CUIDADO: muitos spoilers à frente.

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American Horror Story não seria nada sem personagens muito bem construídos. Perpassando por todas as facetas do ser humano e do sobrenatural, o panteão idealizado por Ryan Murphy carrega consigo uma gama gigantesca dos melhores personagens da televisão contemporânea – e separamos nessa lista alguns dos mais complexos e arquitetados de todas as temporadas, exceto Cult. Confira abaixo (e não se esqueça de deixar seu comentário):

MISTY DAY (American Horror Story: Coven)

Misty Day (Lily Rabe) é o símbolo da inocência na terceira temporada de AHS. Quer dizer, até ela descobrir que poderia ser a reencarnação da próxima Suprema. Sua personalidade altruísta e naturalista, advinda de sua experiência de quase morte quando criança, tem como principal fofo defender os fracos e inocentes, bem como ajudar ao próximo a enxergar a beleza naquilo que é rechaçado pelo conservadorismo da sociedade em que vive. Apesar dessa leveza, ela não leva desaforos para casa e defende sua honra com as próprias mãos – literalmente. Sua morte na season finale foi uma das mais chocantes dentro do panteão criado por Murphy, e definitivamente deixou um espaço em branco no legado da franquia.

LANA WINTERS (American Horror Story: Asylum)

“Não cruze meu caminho” parece ter sido o mantra adotado por Lana Winters (Sarah Paulson). A jornalista se infiltrou no manicômio Briarcliff com a mais pura das atenções, mas em poucos momentos revelou a verdadeira natureza de seus objetivos: fazer a cobertura da chegada do Cara Sangrente, um dos maiores serial killers a aterrorizar a cidade em que viviam. Sendo confrontada pelos responsáveis pela instituição, Lana invade as instalações e acaba sendo internada como paciente por sua orientação sexual, passando por diversos tratamentos desumanos – incluindo o de choque – até encontrar um “final feliz” digno. Apesar de sua essência heroica, a personagem também demonstrou sua complexidade ao se deixar levar pela ambição e pela fama em detrimento de ajudar àqueles que prometeu.

IRMÃ JUDY (American Horror Story: Asylum)

A clássica história da antagonista que entra em um arco de redenção crescente é encarnada pela incrível e metamórfica Jessica Lange na segunda temporada da série. A irmã Judy é uma ex-cantora que abandonou sua vida devassa após atropelar uma inocente menina, transformando-se em uma severa freira e deixando seus vícios mundanos para trás. Entretanto, para salvar a si mesma, começou a transferir suas frustrações para os pacientes e para seus colegas de trabalhando, fazendo com que Briarcliff caísse nas “graças” de uma instituição hipócrita e torturante. Judy é a representação das falhas humanas em toda a metáfora construída sobre Asylum, e talvez seja uma das criações mais complexas de todo o panteão.

DR. OLIVER THREDSON (American Horror Story: Asylum)

Zachary Quinto com certeza nos deixou sem dormir ao revelar a verdadeira identidade de seu personagem, Oliver Thredson, em Aslyum. O falso moralismo do psiquiatra, disposto a ajudar seus pacientes do modo que conseguisse, principalmente para salvá-los da lobotomia ou da cadeira elétrica, era na verdade um perturbado homem vivendo às custas do Complexo de Édipo, buscando o ideal de mãe perfeita nas mulheres que perseguia. Revelando ser também o psicótico “Cara Sangrenta”, Oliver foi um dos principais antagonistas para o arco de Lana, mantendo-a em cárcere privado e engravidando-a contra sua vontade.

FIONA GOODE (American Horror Story: Coven)

Lange mais uma vez encarna uma complexa personagem cega pelo poder e pela ambição, mas agora com uma roupagem mística e muito mais cínica que o normal. Abandonando a personalidade clerical e quase divina de seus outros personagens, a atriz encarna Fiona Goode, Suprema do coven residente em Nova Orleans e que o levou às ruínas da contemporaneidade ao utilizar todo seu potencial para construir uma vida e uma reputação banhadas pelo vício, pelo sexo e por assassinatos. Fiona é a representação da negação do passado e da queda do presente, entrando em constante conflito com as outras bruxas, apesar de demonstrar seu lado maternal quando o assunto recai sobre sua filha Cordelia (Paulson).

