A legalização da maconha é um tema bastante presente no Brasil e no mundo. Há aqueles que são a favor e aqueles que são contrários ao seu uso recreativo, e muitos países vêm lançando um outro olhar sobre esse tema. A produção brasileira original da HBO Latin America resolveu entrar de vez no assunto ao criar a série Pico da Neblina (Quico Meirelles), e imaginar como seria se o país legalizasse a maconha.

A ideia inicial é bastante interessante, ao seguir a vida do traficante Biriba (Luis Navarro) que aparece vendendo uma variedade de maconha, e entre suas idas de cliente em cliente, há uma cena em que aparecem os Deputados votando favoravelmente a legalização da maconha. Só que isso é apenas usado como gatilho pela série para desenvolver a trama, não é algo observado (não no primeiro episódio) no resto da narrativa. O debate político é apenas o ponto de partida para a história e depois não se toca mais no assunto, sendo debatido de forma superficial para desenvolver os dramas dos personagens e para mostrar como as drogas já estavam na vida das pessoas antes de uma possível legalização. 

O protagonista Biriba tem uma relação amistosa com os traficantes, e isso fica claro desde o início, quando vai visitar seu amigo Salim (Henrique Santana) em uma das bocas. O que se percebe neste primeiro episódio é que o roteiro e o diretor geral Quico Meirelles teve um cuidado para não romantizar o tráfico como único caminho para os moradores da periferia. Biriba é filho de um famoso criminoso, e desde a legalização apresentada nos primeiros minutos o personagem passa a ter uma consciência se é aquilo que ele realmente quer para a vida dele, e é aí que de forma inteligente colocam na trama Vini (Daniel Furlan) como o rapaz que sonha em ser empreendedor e para isso se une a biriba para abrir uma loja de venda de maconha, algo legal perante a lei, já que a droga foi legalizada no país. 

Quanto ao roteiro, pode-se dizer que ele é bastante rápido nos acontecimentos, isso feito para gerar novos assuntos que possam empurrar a trama para a frente e para dar uma outra abordagem para que o telespectador possa continuar acompanhando a série nos próximos episódios. Essa curiosidade surge ao presenciar os dramas dos personagens, principalmente o de Biriba que além de ter um conflito com sua família precisa esconder do tráfico de drogas que irá abrir uma loja com venda de maconha legalizada, portanto confrontando o próprio tráfico. 

Um acerto da série está no elenco montado, mesclando atores que não são conhecidos do grande público, mas que são bastante competentes ao entrar em seus personagens. Todo o elenco tem sua função bem feita, e conseguem prender a atenção do público, pois a interpretação por ser convincente ajuda a dar maior dramaticidade para seus personagens que têm os seus segredos e suas situações cotidianas de perigo bem desenvolvidas, tanto dos policiais quanto dos próprios traficantes. 

Pico da Neblina mostra a legalização da maconha do ponto de vista do traficante, mas por ser superficial em não se aprofundar no tema a série se torna vazia em passar uma mensagem clara. Parece não saber qual caminho seguir se os dramas do personagens ou o das drogas como algo do dia a dia da sociedade. Há também situações que são jogadas, como a cena do policial que está ali apenas para mostrar a relação corrupta entre policiais e tráfico de drogas, e que mesmo com a legalização da maconha continua ocorrendo corrupção. Perde-se uma grande oportunidade de discutir um tema bastante relevante para a sociedade e atual, e por ficar apenas no raso perde um pouco de seu encanto.