A batalha final já está acontecendo. E definitivamente não era do jeito que esperávamos.

Já é de praxe dizer que Edward Kitsis e Adam Horowitz têm uma mente distorcida – afinal, reafirmo essa constatação na maioria dos textos sobre Once Upon a Time. Os criadores de uma das séries de maior sucesso da ABC, ainda que com todos os seus deslizes endossados desde a quarta temporada, sempre visaram a readaptações sombrias de histórias atemporais e milenares – principalmente os contos de fada. Em seu ano de estreia, descobrimos, por exemplo, que o “lobo mau” que assolou a vida de Chapeuzinho Vermelho era na verdade uma maldição recaída sobre a própria menina, que aprendeu do modo mais doloroso a verdade; Branca de Neve foi a responsável pela infelicidade da Rainha Má ao arrancar-lhe o amor verdadeiro; e Rumplestiltskin era, na verdade, a Fera a trancafiar Bela em seu castelo.

E assim se manteve o nível da série durante vários anos, até que, de uma hora para outro, o time criativo se esquecesse de como entregar histórias suficientemente agradáveis e de tirar o fôlego, usando e abusando com grande desperdício mitologias saturadas com possibilidades e potenciais inimagináveis – como Camelot ou o Submundo. Apenas em seu sexto ano, a cautela sobre deslizes e equívocos atingiu níveis consideráveis para resgatar o que se havia perdido.

Através de uma construção muito interessante – ainda que com alguns altos e baixos -, o sexto ano focou em história escondidas com o tempo e que nos mostravam uma nova perspectiva dos contos que conhecíamos, mas, desta vez, utilizando personagens não tão populares, como o Conde de Monte Cristo, Jekyll e Hyde, Morfeu, entre outros. Para sua segunda metade, o foco foi o conflito extremo entre luz e escuridão, afastando-se dos maniqueísmos que normalmente permeiam este tipo de análise para mergulhar na criação das duas forças opostas – tendo como principal antagonista a Fada Negra (Jaime Murray).

E por que faço um resumo disso? Porque, senhoras e senhores, tudo converge para o incrível season finale ao qual somos apresentados. E ainda que o capítulo anterior, The Song in Your Heart, tenha vindo como uma decepção, o episódio duplo intitulado The Final Battle é uma composição equilibrada entre comédia e drama para ofuscá-lo e entregar exatamente o que promete.

Aqui, a principal identidade narrativa é o paralelismo. Traçando vários comparativos com as temporadas anteriores, esta última iteração marca o fim de uma jornada épica e o início de outra. Logo na primeira sequência, somos apresentados a Lucy (Alison Fernandez), uma personagem desconhecida, mas que está encarregada de proteger com sua vida o livro Once Upon a Time – o qual, como já analisado várias vezes, não se trata apenas de um compilado de histórias, mas sim narrações verdadeiras sobre personalidades que existiram em uma dimensão alternativa. Auxiliada por sua fada-madrinha, Tiger Lily (Sara Tomko), ela é mandada para um Reino distante para que se reencontre com seu pai e possa salvar o mundo em que vive – e, como podemos ver, tudo se assemelha à história de Henry (Jared S. Gilmore) e Emma (Jennifer Morrison), cujo primeiro encontro é corolário de acontecimentos na Floresta Encantada.

A maldição lançada pela Fada Negra resolve dar um twist ainda mais sombrio à cidade de Storybrooke: o que aconteceria se Emma, a Salvadora, fosse arrastada para uma armadilha que a levasse à loucura? Pois é exatamente isso o que acontece; longe de qualquer semelhança com a forte personalidade à qual fomos apresentados, esta nova versão da protagonista é uma mulher assombrada pela crença em coisas irreais e pela necessidade de ajudar seu filho. Entretanto, após ele ser envenenado por uma torta de maçã podre, ela entre em parafuso e é internada no manicômio sob os cuidados de Archie Hopper (Raphael Sbarge) e a nova prefeita: Fiona.

Sua falta de descrença atua com força na Floresta Encantada e nos outros Reinos escondidos pelo mundo: na segunda trama principal, vemos Snow (Ginnifer Goodwin), David (Josh Dallas), Zelena (Rebecca Mader) e Hook (Colin O’Donoghue) presos em um território que está prestes a ser banido da existência. Afinal, a desesperança se instalando gradativamente no coração de Emma é exatamente o que ocasiona todos os personagens de contos de fada a desaparecerem e a ficarem para sempre num abismo letárgico e atemporal.

The Final Battle é pincelado com pequenas pérolas: temos, por exemplo, o reencontro entre Regina e a Rainha Má (ambas interpretadas por Lana Parrilla) em uma sequência cômica e dramática que traz o melhor dos dois mundos para a cena; o momento em que Henry tenta fazer com que sua mãe relembre do casamento com Hook e ambos tem um diálogo sobre a realidade e a ilusão digno de aplauso; e até mesmo o ápice catártico em que todos os personagens estão à beira de serem varridos para sempre e todas as diferenças são colocadas de lado. Os ápices de tensão também são diversos – e aqui posso enfatizar o momento em que os protagonistas estão dentro do chapéu do Chapeleiro Maluco para que viajem entre os Reinos e descobrem que simplesmente não há mais nada (apenas a escuridão).

Em Storybrooke, Fiona tem certeza absoluta de que seu reinado não poderá ser afetado por ninguém, mas a mesma história se repete: sempre há uma válvula de escape – e aqui, essa válvula emerge com o nome de Rumple, cujas memórias não foram alteradas e, juntamente a Henry, tenta destruí-la após ser enganado mais uma vez. A batalha final entre mãe e filho é dramática ao ponto certo e mostra como, apesar dos laços que unem dois parentes tão próximos, a confiança é um dos principais pontos a manter ou apagar um relacionamento.

De forma geral, o episódio teve seus pequenos deslizes, mas emergiu como um dos melhore da série inteira – e definitivamente é o final do ciclo de Emma, Regina, Snow e todos os outros que estávamos esperando desde o princípio. Sabemos que Once Upon a Time foi renovada para uma sétima temporada – e, ao que tudo indica, uma nova jornada se inicia. Agora, precisamos esperar para ver se ela também nos emocionará do mesmo modo como fez durante todos esses anos.

Once Upon a Time – 06×21 / 06×22: The Final Battle (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: Adam Horowitz, Edward Kitsis
Direção: Steve Pearlman, Ralph Hemecker
Roteiro: Adam Horowitz, Edward Kitsis

Elenco: Lana Parrilla, Josh Dallas, Jennifer Morrison, Ginnifer Goodwin, Jared S. Gilmore, Emilie de Ravin, Colin O’Donoghue, Sean Maguire, Robert Carlyle, Rebecca Mader
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 84 min.

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada

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