A Era de Ouro do Cinema é um período bastante querido pelos amantes da sétima arte, devido as muitas obras primas e aos grandes artistas que surgiram no período, e também por aqueles que tem o cinema como um objeto de estudo, devido ao fato que nesse período se desenvolveram as mais variadas técnicas cinematográficas, que até hoje perduram. Nessa época,surgiriam também diversos grandes diretores, que passam-se os anos, continuam sendo aclamados. Um desses grandes mestres da época clássica do cinema foi John Martin “Jack” Feeney, popularmente conhecido como John Ford, um verdadeiro símbolo dessa época

» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Ford é com certeza um dos diretores mais queridos da Era de Ouro.  Seu apuro visual na hora de construir os seus quadros, sua qualidade em saber contar uma história e desenvolver seus personagens , fizeram com que o diretor conquistasse uma legião de admiradores. Críticos e historiadores afirmam que com seu estilo de direção, John foi o que desenvolveu as bases do cinema ocidental. Outros diretores também o respeitavam e admiravam.Frank Capra afirmava que Ford era o ” rei dos diretores. Alfred Hitchcock afirmava que um filme do diretor era uma ” gratificação visual”. Ingmar Bergman o citou como o ” melhor diretor do mundo”. Akira Kurosawa dizia que o trabalho de Ford havia sido uma grande inspiração.

Em mais de 50 anos de carreira, dirigiu mais de 100 longas, e como todo bom diretor, era extremamente versátil, indo desde a comédia até o drama. Mas, o maior orgulho de Jon Ford eram seus faroestes. Em uma reunião das Associações dos diretores de Hollywood, teria se levantado e dito: ” Meu nome é John Ford e eu faço Westerns”. Com seus filmes que abordavam o gênero, Ford mostrou ao mundo a conquista do oeste selvagem pelo povo americano. Suas obras foram as grandes responsáveis por fazer com que essa famosa época da história americana entrassem no imáginario popular, muito devido ao fato dele ter trazido um aspecto mistico ao Velho Oeste, quase que o idealizando, e muitas vezes fazendo com que a lenda se sobressaísse aos fatos

Dito isso, fizemos uma lista dos filmes essenciais para quem quiser se aventurar nas obras dessa figura quase que folclórica de Hollywood. Foi bastante dificil fazer uma lista de filmes mais importantes de um diretor que durante a carreira dirigiu mais de 100 longas, mas creio que consegui escolher aqueles que foram os mais memoráveis dentro da longa cinematografia.

CAVALO DE FERRO

Em 1924, John Ford já havia dirigido cerca de 51 obras, entre longas e curta metragens, e já havia aparecido em cerca de 42 como ator. Porém, foi apenas com o filme Cavalo de Ferro que o diretor começou a chamar a atenção. Na trama, temos uma versão idealizada da construção da Primeira Ferrovia Transcontinental dos Estados Unidos, considerada maior feito tecnológico do século XIX no país.

Nessa obra é possível notar uma maior maturidade de John Ford no que tange a técnica. Aqui ele mostra muitas daquelas que seriam suas marcas registradas. Os tiros longos, as disputas entre indígenas e brancos, e uma trama com uma boa dose de humor.

O DENUNCIANTE

Ford possuía descendência irlandesa, e durante sua carreira faria alguns filmes baseados na sua genealogia, da qual se orgulhava. Um desses filmes é o drama O Denunciante, de 1935, que foi o responsável por dar ao diretor seu primeiro Oscar. A trama se passa durante a Guerra de Independência Irlandesa, e foca em um ex-guerrilheiro do IRA, Gypo Nolan (Victor McLaglen) que deseja trair um ex-companheiro de combate em troca de recompensa.

Apesar de ter um sentimentalismo extremamente datado, é um filme muito importante pra quem quiser compreender a carreira de Ford. É impressionante a atmosfera criada pelo diretor, misturando expressionismo alemão com o toque clássico americano. Vale ressaltar também a coragem de John ao produzir esse filme, que não tinha nenhum apelo comercial para a época.

NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS

Talvez Tempo das Diligências não seja o filme mais complexo de Ford, mas é impossível não colocar esse longa entre os essenciais do diretor, devido a importância que esse teve em sua carreira, e por ser considerado o filme que revolucionou o gênero faroeste. Na trama, acompanhamos 9 pessoas viajando através do Arizona em uma diligência, e que tentam sobreviver ao ataque de indígenas comandados pelo guerreiro Gerônimo

Em Tempos das Diligências, temos a primeira colaboração de John Wayne e John Ford, que iria se transformar em uma das parcerias mais famosas de Hollywood. Com uma trama com ritmo bem orquestrado, um uso inteligente da câmera, e um roteiro com bons arcos dramáticos, a trama de Ford pode ser considerada o ‘’ western definidor’’, e responsável por trazer a mitologia para ao gênero.

