A Segunda Guerra Mundial é um dos momentos históricos, juntamente com a Idade Média, que mais rendeu adaptações cinematográficas. Tanto que Dunkirk (2017), longa que o diretor Christopher Nolan nos entrega este ano, não é a primeira incursão do tema nas telonas. O Drama de Dunkirk, também conhecido como A Retirada de Dunkirk, chegou aos cinemas em 1958 e ainda conseguiu o feito de tornar-se o segundo projeto britânico mais popular produzido naquele ano, com um faturamento de US$ 310 mil somente em vendas domésticas nos Estados Unidos e Canadá.

Dunquerque (nome traduzido para o português) era uma cidade portuária na França que tornou-se uma espécie de Faixa de Gaza por volta de 1940. Em suas praias, cerca de 400 mil soldados Aliados ficaram encurralados pelo poderoso exército alemão. O drama da retirada desses combatentes ficou conhecido como Operação Dínamo. Assim, a produção de 1958 obviamente fala sobre o drama em torno dessa retirada e baseia-se em duas obras literárias do período. Para conhecer mais dessa história, acesse o nosso artigo, A História Real de Dunkirk, sobre a contextualização histórica do longa.

No clima do pós-guerra, a indústria cinematográfica britânica emergiu com muita confiança. Financeiramente falando, os números se mantiveram acima dos anos anteriores ao conflito por quase duas décadas. Antes considerado sem o valor artístico do cinema francês e sem o entretenimento característico de Hollywood, a partir deste momento a impressão era de que o cinema no Reino Unido havia atingido uma maturidade intelectual e cultural admirável – e ficou ainda mais conhecido por seus gêneros do que pelos autores em si. A produção, enfim, veio pelas mãos do diretor Leslie Norman, que vivia uma fase intensa da carreira, em que produziu os clássicos Sonhos do Destino (1955) e Carga Perigosa (1957). É o trabalho dele neste épico de guerra que fez toda a diferença para tornar o filme um clássico neste gênero.

O longa reconstitui os eventos de forma bem interessante. Entretanto, expor um momento histórico como esse em um filme considerando todo o contexto é um desafio e tanto. Isso porque esses períodos não têm resoluções simples, reviravoltas diretas ou mesmo elementos que aproximem o relato de uma narrativa da Sétima Arte. Nesses casos, dependendo do trabalho exercido pela equipe de produção, é comum seguir uma linha como verdade absoluta e propagá-la. Essa é uma atitude comum de simplificação e falta de tato capaz de desmerecer qualquer fato histórico. Soma-se a isso, as dificuldades técnicas e orçamentárias de um filme lá no final da década de 1950 para reproduzir essas operações militares.

Em Dunkirk, Leslie Norman atua bem como diretor, em um tremendo esforço para superar as dificuldades citadas acima e ainda trabalhar com o roteiro multifacetado escrito por David Divine e W.P. Lipscomb. Afinal, a dupla abordou tantos pontos de vista da história que a linha narrativa do filme e a construção da identidade dos personagens acaba prejudicada. O elenco, por sua vez, apresenta um trabalho ‘morno’ diante do potencial: o filme contava com Richard Attenborough, ator e diretor consagrado, Bernard Lee (007) e John Mills (Guerra e Paz). Desde os planos com grandes paisagens até as sequências na praia o trabalho de Norman rende algumas cenas visualmente bem estruturadas, principalmente no primeiro e último ato do longa.

Por fim, a dramatização entrega 134 minutos de duração em uma montagem que poderia ter sido melhor organizada para facilitar o entendimento pleno da história. Entretanto, como citado anteriormente, as sequências de abertura (grande parte da batalha se passa aqui) e do desfecho (com poucos cortes e uma fotografia incrível) superam as partes defasadas. O fato do drama dos personagens se perder em meio ao caos deste último ato também é interessante, a partir de uma perspectiva realista que fala a linguagem da guerra.

Mesmo sendo chamado de milagre, a verdade é que Dunkirk foi um desastre histórico. Colocou grande porção de território nas mãos dos nazistas, matou pouco mais de 68 mil britânicos e cerca de 200 mil franceses. Em contraponto, serviu para perpetuar os sentimentos de união, esperança e sacrifício entre os soldados e civis. Por esse resultado, a mensagem final do filme está pronta de maneira orgânica, mas depende de uma boa equipe de direção e produção. O Drama de Dunkirk (1958) é obrigatório para todos os interessados em clássicos de guerra e em histórias reais sobre a Segunda Guerra Mundial, ele comete suas falhas, mas toma os rumos adequados para contar os eventos ocorridos naquele dia trágico.

O Drama de Dunkirk (Dunkirk, Reino Unido / EUA, 1958)

Direção: Leslie Norman
Roteiro: David Divine e W.P. Lipscomb (baseados nas obras de Trevor Dudley Smith, Ewan Butler e J.S. Bradford)
Elenco: John Mills, Richard Attenborough, Bernard Lee
Gênero: Drama, Guerra
Duração: 134 minutos

Texto escrito por Evandro Claudio