Pulando longe de qualquer comentário sobressalente sobre o sujeito em questão ser “o grande mestre das reviravoltas finais”, pois o foco aqui está em relembrar, e celebrar, todos os filmes da carreira de M. Night Shyamalan que formaram o diretor que ele é hoje. Desde seu início no cinema indie ao divisor de águas que ainda é até hoje. E com cada um deles sempre mostrando ser o diretor que buscou por criar os conceitos nada usuais e os explorou também de forma nada usuais, mas o bastante para criar um estilo muito próprio em suas temáticas sobre crença, existência e humanismo onde sempre os abordou nos gêneros mais diversificados que comprovam sua versatilidade como cineasta.

Nem sempre acertando em cheio, o que já lhe ocasionou a má fama de diretor decadente por muito tempo, mas cujo acertos comprovam sua grandiosidade como criador e cujo o tempo só ajudou à melhorar suas obras mais subestimadas. E aqui estão todos eles, desde o início de sua carreira até hoje, todos os filmes que formam sua filmografia ordenados do pior ao melhor. Estejam livres para discordar e nos dizer qual o seu filme favorito do senhor M. Night Shyamalan.

O  Último Mestre do Ar (2010)

Excuso de comentar sobre o quanto esse filme foi uma vergonha de adaptação live-action de uma série animada que já era excelente em todos os sentidos, como também uma marca vergonhosa no currículo de Shyamalan que realiza um típico blockbuster sem alma ou devoção onde nem sua inventividade visual consegue se destacar ou salvar o filme de ser um desastre. Um filme feito para que todos, inclusive seu diretor, esquecerem que sequer existe.

Depois da Terra (2013)

Talvez o desastre crítico e financeiro desse falho blockbuster milionário não tenha sido de total culpa de Shyamalan, que tenta fazer o que pode com um visual interessante e uma construção de universo sci-fi bem básica, tentando melhorar o material que tem em mãos que é criado completamente sem inspiração alguma. E que mais parece servir apenas para massagear o ego de sua estrela principal Will Smith na sua desesperada tentativa de tornar seu filho Jaden Smith em uma estrela na frente de uma franquia milionária, que acaba apenas sendo um fracasso gigante e tedioso.

Praying with Anger (1992)

Muitos com certeza podem olhar para esse debut de Shyamalan sendo mais como um filme de estudante amador, longe dos avanços técnicos e narrativos que ele viria fazer e solidificar em sua carreira. O que é, mas é um filme que já consegue se identificar traços do talento em ascensão que Shyamalan se tornaria, já mostrando sua disposição como um jovem diretor em querer fazer um drama lento e meditativo, indo em busca de temas altos e relevantes como a busca pelas suas origens, o retrato de sua cultura, a fé em balanço. Pode não acertar em quase nada, mas pelo menos foi um início de carreira minimamente interessante.

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Fim dos Tempos (2008)

Esse filme ainda consegue levantar a dúvida sobre se ele é um dos piores filmes de evento/desastre (literalmente) já feitos, ou uma das comédias B mais hilárias já feitas. Seja qual das opiniões for, é um filme onde o nível de atuação do elenco consegue atravessar a linha do risívelmente patético, e que torna automaticamente sua trama, por mais atrapalhada que seja e que não sabe até onde levar o seu conceito, realmente interessante de se assistir desenrolar e rir das suas patetices (propositais?) até o fim.

Olhos Abertos (1998)

Similarmente ao seu debut Praying with Anger, Shyamalan já em seu segundo e mais “profissional” filme pouco mostrava do diretor especialista no supernatural e na criação do clima de suspense contínuo que se tornaria sua recorrente marca, mostrando aqui ainda ser um jovem cineasta cheio de questionamentos e dúvidas sobre a vida, e buscando examinar a própria natureza da fé através da ótica pura e inocente do jovem menino Joshua (um bem decente Joseph Cross). Realmente não é nada demais e um filme esquecível dentro do seu currículo, mas que possui coração o suficiente para ser um filme pequeno e especial do diretor.

A Dama na Água (2006)

Junto de A Vila e o seu recente Vidro, talvez os filmes mais divisos da carreira do diretor, Dama na Água ainda consegue ser uma pobre ovelha negra no seu currículo. E talvez compreensível já que sua bizarra história conto de fadas com uma cara de Disney sendo dirigida para um público mais jovem, e misturado com um drama psicológico pesado com presentes elementos de terror, mas em busca de construir uma história de união, conexão, passado e futuro, destino, arrependimento, fé, e ler o futuro em palavras cruzadas e caixas de cereais, com certeza não é para todos. E que formam essa boa dose de pretensão narrativas, mas que são tão profundamente tratadas e desenvolvidos através do filme, que inevitavelmente cria essa identidade encantadora e fofa que você não pode consegue se não admirar. Um filme estranho, mas também profundamente pessoal, belo e doce na mesma medida.

A Visita (2015)

Facilmente, e também considerado por muitos como um bom retorno à forma de Shyamalan, que finalmente largava para trás os gigantes blockbusters desastrosos que apenas drenaram o seu tempo e lhe criaram a fama de um talento decadente, e que voltava aqui com A Visita à mostrar suas reais e verdadeiras qualidades como cineasta. Desconstruindo todo e qualquer clichê que seu formato found footage possa despertar, e onde, ao invés de fazer um filme de terror com sustos gratuitos e algum segredo paranormal, faz tanto uma hilária mistura de comédia e terror que parecem andar de mãos dadas do início ao fim, mas que também se mantém fiel ao traço pessoal e autoral do diretor em querer criar um genuíno drama familiar entre uma mãe e seus filhos. Pode não ser um dos melhores de seus filmes, mas ainda uma das provas do melhor que ele pode fazer com tão pouco.

