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Diretor de Pantera Negra escreve tributo emocionante a Chadwick Boseman

Wakanda para sempre!

Na última sexta-feira(28), os fãs foram pegos de surpresa com a morte do ator Chadwick Boseman. O astro foi vítima do câncer de cólon, na qual lutava há 4 anos, revelou sua família em comunicado oficial.

Agora o diretor de Pantera Negra, Ryan Coogler, escreveu um longo e emocionante tributo para o ator, revelado com exclusividade para o The Hollywood Reporter

Confira:

Eu herdei a escolha de elenco da Marvel e dos Irmãos Russo para o T’Challa. Algo pelo qual serei eternamente grato. A primeira vez que vi a performance de Chad como T’Challa foi em uma edição inacabada de Capitão América: Guerra Civil. Eu ainda estava decidindo se dirigir Pantera Negra era ou não a escolha certa para mim. Nunca esquecerei de estar sentado em uma suíte editorial na Disney assistindo a suas cenas. Primeiramente com Scarlett Johansson como Viúva Negra, depois com o titã do cinema sul-africano, John Kani, como o pai de T’Challa, o Rei T’Chaka. Foi nesse momento que soube que queria fazer este filme. Depois que o personagem de Scarlett os deixa, Chad e John começaram a conversar em um idioma que eu nunca tinha ouvido antes. Parecia familiar, cheio dos mesmos sotaques e gírias que crianças negras fariam nos Estados Unidos. Os mesmos que frequentemente seríamos repreendidos por serem desrespeitosos ou impróprios. Mas ali tinha uma musicalidade que parecia antiga, poderosa e africana.

No meu encontro após assistir ao filme, perguntei a Nate Moore, um dos produtores, sobre a linguagem. “Vocês inventaram?”. Nate respondeu: “essa é xhosa, a língua nativa de John Kani. Ele e Chad decidiram fazer a cena assim no set, e nós ficamos com ela”. Eu refleti comigo mesmo: “Ele acabou de aprender falas em outro idioma naquele dia?”. Eu não conseguia conceber o quão difícil deve ter sido, e embora ainda não tivesse conhecido Chad, eu já estava pasmo com sua capacidade como ator.

Eu soube depois que houve muita conversa sobre como T’Challa soaria no filme. A decisão de ter o xhosa como língua oficial de wakanda foi solidificada por Chad, natural da Carolina do Sul, que pôde aprender suas falas em xhosa, ali mesmo. Ele também defendeu que seu personagem falasse com um sotaque africano, para que pudesse apresentar T’Challa ao público como um rei africano cujo dialeto não havia sido conquistado pelo Ocidente.

Eu finalmente conheci Chad no início de 2016, assim que assinei para dirigir o filme. Ele escapou de jornalistas que estavam reunidos em uma coletiva de imprensa na época em que eu divulgava Creed, e se encontrou comigo. Conversamos sobre nossas vidas, sobre o meu tempo jogando futebol na faculdade, sobre o seu tempo em Howard estudando para ser um diretor, sobre a nossa visão coletiva para T’Challa e Wakanda. Falamos sobre a ironia de como seu ex-colega de classe de Howard, Ta-Nehisi Coates, estava escrevendo o arco atual de T’Challa nos quadrinhos da Marvel. E também como Chad conheceu outro estudante de Howard, Prince Jones, que foi assassinado por um policial e que acabou inspirando o livro de Coates, Entre o Mundo e Eu.

Percebi então que Chad era uma anomalia. Ele estava calmo. Seguro. Estudando constantemente. E também gentil, reconfortante, tinha a risada mais calorosa do mundo e olhos que enxergavam muito além de sua idade, mas que ainda podiam brilhar como os de uma criança vendo algo pela primeira vez.

