O que seria dos grandes filmes sem uma grande fotografia?

Em 2017, tivemos mais uma safra de filmes que impressionaram em sua visual. Porém, infelizmente esse grupo seleto acabou ficando mais centrado a filmes independentes ou que fugissem do padrão blockbuster, que em sua maioria (com algumas exceções, claro) foram limitados a um visual mais chapado e sem graça.

Dito isso, o Bastidores escolhe aqui os 10 melhores trabalhos de direção de fotografia do ano!

Colaboração de Matheus Fragata, João Pedro Gibran, Miguel Forlin e Débora Fernandes.

10. Z – A Cidade Perdida | Darius Khondji

Darius Khondji é um mestre, e sua colaboração com James Gray, até agora, só tem rendido belíssimos frutos. Juntos, conceberam o visual de Z – A Cidade Perdida tendo como base a estética do Impressionismo e de alguns quadros feitos no Brasil por pintores franceses e holandeses. É muito difícil não enxergar na intensidade com que as cores naturais são filmadas (exteriorizando o afã interno do protagonista) e na explosão do amarelo que cobre os céus (como se fosse uma mancha de Sol) uma influência clara do movimento artístico criado na França no século XIX e da obra de artistas como Jean Baptiste Debret e Frans Post. (Miguel Forlin)

9. O Filme da Minha Vida | Walter Carvalho

Walter Carvalho é provavelmente o melhor diretor de fotografia que trabalha no Brasil. Com trabalho poderosos como Lavoura Arcaica, Central do Brasil e Madame Satã, Carvalho faz um dos meus mais belos trabalhos na terceira empreitada de Selton Mello na direção de longas. Com um uso de cores quentíssimas, luzes estouradas e movimentos de câmeras sutis, a fotografia de O Filme da Minha Vida se torna um personagem do filme, criando belas imagens que criam sequencias belíssimas que se tornam inesquecíveis, como a reação de Toni após sair do cinema pela primeira vez. Um trabalho que comprova o talento do pernambucano. (João Pedro Gibran)

8. John Wick: Um Novo Dia para Matar | Dan Laustsen

Ultimamente, os filmes de ação resolveram ficar elegantes, e essa talvez seja a melhor coisa a acontecer com o gênero! Para a continuação do hit surpresa estrelado por Keanu Reeves, Dan Laustsen aumenta a gama e fornece ao segundo capítulo de John Wick uma plasticidade impressionante, do mesmo nível que Roger Deakins havia aprontado com seu Skyfall. Através de um equilíbrio de cores fortes, brincadeiras com luzes coloridas e flares, e uma inacreditável cena de tiroteio em uma sala espelhada, John Wick: Um Novo Dia para Matar faz pinturas de suas cenas de ação, e nós só podemos agradecer. (Lucas Nascimento)

7. Silêncio | Rodrigo Prieto

No novo filme de Martin Scorsese, o subestimado Rodrigo Prieto adota uma abordagem predominantemente naturalista, preservando a beleza natural das paisagens do Japão feudal e mantendo uma paleta de cores fria e dessaturada; a exceção sendo durante os momentos em que a figura de Jesus Cristo é inserida na trama, seja pelas orações do Padre Rodrigues ou pelos encontros secretos dos padres com a população japonesa, onde a temperatura aumenta e a paleta torna-se amarelada. Em momentos mais oníricos, há um uso fabuloso da névoa para criar um ambiente perigoso e quase saído de um sonho profundo (vide a espetacular tomada de abertura ou o trajeto pelo “nada” que Rodrigues faz por uma canoa em certo momento) e até algo mais simbolista, como expresso na cena em que o protagonista vê o rosto de Cristo refletido num riacho, em nítida inspiração na obra de Goya. (Lucas Nascimento)

6. La La Land: Cantando Estações | Linus Sandgren

La La Land tem situações sempre muito inventivas na iluminação por conta do gênero musical. Desde demarcações únicas para destacar os dançarinos ou determinados personagens ou aproveitando do auxílio de uma iluminação mais naturalista com o uso do luscofusco durante a primeira dança com Mia e Sebastian. Mesmo mantendo um bom trabalho bastante clássico que presta diversas homenagens ao cinema clássico americano. Vale também mencionar o ótimo trabalho de Linus Sandgren em Guerra dos Sexos, deste ano, onde também emprestou suas luzes ao rosto de Emma Stone. (Matheus Fragata)

