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Crítica | Zumbilândia: Atire Duas Vezes – O Perigo Agora É Outro

Em 2009, Ruben Fleischer superava todas as nossas expectativas ao reviver o saturado gênero de zumbis com a icônica comédia intitulada Zumbilândia. De fato, a narrativa ambientada em um futuro pós-apocalíptico postou-se de forma diferente de quase tudo que já havíamos visto dentro dessa restrita esfera – buscando muitas referências em Todo Mundo Quase Morto e fazendo algumas dramáticas menções a clássicos da década de 1990. Dez anos mais tarde (e uma infeliz investida no spin-off Venom), o diretor retorna mais uma vez ao complexo mundo que criou com a inesperada sequência Zumbilândia: Atire Duas Vezes.

É claro que, a princípio, podemos pensar que Fleischer não poderia ter sorte em criar uma franquia de sucesso sem cometer alguns deslizes; mas, se a sua estreia diretorial tornou-se um fenômeno e um instantâneo cult, angariando uma legião de fãs que aguardavam ansiosamente por uma continuação, é certo dizer que essa nova jornada é tão bem pensada quanto a original. De fato, percebemos que o cineasta não se valeu da “sorte de principiante”, e sim de incríveis habilidades que mantêm-se fiéis as que apresentou na década passada, ao mesmo tempo que se reinventa em uma deliciosa modernização recheada de referências metalinguísticas que nos prende do começo ao fim.

Mais uma vez, a história é apresentada pelo tagarela e às vezes inconveniente Columbus (Jesse Eisenberg). Uma década mais tarde da pandemia que varreu quase o mundo inteiro, a conturbada família formada também por Tallahassee (Woody Harrelson), Wichita (Emma Stone) e Little Rock (Abigail Breslin) encontra um lugar seguro para recomeçar do zero – e é claro que eles escolheriam a Casa Branca como lar. Como é de praxe em basicamente qualquer narrativa tragicômica, tudo corre às mil maravilhas; temos até uma breve explanação do já premeditado relacionamento entre Wichita e Columbus que eventualmente explode em um infeliz (e hilário) drama familiar.

Felizmente, o roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick caminha fluidamente entre os três distintos atos – e parece que a dupla, que nos últimos anos também emprestou seu storytelling para Deadpool, procura mais rebeldia do que em qualquer projeto que nos entregou no passado. Reese e Wernick retornam ao lado de Dave Callaham para colaborarem no longa-metragem e, orquestrando uma road-trip nem um pouco convencional, parecem seguros acerca do que realmente querem fazer: na virada do primeiro para o segundo bloco, Wichita, que abandonara seu par romântico e sua figura paternal para fugir com a irmã, volta para a Casa Branca em busca de armas para resgatar Little Rock, que cansou do extenuante e forçado cotidiano no qual estava inserida para embarcar numa jornada romântica ao lado do músico e hippie Berkley (Avan Jogia), que promete levá-la para o pacífico refúgio de Babylon.

Logo de cara, percebemos que a trama principal traça muitas semelhanças com o primeiro filme; inclusive, Fleischer arquiteta algumas sequências que fazem emulação perfeita à obra predecessora, talvez apresentando ao novo público o que foi perdido ou esquecido depois de tanto tempo, talvez garantindo que seu timing cômico fosse imprimido em basicamente todas as cenas. Entretanto, ele também se afasta da estética de seu longa de estreia ao investir em inovações estéticas: em determinado momento, quando o grupo vai atrás de Little Rock e cruza caminho com a perigosa e bad-ass Nevada (Rosario Dawson), o diretor opta por construir um plano-sequência de tirar o fôlego que usa e abusa de um apreço pela pura sinestesia da ação – mesmo que isso por vezes não faça muito sentido.

Porém, também não podemos deixar de notar que o roteiro acerta em alguns aspectos enquanto falha em outros. Além de Nevada, temos a introdução da ingênua mean girl Madison (interpretada por uma irreconhecível Zoey Deutch), que cruza caminho com Columbus no momento em que ele é deixado por Wichita. Vivendo um freezer durante anos, ela decide se jogar, ainda que não tenha sido convidada, nos braços do jovem e acaba causando uma certa discórdia entre o casal. Sua presença não é desperdiçada e, apesar de se valer de conveniências um tanto quanto forçadas, ela rouba a atenção com uma exuberante e propositalmente ridícula personalidade; todavia, de outro lado, há a pontual inserção de Albuquerque (Luke Wilson) e Flagstaff (Thomas Middleditch), que compartilham poucos minutos de cena com os protagonistas antes de perecerem ao vírus zumbi e, mesmo que sirvam por meta-escape puro, transpassam uma sensação incômoda de saturação.

Conforme a perspectiva retorna para os heróis, a coesão estrutural também volta aos trilhos, recuperando o ritmo até o momento em que a família se reencontra. Já é de se esperar que o grupo de sobreviventes, agora munido de outras companhias, partisse para a batalha final com uma nova horda de zumbis conhecida como T-800: mais velozes, mais inteligentes e mais difíceis de serem eliminados. Entretanto, Fleischer peca na dosagem melodramática dessa cena em específico ao tentar recuperar o sensorialismo e a sutileza tour-de-force de Zumbilândia, falhando ao basicamente não deixar que os mortos-vivos em questão representassem uma ameaça real e finalizando esse arco em uma formulaica experiência de quase morte.

Atire Duas Vezes não tem o mesmo respiro de originalidade que o filme de 2009, mas ainda assim é uma divertida e inesperada aventura guiada mais uma vez por um incrível elenco. Certamente alguns deslizes poderiam ter sido evitados; o resultado final, de qualquer forma, é positivo até mesmo para aqueles que não esperavam muita coisa.

Zumbilândia: Atire Duas Vezes (Zombieland: Double Tap – EUA, 2019)

Direção: Ruben Fleischer
Roteiro: Dave Callaham, Rhett Rees, Paul Wernick
Elenco: Jesse Eisenberg, Emma Stone, Woody Harrelson, Abigail Breslin, Zoey Deutch, Rosario Dawson, Avan Jogia, Luke Wilson, Thomas Middleditch, Bill Murray
Duração: 99 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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