O cowboy, o policial, o soldado, o astronauta, o maior durão do cinema ainda vivo e que sempre foi o melhor no seu trabalho em todos os filmes que atuou, e que tal imensa dedicação se refletiu para o seu imenso talento por detrás das câmeras.

Esse é Clint Eastwood, um dos maiores artistas à surgirem no século passado e que veio agraciando o cinema desde sua época de Cowboy nos Western Spaghettis de Sergio Leone, e fazendo sua estréia como diretor no meio de um ótimo suspense digno de Hitchcock como Perversa Paixão e seu macabro faroeste O Estranho sem Nome. Mostrando desde então uma constante dádiva de ser um exímio contador de histórias não importa qual fosse o gênero, e trazendo muito de sua influência e estilo clássica de diretores como John Ford à Howard Hawks entre outros para os seus filmes até hoje.

Poderíamos passar longos parágrafos falando sobre cada um de seus filmes, os bons e ruins, mas é bom celebrar um dos melhores diretores (e atores) trabalhando incansavelmente até hoje, então para isso aqui está essa lista para relembrar os melhores filmes dirigidos pelo mesmo até hoje e que cimentaram a grande lenda que é Clint Eastwood.

Honkytonk Man – A Última Canção (1982)

Dentro de um leque bem vasto de ótimos filmes desapareciados, é muito triste ver como até hoje, Honkytonk Man não recebe a atenção e admiração que lhe é tão merecida. Não só em ser uma ótima adaptação da obra de Clancy Carlile, mas por Eastwood fazer dela um filme parte road-movie, parte musical country, parte comédia quase pastelão e parte um belo drama de maturidade, amizade e legado deixado entre gerações através da música, outra de suas paixões. Se tornando um filme onde o humor e o drama dirigem lado a lado pela mesma estrada, capaz de despertar as mais diferentes sensações e sentimentos, mas uma das mais certas é de que Honkytonk Man é sem dúvidas sua obra-prima mais subestimada até hoje.

Josey Wales, o Fora da Lei (1976)

Dentre todos os Westerns cujo dirigiu e participou, Josey Wales talvez assuma uma personalidade bem mais diferencial do que talvez possam esperar do diretor/ator. Onde mesmo dentro de sua trama bem familiar de vingança e imerso no cenário da guerra civil americana, que facilmente remete aos seus dias em Três Homens em Conflito, Eastwood busca nisso humanizar a figura do Homem sem Nome que o sempre identificaram, tanto por dar um nome à essa figura e construir um homem que se importa com o seu próximo apesar de sua violenta natureza, ao mesmo tempo em que homenageia os melhores elementos do gênero em uma só tacada. Com a aura de desbravação do mundo governado pela violência, o toque sádico de um Western spaghetti mas com uma ótica humorada e esperançosa de um filme de Howard Hawks, tudo que faz de Josey Wales seu Western mais escapista e “comercial”, mas cujo filme e personagem honram todo o legado do gênero em um digno espetáculo.

Coração de Caçador (1990)

Talvez o filme mais ousado de sua carreira, em Coração de Caçador você encontrava Clint Eastwood não só descaradamente homenageando um de seus mestres consagrados como John Huston ao fazer a retratação indireta da produção de um dos seus mais consagrados clássicos Uma Aventura na África. Onde Clint também consegue se usar disso para fazer um intrínseco estudo de personagem sobre o ego cego de um homem frente às suas ambições capazes de ferir as seus seguidores leais e aqueles que o admiram. Ao mesmo tempo que se configura como sendo um olhar de personalidade quase que autobiográfica de um artista almejando manter-se fiel à sua marca autoral na sua obra, mas cujo o medo da sombriedade de sua realidade o faz fugir para o escapismo, seja ele na caça ou o próprio cinema. Seja qual for, Coração de Caçador não deixa de ser uma obra brilhante.

Um Mundo Perfeito (1993)

Inexplicável como um filme quase tão perfeito no que tem a oferecer em sua proposta de um Road-movie dramático e com uma construção narrativa redondinha e cheia de complexidades, ainda não foi capaz de ser uma unanimidade entre público e críticas até hoje. Mas para aqueles que souberam reconhecer e se encantar com o brilhantismo presente em Um Mundo Perfeito. O tipo de brilhantismo que consegue ter uma belíssima construção de história que imediatamente alça a atenção do público do início ao fim, e no que poderia facilmente aparentar ser um simples filme de amizade sobre o jovem menino enxergando a bondade no criminoso fugitivo Butch Haynes (um brilhante Kevin Costner), o que em parte é. Mas em sua essência se apresenta muito mais como sendo um drama meditativo cujo o tom remete aos filmes da Nova Hollywood, e que igualmente à aqueles filmes Clint constrói personagens perdidos entre seus ideais, moral e as próprias identidades. Por um percurso que parece sempre prestes a fazer uma curva rumo à tragédia inevitável, mas que surpreende com uma ótica de esperança refletida até o fim da estrada. Ou seja, um perfeito Road-movie de cabo a rabo.

Bird (1988)

Qual seria a melhor forma de um diretor como Eastwood de exercitar sua imensa versatilidade do que senão vindo a explorar outra de suas paixões dentro da sua paixão por cinema, eis que o seu primoroso Bird nasceu. Metade musical jazz e metade drama psicológico de uma figura tão complexa como Charlie “Bird” Parker, e um pouco similar à sua proposta em Coração de Caçador Eastwood busca dentro dessa história criar uma biografia de ascensão e queda, de uma carreira artística brilhante e a de um homem frente aos desafios mortais de sua vida, sendo encarnado soberbamente por uma performance de corpo e alma de Forest Whitaker. E ainda sendo agraciado pela direção carregada de coração e paixão, que refletem de volta ao seu próprio amor pela música que ele carregou consigo toda a sua vida e desempenhou um papel em todo o seu trabalho, e que ganhou vida aqui de forma bela e poética que servem como maior exemplo do diretor tão humano e verdadeiro que Eastwood é.