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5. A Cura | Bojan Bazelli

A Cura possivelmente foi uma das maiores surpresas do ano, apesar da recepção bem abaixo do esperado para um filme de Gore Verbinski. Como todo bom esteta, Verbinski cria seu filme mais bonito, plasticamente perfeito. Seja pelos enquadramentos que valorizam de fato as locações místicas dos Alpes ou pelos tons escolhidos pelo fotógrafo Bojan Bazelli que tornam todo o lugar mais sombrio, apesar de incrivelmente belo, conseguindo nos provocar desconforto até mesmo em cenários muito bem iluminados. Desde já, uma injustiça o filme ser esquecido pelo Oscar. (Matheus Fragata)

4. Dunkirk | Hoyte Van Hoytema

Mantendo a parceria com o suíço Hoyte Van Hoytema, que parece ter substituído de vez Wally Pfister, Christopher Nolan traz mais um deleite visual com Dunkirk. Assim como em seus trabalhos anteriores, praticamente todas as tomadas foram captadas em locação, o que significou um grande trabalho de Hoytema em usar as luzes naturais da praia de Dunquerque, o céu nublado e o belo pôr-do-sol que encerra projeção. Além desse poderio imagético já bem forte, a dupla inventa de captar cenas de aviação com câmeras IMAX acompladas a aeronaves spitfires de verdade, rendendo algumas das imagens mais impressionantes que esses olhos já viram. Uma grande conquista. (Lucas Nascimento)

3. Roda Gigante | Vittorio Storaro  

Woody Allen já trabalhou com alguns maiores diretores de fotografia da história do cinema como Sven Nykvist, Carlo DiPalma e Gordon Willis. Essa é a segunda parceria com o italiano Vittorio Storaro – vencedor de três Oscar de Melhor Fotografia – que já havia sido iniciada ano passado com Café Society. Em Roda Gigante vemos as grandes características que deixaram o trabalho de Storaro forte: o uso forte de luzes e de cores. Só notar na cena em que Kate Winslet e Juno Temple ficam iluminadas apenas pelas luzes da roda gigante incidem do lado de fora de um quarto. Há, também, um cuidado muito grande com a paleta de cores do filme, que se torna um dos mais bem fotografados de toda a carreira de Allen. (João Pedro Gibran)

2. O Estranho que Nós Amamos | Philippe Le Sourd

Adotando uma estética similar à de Stanley Kubrick no clássico Barry Lyndon, Philippe Le Sourd oferece um visual impressionante para o novo filme de Sofia Coppola. Ainda que ela tenha mantido ambientes escuros, suas sombras são mais suaves que as do filme original. Quando aparecem, são bem usadas com significados. Muitas das vezes as faces dos personagens estão apenas parcialmente iluminadas, principalmente nas conversas entre o cabo e as professoras Martha e Edwina – isso quando John não participa de diálogos inteiros com a cabeça virada para o lado, só metade do rosto exposta.  Ao decorrer da projeção, percebe-se que esta é uma estratégia para mostrar que nós conhecemos pouquíssimo das intenções e motivações de cada personagem, algumas reveladas em momentos de ingenuidade e desejo. Uma construção plástica magnífica, e que impressiona pelo naturalismo. (Debóra Fernandes)

1. Blade Runner 2049 | Roger Deakins

Roger Deakins faz milagres. Em Blade Runner 2049, há diferentes tons de azul para ilustrar a presença de uma neve tóxica na cidade, assim como a luz de neon dos diversos billboards e propagandas holográficas. com destaque para a maravilhosa imagem onde K encara um holograma gigante de Joi, sendo banhado pelos tons de rosa e roxo da projeção. O visual ainda se reinventa quando apresenta um laranja fortíssimo para o esperado retorno de Deckard – e as condições atmosféricas do local onde o aposentado policial se encontra, afetado pela radiação, justificam essa mudança na paleta. Eu poderia falar horas e horas sobre a fotografia de Deakins para o filme, mas basta dizer que ser ele não ganhar o tão esnobado Oscar por esse trabalho, a Academia simplesmente deveria cancelar a categoria de Melhor Fotografia. Não vai ter filme mais bonito e deslumbrante do que este no ano. Em muitos anos, talvez. (Lucas Nascimento)

Mas que belo ano, não? Quais foram seus trabalhos de direção de fotografia preferidos deste ano?

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