A MOCIDADE DE LINCOLN

Diferente do que muitos pensam, Ford não foi a vida toda um republicano, tendo sido por um bom tempo um defensor do partido democrata, e tinha Franklin Delano Roosevelt como um dos seus políticos favoritos. Porém, o diretor tinha um apreço especial por Abraham Lincoln, devido as politicas progressistas que ele fez em seu mandato. A admiração era tanta, que Ford fez um filme em homenagem ao politico, e este é um dos essenciais na carreira do diretor.

Na trama, vemos o a juventude do futuro presidente dos Estados Unidos. Um jovem de família humilde, e que desde sempre tinha um espirito solidário, e mostrava ter um futuro brilhante em seu caminho. Foi a primeira colaboração entre Henry Fonda e John Ford. Enquanto John Wayne era considerada a parte heroica do diretor, Fonda foi visto como sua parte consciente e racional.

AS VINHAS DA IRA

Como dito no tópico acima, Ford foi por boa parte da sua vida um progressista, que se preocupava com questões sociais. Sua visão de mundo ficou muito bem clara no filme As Vinhas da Ira, filme que lhe garantiu seu segundo Oscar, e que é considerado um dos melhores trabalhos sobre a grande depressão. Na trama, acompanhamos a família Joad, que é expulsa das suas terras durante, e decide ir tentar a sorte em Nova York

Com uma grande forte de realismo e sentimentalismo nas suas cenas, e com uma belíssima interpretação de Henry Fonda como protagonista, As Vinhas da Ira é um filme da importância monumental na extensa carreira de Ford, por retratar com excelência talvez o período mais sombrio da história dos Estados Unidos.

COMO ERA VERDE O MEU VALE

Mais um filme de John Ford que teria um país da Grã Bretanha como pano de fundo, e é considerado como sendo uma de suas obras mais tocantes. Como Era Meu Verde Meu Vale foca em uma família do interior do País de Gales, os Morgan, que tem sua vida mudada pelo aparecimento de minas de carvão na localidade.

O filme ficou mal visto na história por ter sido o responsável por tirar o Oscar de melhor de Cidadão Kane, considerado até hoje o melhor filme da história, em uma das decisões mais injustas da história da academia. Mas não dá para negar os valores da obra, na qual Ford mostra mais uma vez seu apuro visual, e traz críticas fortes a industrialização e a hipocrisia da sociedade puritana.

FOMOS OS SACRIFICADOS

Quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra, o presidente Franklin Delano Roosevelt decidiu enviar para a Europa cinco dos maiores cineastas do país (John Ford, John Huston, Frank Capra, George Stevens e William Wyler) para documentar os eventos, para poder usa-los como propaganda. Ford, que foi o responsável por documentar a invasão a Normandia, ficou extremamente marcado pelo que viu, e quando voltou aos Estados Unidos, usou tudo o que viu para poder dirigir o filme Fomos os Sacrificados, que tem como trama a batalha entre a Marinha americana e o Japão nas Filipinas, e o uso dos barcos torpedeiros nos confrontos.

Acabou se tornando talvez o filme mais subestimado da carreira do diretor, mas quem assiste percebe que é um dos melhores filmes sobre a segunda guerra lançados na Era de Ouro. Com batalhas bastante realistas, um ar patriótico e ao mesmo tempo sombrio sobre o papel do soldado, é um filme que merece lugar nessa lista.

A PAIXÃO DOS FORTES

Ford foi o responsável por trazer o aspecto mitológico para o faroeste com sua obra ” No Tempo das Diligências”. Ele ampliou ainda mais esse conceito com o filme Paixão dos Fortes, lançado em 1946, considerado até hoje uma das maiores obras primas do gênero. A história tem como foco o famoso tiroteio de Ok Corral, protagonizado pelo famoso xerife Wyatt Earp

Diferente dos westerns habitual, Paixão dos Fortes foca na construção do velho oeste, e de como era a vida dos cidadãos americanos nesse período tão fascinante da história americana, um período que ao mesmo tempo tinha suas tragédias, era marcado pela simplicidade e pelas fortes relações entre os que habitavam as cidades. Ainda temos uma boa atuação do elenco, principalmente de Henry Fonda no papel de Earp, e como sempre á majestosa técnica de Ford no manuseio da câmera, com seus belos planos abertos, como se transformasse o Monument Valley em um personagem da sua trama

