simone (Lucy Liu), ainda carregando consigo uma personalidade ácida e digna de aplausos por não abaixar a cabeça para adversidades inescrupulosas, evolui a ponto de aceitar a orientação sexual de Karl (Jack Davenport), decidindo inclusive morar com o jovem Tommy (Leo Howard) em Paris. Porém, as coisas mudam quando Karl também é diagnosticado com HIV (um tabu estigmado para a comunidade LGBTQ+ na década de 1980), recusando-se a perder seu melhor amigo e abrindo brechas para que o segredo de ambos se espalhasse como água.

Já nos dias atuais, a situação do poliamor entre Jade (Alexandra Daddario), Taylor (Kirby Howell-Baptiste) e Eli (Reid Scott) talvez configure-se como a subtrama mais complicada. Afinal, como bem sabemos, Eli convenceu Jade a lhe dar pílulas de Adderall para se concentrar em seu novo roteiro – sem saber que ele já esteve em reabilitação devido ao vício e à experiência de quase morte. Entretanto, Jade continua complacente com a situação, exigindo que Eli a proteja – isso é, até Taylor descobrir o que está acontecendo e, repentinamente, transformar-se na vilã da história. E, conhecendo a personalidade impulsiva e controladora da personagem de Howell-Baptiste, as coisas não ficariam daquele jeito.

No geral, como já mencionado em críticas anteriores, cada um dos capítulos tem um tema em específico a ser tratado: na sétima iteração, as “mentirinhas” ganham palanque ao esquecerem da premissa de ação e reação – e é justamente isso que é tratado na seguinte. No oitavo episódio, percebemos que essa patológica e aparente compulsão inócua se torna uma mortal doença, levando os personagens a tomarem medidas drásticas e transformarem-se em cegos arautos do caos, ao menos até perceberem o que fizeram. Beth Ann, em uma tentativa de substituir a filha perdida, se oferece para cuidar da criança que está vindo ao mundo e acaba perdendo a amiga e o marido; Simone, em um súbito terror em perder Karl, coloca em xeque a integridade de sua família; e Jade ainda está longe de perceber que sua cândida e ingênua personalidade está para ser desmascarada.

Why Women Kill mais uma vez contorna nossas expectativas e consegue melhorar exponencialmente, caminhando sempre para um final que não tem a escolha de ser apressado, inconclusivo ou intangível. Estamos a duas semanas de uma tragédia potencial – e nunca a espera foi tão extenuante assim.

Why Women Kill  – 01×07: I Found Out What the Secret to Murder Is: Friends. Best Friends / 01×08: Marriages Don’t Break Up on Account of Murder – It’s Just a Symptom That Something Else Is Wrong (Idem, 2019 – EUA)

Criado por: Marc Cherry
Direção: Elizabeth Allen Rosenbaum, Lucy Liu
Roteiro: Hannah Schneider, Alexa Junge
Elenco: Ginnifer Goodwin, Lucy Liu, Kirby Howell-Baptiste, Alexandra Dadario, Sam Jaeger, Jack Davenport, Reid Scott, Leo Howard, Sadie Calvano
Emissora: CBS
Gênero: Drama, Comédia
Duração: 50 minutos