O Estranho sem Nome (1973)

Quando você é um artista que se moldou dentro do gênero do Western por anos e atuando em alguns dos melhores filmes do gênero, com certeza chegaria um momento de sua carreira em que você próprio colocaria as mãos na massa em dirigir um filme do gênero. No caso de Eastwood, quase tudo isso ele realizou, pois no lugar de um filme ele faz com O Estranho sem Nome uma experiência aterrorizante e revisionista tão única para o gênero. Longe de fazer uma história clássica e esperançosa, e sim algo bem próximo a de um filme de terror que ousa mostrar a crua realidade de um universo por muito tempo embelezado. Pois se Sam Peckinpah redefinia o Western americano com sua violência poética, Eastwood o faz aqui com uma sombria sinfonia poética de morte, que vem pronta para condenar o pior que a podridão moral do ser humano é capaz de realizar. Em outras palavras, este foi apenas o primeiro de outros grandes faroestes que Clint Eastwood, tanto como diretor quanto ator, viria presentear ao cinema.

Gran Torino (2008)

No que era até então uma de suas últimas grandes performances em um filme, Eastwood mostrou através do personagem de Walt Kowalski, retratar no presente a visão de uma geração endurecida pela perda e o palpável preconceito enraizado se desenrolando dentro de um palco multicultural. Mas no que poderia facilmente se tornar em uma história embasada, se torna na mão de um mestre como Eastwood uma história cujo o espírito muito remete à aura clássica de um filme como Rastros de Ódio de John Ford onde de forma similar vemos um personagem inescrupuloso embarcando em uma jornada íntima de redenção e união que todos buscamos em vida. Trazido à vida por uma de suas grandes performances onde Kowalski encarna uma brilhante síntese de todos os seus personagens durões, desde o homem sem nome ou Harry Callahan, carregando a definição perfeita de um velho durão, com cada olhar de seus olhos e cada linha falada de sua boca, mas com um coração de ouro. Que no final se torna outro de seus grandes personagens dentro de outro de seus grandes filmes.

As Pontes de Madison (1995)

É certamente difícil classificar um filme feito As Pontes de Madison como sendo um puro romance onde o filme quase se assume sendo um anti à tudo isso. Questionando através do relacionamento de sua dupla de protagonista, o verdadeiro sentido da palavra amor. Sobre o que é ou o que se entende quando se falam de “amor verdadeiro”. O por quê que um homem e mulher se sentem tão atraídos a se procurarem e ficarem juntos, ou qual o sentido de rótulos frente aos sentimentos verdadeiros entre dois humanos. Que talvez torna As Pontes de Madison em um filme difícil de se assistir, mas que vale cada segundo pela forma que lida com questões sociais e emocionais tão genuínas e verdadeiras, e onde vemos também dois titãs como Streep e Eastwood contracenando um dos melhores casais do cinema, protagonizando aqui um dos maiores romances (ou anti-romances) do cinema.

Sobre Meninos e Lobos (2003)

Quando vemos um diretor como Clint Eastwood realizando aqui um de seus filmes mais ousados, sombrios, brutais e inevitavelmente realistas de sua carreira, você sabe que está diante de um filme não menos que impactante. Onde vemos o diretor tão consciente da potencial controvérsia e fragilidade que o tema principal do filme aborda sobre justiça com as próprias mãos, e não tem medo de procurar encontrar o desconforto emocional de seu público a ponto de sacudi-lo emocionalmente e psicologicamente de todas as formas possíveis. Construindo uma aura quase de um pesadelo pesado e sombrio que cerca o mundo opressor governado pelo mal, e o mal em um filme de Clint Eastwood, é sempre o pior que a sociedade tem para dar em seu estado de puro ódio e negatividade incorruptível, onde os que uma vez já foram meninos inocentes podem se tornar os lobos selvagens que tanto temiam. Que fazem de Sobre Meninos e Lobos um dos filmes mais cínicos de Eastwood, capaz de no final deixar um vazio de esperança dentro de nós, o mesmo sentimento de frustração depois de ter um pesadelo injusto e macabro. Mas a sensação de ter visto uma grande obra de arte aqui é instantânea.

Os Imperdoáveis (1992)

Se há alguma frase justa para definir Os Imperdoáveis de Eastwood, com certeza seria ápice, o ápice não só de sua carreira como ambos diretor e ator, mas também do gênero que ele próprio ajudou à moldar sua história, e continuou o fazendo de forma revolucionária até o final grandioso que Os Imperdoáveis dá para o mundo dos cowboys, para as lendas, para o Western como um todo. Um mundo que foge do romantismo e do escapismo que poderiam remeter ao gênero, e que apresenta cowboys doentes e caindo de cavalos, homens da lei corruptos, mortes dolorosas e que demoram para ter um fim, onde a justiça impera e lendas não passam de histórias. Mas como o seu brilhante final deixa claro, histórias também são capazes de ser reais. A mesma história que Eastwood fazia aqui com a sua maior obra-prima até hoje e que solidifica a grande lenda real que é.

Acha que deixamos algum grande filme dirigido por Clint Eastwood de fora? Qual o seu filme favorito do diretor?