Após as inúmeras acusações de assédio sexual, a atriz Heather Graham se abriu publicamente para o site Variety, fornecendo um relato sobre as propostas que recebeu indiretamente por Harvey Weinstein como forma de alavancar sua promissora carreira.

Confira a transcrição completa abaixo:

No começo dos anos 2000, Harvey Weinstein me chamou em seu escritório. Havia uma pilha de roteiros sobre sua mesa. “Eu quero te colocar em um dos meus filmes”, ele disse, e ofereceu-se a me deixar escolher aquele que gostava mais. Mais tarde, ele mencionou que tinha um acordo com sua mulher: ele poderia dormir com quem quisesse quando estivesse fora da cidade. Eu saí da reunião me sentindo desconfortável. Não havia nenhuma menção explícita que para estrelar em um filme dele, eu teria que ir para cama com ele, mas o subtexto estava todo lá.

Algumas semanas depois, fui chamada para fazer uma segunda reunião em seu hotel. Liguei para uma das minhas amigas atrizes para explicar sobre meu desconforto com a situação, e ela se ofereceu para ir comigo. En route, ela me ligou e disse que não poderia ir comigo. Não querendo estar sozinha com ele no hotel, criei uma desculpa – disse que tive uma manhã cheia e teria que adiar. Harvey me disse que minha amiga já estava lá e que os dois ficariam bem desapontados se eu não aparecesse. Sabia que ele estava mentindo, então eu educadamente reiterei que não poderia mais ir.

Esse foi o fim do encontro – nunca fui contratada para um de seus filmes, e não falei sobre minha experiência. Não até Ashley Judd heroicamente compartilhar sua história alguns dias atrás e eu me sentir envergonhada. Se eu tivesse falado uma década atrás, será que eu teria salvado inúmeras mulheres da mesma experiência?

A pergunta – e isso não é uma desculpa – é o que define assédio sexual em um ambiente de trabalho? Ele não ofereceu uma troca explicitamente – sexo por trabalho -, mesmo que eu soubesse o que ele queria dizer. E acabei não indo para o seu hotel. Eu sei que esse é um diálogo interno que muitas mulheres têm – é parte do que nos impede de compartilhar nossas histórias. Não queremos ser atacadas por ler alguma coisa que pôde ou não ter estado lá. Não queremos ser tachadas como fracas por não saber lidar com essas situações, principalmente em um lugar comandado por homens. Não queremos perder nosso trabalho sendo definidas como Mulheres Difíceis. Não queremos ser a primeira ou a única voz no recinto.

Espero que esse momento comece um diálogo que redefina o que significa assédio sexual no trabalho e que empodere as mulheres a falarem quando se sentirem desconfortáveis em uma situação. Eu espero que o diálogo cubra as áreas cinzas dentro das quais nos perguntamos: “será que isso acabou mesmo de acontecer?” e que não precisamos sentir vergonha de ser duronas ou que nossa história “não é boa o suficiente para levar em conta”. Estou grata que as vítimas estão sendo ouvidas, que vozes poderosas na indústria estão se abrindo para dizer que este tipo de comportamento não é mais aceitável, e que um predador está finalmente encarando as consequências – isso significa que o mundo está começando a mudar para o melhor.

E mesmo que eu me sinta culpada por não falar sobre isso anos atrás, sou grata por esse momento. E para as incontáveis mulheres que tiveram essa mesma experiência: eu acredito em vocês.