SANGUE DE HERÓIS

Lançado em 1948, Sangue de Heróis foi o primeiro da famosa Trilogia da Cavalaria de Ford, que contaria ainda com os filmes Legião Invencível e Rio Bravo. Aqui temos o encontro dos dois principais parceiros de John na sua carreira, Henry Fonda e John Wayne, com uma história focada no confronto entre os índios Apache contra os soldados americanos

Sangue de Heróis é Ford no seu melhor. Temos um belo uso dos planos na composição dos enquadramentos, mostrando a relação entre os personagens, um ritmo muito bem orquestrado, sabendo dosar humor, sentimentalismo e ação, e trazendo uma ode ao exército americano, que ele tanto respeitava. John também não deixa de lado a sua veia crítica, mostrando o quão catastrófico pode se tornar a sede de poder.

DEPOIS DO VENDAVAL

Depois de 17 anos, John Ford voltaria a fazer um filme que teria como pano de fundo a sua amada Irlanda, país que ele sempre teve orgulho de ter nascido. E lá, ele lançou aquele que seria seu filme mais diferente do que estava acostumado a fazer. Na trama, o grande parceiro de Ford, John Wayne, interpreta um ex-pugilista, que decide voltar para casa e recuperar suas terras. La se apaixona pela bela e temperamental Mary Kate Danaher interpretada por Maureen O´Hara, a musa de John.

Em Depois do Vendaval, John Ford tem o desejo de apresentar os costumes da sua amada Ilha Esmeralda, ou seja, temos um grande sentimento de nostalgia dentro da obra. O filme é bastante diferente dos outros filmes feitos pelo diretor, por se tratar de uma comédia romântica, ou seja, com muito humor e algumas cenas sentimentais que já conhecemos. Vale destacar que Wayne e O´Hara tem aqui uma química incrível, e é muito bom vê-los contracenando juntos

RASTROS DE ÓDIO

Em 1956, John Ford lançaria aqueles que muitos consideram o seu melhor western, e o filme mais complexo de toda a sua carreira. Foi considerado pela American Film Institute o maior filme do gênero, e o 12° maior filme americano de todos os tempos. Na trama, temos o ex soldado confederado Ethan Edwards, que vai passar a caçar uma tribo de comanches que matou seu irmão e cunhada, e sequestrou suas duas sobrinhas. Ethan odeia ameríndios, e fara de tudo encontrar os indígenas.

Falar da técnica de John Ford é chover no molhado. Aqui temos mais um exemplo de como o diretor era mestre na construção dos seus quadros, com cada um deles tendo sua importância na construção da obra. Não apenas isso, temos um roteiro bem impactante e bastante corajoso. Aqui, o índio não é mais mostrado um selvagem, e sim, um ser que foi apenas começou a agir da mesma maneira do homem branco, ou seja, com ódio.

Temos na obra também a desconstrução do cowboy herói e valente. Ethan Edwards é um ser formado pelo ódio. Seu preconceito contra os ameríndios fará com que ele não meça suas ações para capturar aqueles que destruíram sua família. Mas o personagem é extremamente ambíguo. Seu ódio seria simples preconceito, ou haveria uma motivação mais interna?

O HOMEM QUE MATOU O FACÍNORA

Em 1962, John Ford lançou aquele que seria considerado o seu último grande filme, visto que nenhum dos seus trabalhos posteriores conseguiram chamar tanta atenção quanto os de outrora. Na trama, o senador Ranse Stoddard (James Stewart) volta a pequena cidade onde começou sua carreira política, e onde ficou famoso por ter assassinado o cruel Liberty Valance, para o enterro de um antigo amigo, Tom Doniphon. Stoddard então decide contar a história de como Doniphon teve importância na sua vida e carreira.

O Homem que matou o Facínora é quase uma representação simbólica da carreira de Ford. É um filme que personifica a idédia de o Velho Oeste se tornou um lugar de grande aspecto mitológico, e como dito no inicio, uma Era onde muitas vezes a lenda era impressa, e o fato enterrado,  e por esse motivo ter entrado no imaginário popular, e sendo ainda hoje extremamente cultuado, e isso se deve muito a cinematografia de John.

Ford também foi um diretor que sempre mudou muito suas abordagens, e isso também é refletido nesse filme, no qual ele tenta desmitificar o oeste como um lugar onde tudo se resolve com a violência, ressaltando a importância da liberdade de imprensa e do voto.

Porém, apesar de fazer uma homenagem as características de míticas do oeste, John mais uma vez deixa a sua veia crítica aflorar, e ironiza o fato de que muitas vezes nossos valores tem como base algo que é irreal, e os valores da nossa sociedade as vezes são na verdade uma grande mentira.

Comente!