TWISTY, O PALHAÇO (American Horror Story: Freakshow)

Freakshow pode não ter sido a melhor das temporadas no quesito narrativo, mas definitivamente merece seus créditos por criar personagens memoráveis. O maior deles, apesar de ter encontrado seu fim de uma forma inexplicável e desnecessária, é Twisty, o Palhaço (John Carroll Lynch). Membro de uma antiga trupe circense, Twisty sofreu por sua condição mental desacelerada e por sua inocência influenciável, levando-a a tentar suicídio após ser demitido e passar a acreditar que era ruim. Desse modo, ele transformou-se em um serial killer próprio da década de 1950, matando suas vítimas como forma de purificá-las e varrer para longe a devassidão na qual “mergulhara”. Sua história é-nos explicada ainda no começo da temporada, e ele finalmente encontra o caminho da redenção – enquanto nós demos adeus ao motor principal da iteração.

LIZ TAYLOR (American Horror Story: Hotel)

A história de Liz Taylor (Denis O’Hare) é tão emocionante e bem desenvolvida quanto a da atriz que inspirou seu nome. Antes um homem de negócio, Liz estava em constante conflito com sua identidade, refletindo em plena sociedade moderna as questões de gênero que ainda caem nos círculos do tabu quando falamos do âmbito antropológico. Sua máscara – um terno cinza-claro desbotado e sapatos italianos engraxados – logo cai quando está sozinho e ele pode ser quem realmente é: uma drag queen luxuosa e vaidosa que pode se embelezar do modo que quiser. Não é nenhuma surpresa que Liz logo abandona sua antiga vida para viver o que sempre sonho no Hotel Cortez, incluindo se apaixonar e reencontrar o filho perdido.

IRMÃ MARY EUNICE (American Horror Story: Asylum)

O bem e o mal. A luz e a escuridão. Os maniqueísmos tão perigosos para as narrativas de terror são tratados com grande carinho e cautela em Asylum, principalmente pela dupla personalidade encarnada pela Irmã Mary Eunice (Rabe), uma freira que é alvo de uma poderosa presença demoníaca na instituição Briarcliff e logo deixa toda sua inclinação para a religiosidade e para a bondade de lado, transformando-se em uma criatura sedenta pela banalidade humana. Conseguindo distorcer todas as situações macabras que ocorrem no manicômio, Mary Eunice logo ascende à gerência e condena todos os pacientes a uma vida de miséria e perdição. É de esperar que a personagem encontre um trágico fim, mas a dualidade com a qual ela é obrigada a lutar transforma sua morte em um dos momentos mais bem construídos da franquia.

PEPPER (American Horror Story: Asylum/Freakshow)

Pepper (Naomi Grossman) foi o primeiro indício de que todas as temporadas de AHS estavam conectadas. Fazendo sua primeira aparição em Asylum e depois em Freakshow, ela foi diagnosticada com microcefalia e renegada pela família, sendo acolhida por Elsa Mars (Lange) no circo dos horrores. Após a morte do irmão gêmeo, ela foi mandada para viver com sua irmã até ser tachada como a responsável pela morte do sobrinho e ser internada em Briarcliff. Sua mudança dentro da instituição foi uma das mais incríveis dentro de todas as temporadas, passando de uma subestimada mulher com problemas para uma inteligente guardiã daqueles que estima.

A CONDESSA (American Horror Story: Hotel)

A proprietária do Hotel Cortez é, sem sombra de dúvida, uma das mais poéticas personagens a fazerem parte da antologia AHS. Interpretada pelas sutis e comoventes nuances de Lady Gaga, a sensual vampira sempre lidou com seus vícios de uma forma dolorosa e prazerosa, ao mesmo tempo. Sua gula pelo poder e pelo controle daqueles que viviam consigo muitas vezes a deixou cega perante as necessidades que os outros tinham além de servi-la, colocando-a num patamar de contradição constante e que, apesar dos claros deslizes, deu uma endossada nos temas-base de Hotel. Sua conexão com os personagens secundários também é digna de nota, principalmente por conseguir fazer com que todos cedessem à incrível capacidade de persuasão.

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