Essa foi a primeira de muitas conversas. Ele era uma pessoa especial. Costumávamos falar sobre herança e o significado de ser africano. Ao se preparar para o filme, ele refletia sobre cada decisão, cada escolha, não apenas em como se refletiriam em si mesmo, mas como essas escolhas poderiam repercutir. “Eles não estão prontos para isso, para o que estamos fazendo”. “É como Star Wars, isto é o Senhor dos Anéis, mas para nós… e maior!”. Ele dizia isso para mim enquanto lutávamos para finalizar alguma cena dramática, enquanto estávamos estendendo uma carga horária. Ou enquanto ele estava coberto de pintura corporal, fazendo suas próprias acrobacias. Ou colidindo com a água gelada e plataformas de pouso de espuma. Eu acenava com a cabeça e sorria, mas não acreditava nele. Eu não tinha ideia se o filme iria funcionar. Eu não tinha certeza se sabia o que estava fazendo. Mas eu olho para trás e percebo que Chad já sabia algo que todos nós não sabíamos. Ele estava jogando a longo prazo. Tudo isso enquanto trabalhava. E ele trabalhou.

Ele ia para as audições dos papéis coadjuvantes, o que não é comum para atores principais em filmes de grande orçamento. Ele estava lá para vários testes, como o de M’Baku com Winston Duke, em que ele transformou uma leitura de química em uma luta livre. Winston até quebrou seu bracelete. No teste de Letitia Wright para Shuri, ela rompeu seu equilíbrio com o seu humor característico e trouxe um sorriso para o rosto de T’Challa, que era 100% de Chad.

Durante as filmagens do filme, nos encontrávamos no escritório ou em minha casa alugada em Atlanta, para discutirmos as falas e diferentes maneiras de adicionar profundidade a cada cena. Conversávamos sobre fantasias, práticas militares. Ele me disse “Os wakandanos tem que dançar durante as coroações. Se eles apenas ficarem parados lá com lanças, o que os separam dos romanos?”. Nos primeiros rascunhos do roteiro, o personagem Erik Killmonger pedia a T’Challa para ser enterrado em Wakanda. Chad desafiou isso e perguntou, “e se Killmonger pedisse para ser enterrado em outro lugar?”.

Chad valorizava profundamente sua privacidade e eu não sabia dos detalhes de sua doença. Depois que sua família divulgou o depoimento, percebi que ele estava convivendo com a doença durante todo o tempo em que o conheci. Por zelar, por ser um líder e um homem de fé, com dignidade e orgulho, ele protegeu seus colaboradores do sofrimento. Ele viveu uma vida linda. E ele fez uma grande arte. Dia após dia, ano após ano. Ele era assim. Ele era um espetáculo, como fogos de artifícios épicos. Contarei histórias sobre estar presente em algumas destas faíscas brilhantes até o fim dos meus dias. Que marca incrível ele deixou para nós.

Eu nunca sofri uma perda tão grande antes. Passei o ano passado me preparando, imaginando e escrevendo palavras para ele dizer, coisas que não estávamos destinados a ver. Isso me deixa quebrado, saber que não poderei assistir a outro close-up dele no monitor, ou caminhar até ele para pedir outra tomada.

Dói ainda mais saber que não poderemos ter outra conversa, uma outra chamada de vídeo, ou uma troca de mensagem de texto. Ele enviava receitas vegetarianas e regimes alimentares para minha família, que seguimos durante a pandemia. Ele fazia questão de verificar como eu e meus entes queridos estavam, mesmo enquanto lidava com o flagelo do câncer.

Em culturas africanas, muitas vezes nos referimos a entes queridos que já foram como ancestrais. Às vezes você é geneticamente relacionado. Às vezes você não. Tive o privilégio de dirigir cenas do personagem de Chad, T’Challa, comunicando-se com seus ancestrais de Wakanda. Estávamos em Atlanta, em um armazém abandonado, com telas azuis e enormes luzes de cinema, mas o desempenho de Chad fez tudo parecer real. Acho que foi porque, desde o momento em que eu o conheci, os ancestrais falavam por meio dele. Não é segredo para mim agora como ele foi capaz de retratar algumas das nossas figuras mais notáveis. Eu não tinha dúvidas de que ele viveria e continuaria a nos abençoar com mais. Mas é com o coração pesado e um sentimento de profunda gratidão por ter estado em sua presença, que tenho que reconhecer o fato de que Chad é agora um ancestral. E eu sei que ele vai cuidar de nós, até que nos encontremos novamente

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Publicado por Edu Wayne

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