Semanalmente somos afogados por campanhas de marketing milionárias de grandes produções cinematográficas. Esses filmes geralmente pertencem a algum grande estúdio de Hollywood e variam entre vários subgêneros.

São tantos os super-heróis, sci-fis, oscarizados, fantasias, aventuras ou mesmo as globochanchadas nacionais nos cinemas de shopping centers que às mal sobram lugares para aqueles de menor alcance comercial. Mesmo quando os vemos, seus cartazes menos coloridos, menores e não tão chamativos às vezes podem não ser o suficiente para atrair a atenção de um público distraído.

Quem se interessa por obras da sétima arte com um diferencial, aquelas com pouco mais de substância que o padrão estadunidense, ou mesmo filmes estrangeiros de terras longínquas – ou nem tanto, afinal os latino-americanos ou pequenas produções brasileiras também tem pouco espaço na grade programação –, pode encontrar dificuldades no acesso. Além do tempo em cartaz ser menor, as salas são restritas e localizadas apenas em regiões centrais de grandes centros.

Há, como alternativa, ótimas mostras e festivais – que infelizmente não costumam acontecer pequenas cidades – que nos permitem ver filmes de algum nicho específico, premiados em festivais ao redor do mundo, outros que nunca entrariam em cartaz, ou mesmo aqueles que foram lançados em anos anteriores, mas que passaram despercebidos.

Abaixo, eu, Rodrigo de Assis, e Henrique Artuni elencamos dez excelentes filmes que não tiveram seus devidos destaques, seja no circuito comercial, entre o público ou crítica. Alguns deles, sucessos entre os críticos internacionais mais atentos, nem sequer foram lançados. Confira:

Fogo no Mar

de Gianfranco Rossi (Itália)

Ainda que tenha aparecido por aqui como menção honrosa na lista dos 10 Melhores Filmes de 2016, o documentário vencedor do Urso de Ouro vale ser recomendado. O longa que abriu o festival “É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários” é uma obra-prima de Gianfranco Rossi, do também excelente Sacro GRA (2013). Fogo no Mar trata da crise dos refugiados com um olhar original e roteiro primoroso. – Rodrigo de Assis

Certo Agora, Errado Antes

 de Hong Sang-Soo (Coréia do Sul)

O diretor de Hahaha, A Virgem Desnudada por seus Celibatários e tantos outros ótimos trabalhos retorna com uma das melhores experiências da sua filmografia. Dois belíssimos filmes em um, capazes de deixar rastros, memórias e realçar, ainda que com muita sutileza, o poder da honestidade, da sensorialidade da arte, ou da geral falta delas. – Henrique Artuni

A Bruta Flor do Querer

de Andradina Azevedo e Dida Andrade (Brasil)

Os jovens e desconhecidos diretores (e roteiristas, produtores, montadores e atores principais) conseguiram levar o filme até Gramado e ainda paparam dois Kikitos (direção e fotografia). O diretor de foto, Gallo Rivas, foi depois descoberto como alter-ego dos dois, criado para aumentar suas chances de filar mais de um prêmio. A história deles com A Bruta Flor do Querer é incrível e o filme corresponde com a expectativa criada. É um drama metalinguístico com ares de nouvelle vague que possui em si uma espessa honestidade difícil de encontrar. (RA)

Cemitério do Esplendor

 de Apichatpong Weerasethakul (Tailândia)

O último filme de Apichatpong merece destaque, acima das qualidades pelas quais “Joe” já é famoso, pela sua leveza. Possivelmente, seu trabalho mais sedutor, em termos de ritmo, desde Eternamente Sua. Reconfirmando seu estilo visual e narrativo, quase um Roy Andersson naturalista, Cemitério do Esplendor reflete principalmente sobre as relações entre o macro e micro-universo, da tensão dialética do real com o transcendente, passeando pelas metáforas infinitas, infladas pela pacificidade oriental, mas nunca arrastadas. (HA)

É Apenas o Fim do Mundo

 de Xavier Dolan (França)

Xavier Dolan, jovem diretor (27 anos) e já queridinho da crítica, reuniu um elenco francês estrelar em É Apenas o Fim do Mundo (vencedor do Gran Prix em Cannes), com Gaspard Ulliel, Marion Cotillard, Léa Seydoux, Vincent Cassel e Nathalie Baye. Na adaptação do texto teatral do dramaturgo Jean-Luc Lagarce, Dolan opta por uma estética cheia de closes e planos longos colabora para passar uma forte sensação claustrofóbica no telespectador. O diretor ainda extrai atuações primorosas e constrói o ambiente instável que a família Knipper e seus diálogos afiados precisavam. (RA)

Sangue do Meu Sangue

de Marco Bellochio (Itália)

Bellochio é outro grande mestre que sempre marca presença no circuito brasileiro – apesar de bem atrasado. Alguns filmes simplesmente não tem condições de existir, e de serem tão apaixonantes quanto são, fora das condições em que foram feitos. Da mesma forma que o explosivo Elle só poderia dar certo pelas mãos de Verhoeven, a luz em Sangue do Meu Sangue cheira a catolicismo, a Itália, a política, enfim, a Bellochio. Poderia ser classificado como dois filmes em um também, mas quando as metáforas se conectam e os séculos tão distantes se aproximam, o filme mostra-se único em número, mas múltiplo em gêneros e interpretações. (HA)

Anomalisa 

de Charlie Kaufman e Duke Johnson (EUA)

Kaufman, um dos roteiristas mais brilhantes de Hollywod (de Quero Ser John Malkovich, Adaptação e Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças), arriscou-se pela primeira vez com outro formato: a animação. E o resultado é de deixar o queixo caído. Os diálogos têm a capacidade de ir uma camada além do que estamos acostumados a ver nas telas. É como se as relações entre os personagens vão sendo desconstruídas na conversa, enquanto o absurdismo do mundo em volta deles dá um tempero na história. (RA)

É o Amor e O Ignorante

de Paul Vecchiali (França)

Agora que Vecchiali foi descoberto pelo circuito brasileiro após o belíssimo Noites Brancas no Píer, parece que o lançamento das suas próximas obras será constante. Ainda bem, pois tanto É o Amor como O Ignorante, lançados respectivamente no começo e no final do ano de 2016, são dois ótimos filmes para quem quer ver a sabedoria de um vetusto do cinema francês cheio de vitalidade. Dois filmes que continuam a série de longas “Antidogma” (sua sátira ao movimento dinamarquês, trazendo não dez mandamentos, mas pregando a liberdade total) e trazem o poder da palavra à tona. Com sua estética simples – bem organizada, brega para certos ideais de design, lembrando muito do cinema português e do cinema de Lubitsch –, Vecchiali discute, de um lado, o amor, as paixões, os gêneros, a união, e de outro, a velhice, os arrependimentos, as mulheres. A ponta de Catherine Deneuve em O Ignorante é fabulosa. Assim como a presença do diretor na tela, sempre cheia de força. (HA)

A Ovelha Negra

de Grímur Hákonarson (Finlândia)

A Ovelha Negra – vencedor do prêmio “Um Certo Olhar” (Un certain regard) no Festival de Cannes de 2015 –, é um drama de irmãos mascarado pelas cores, cheiro e temperatura locais. O diretor usa da frieza do ambiente e paralela com a das relações pessoais entre os personagens principais. Ambos são criadores de ovelha e um deles é o “ovelha negra” da família, mas a narrativa intimista e paciente, que respeita o tempo interiorano do lugar onde se passa, insere uma inversão de papéis que deixa tudo mais interessante. (RA)

Escrito por Rodrigo de Assis

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