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A Vila (2004)

Para muitos o início do suposto declínio da carreira de Shyamalan, enquanto para os fãs mais tenazes do diretor, é seu melhor filme. Mas A Vila é um daqueles filme cujo o tempo só fez bem para que a defesa de seus fãs que o tornaram em um clássico Cult soar totalmente legítima. Onde mesmo que ainda não seja um filme que acerte completamente nas pretensões transcendentais que sua ambiciosa reviravolta final busca causar, ainda é um fortíssimo drama com um visual exuberante e uma textura contemplativa quase poética. Cujo onde sua suposta mensagem sócio-política toma sua verdadeira personalidade humanista que faz parte do traço autoral de seu diretor, e se torna uma mensagem sobre escapar o pior da sociedade e a busca do que é mais puro em nossa existência e sobre o que é viver. Um ótimo filme que com certeza merece uma segunda chance.

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Fragmentado (2016)

Depois de um período de tempo conhecido como seu hiatus de qualidade, que já tinha acabado em A Visita, mas foi aqui com Fragmentado que Shyamalan quis mostrar que ele tinha tudo de melhor ainda vivo dentro dele. Retornando ao gênero que o solidificara anos atrás com o Sexto Sentido e criava aqui um (aparente) thriller de suspense/terror que manipula as emoções de seu público durante todo o tempo. Em uma trama que à primeira vista pode parecer mais um filme genérico do gênero recheado com os previsíveis clichês com o antagonista masculino macabro e as personagens femininas de sexo frágil, mas é também onde seu diretor consegue adicionar mais camadas atrás camadas de mistério, drama e até mesmo humor em sua essência e fazendo sim seu filme mais imprevisível em anos. E que só é ainda mais engrandecido graças à fantástica performance de James McAvoy e ao seu impactante final que prometia muito mais brilhantismo para o futuro do diretor.

Vidro (2019)

Depois de um rápido retorno às boas graças dos críticos com seu Fragmentado, e trazendo a promessa de um futuro grande a caminho, Shyamalan volta à dividir opiniões na sua conclusão da Trilogia Eastrail 177 iniciada em Corpo Fechado e concluída com Vidro. Que propositalmente quebra todas e quaisquer expectativas que os fãs poderiam ter para o final da história desses personagens, ao fazer um filme que se assemelha ao ritmo lento e simbólico de Corpo Fechado, mas com segredos a espreita como seu Fragmentado. Para no final trazer seu personagem título em glória, e mandar sua mensagem, como personagem e autor, de uma realidade onde super-heróis sim existem em nosso mundo. Suas decisões finais podem ser ousadas até demais e com certeza mal interpretadas, mas é Shyamalan mostrando que ainda faz o seu trabalho de autor com total paixão.

Sinais (2002)

O terceiro “clássico instantâneo” na carreira Shyamalan e o dia em que ele conseguiu pegar alguns dos melhores elementos de seus mestres de cabeceira e fazer um casamento especial de tons. Com a constante construção de suspense imparável antecipando o misterioso mal escondido nesse pacato meio urbano que está para aterrorizar à tudo e a todos como em Os Pássaros de Hitchcock, e o drama familiar entre pai e filhos vestido de filme de invasão alienígena como fosse um filme de Spielberg. Fazendo de Sinais um filme que funciona nessas duas medidas perfeitamente, mas acima de tudo um filme coberto por uma ótica tão inocente e pura que transmite tão bem o que procura dizer sobre como a fé perdida consegue ser encontrada até nos piores e mais desoladores momentos de nossas vidas.

O Sexto Sentido (1999)

O filme que deu início à tudo, à criação de clima de suspense ininterrupto, os personagens que parecem sempre estar escondendo algo por detrás das performances misteriosas de seus atores, o grande plot-twist final que choca e surpreende ao público e que faz repensar o filme todo até ali. Mas pra além dessa fama que o solidificou como um clássico, e para muitos um superestimado comparado com que de melhor e diferente o diretor faria depois, o Sexto Sentido ainda é sim um filme cuja densidade dramática de sua história sobre morte e crença consegue não só se elevar para além do seu gênero de terror onde habita eficientemente bem, como também o torna em um excelentíssimo filme sobre superação e elevação espiritual em uma existência habitada em dúvidas e medo. Discutivelmente o melhor filme de Shyamalan, mas sem dúvidas um de seus grandes melhores.

Corpo Fechado (2000)

Possivelmente o filme que já definia todo o cinema que seu diretor viria a construir. O tipo de cinema que quebra quaisquer tipo de expectativas que pode-se ter sobre o tipo de história que promete contar, para assim explorar os temas que sempre lhe interessaram sobre a existência e a fé. E ao fazer isso com a mitologia dos quadrinhos de super-heróis, não só Shyamalan mostrava fazer algo tão a frente de seu tempo por buscar inserir esta mitologia em nosso mundo real de uma maneira extremamente palpável, e construindo-a no formato de um digno drama existencialista que lida com elementos de depressão, solidão e superação de uma forma genuinamente emocional e igualmente inspiradora no que procura dizer sobre a dádiva do ser um super-herói que está presente em uma pessoa como todas as outras. E que assim, como outros de seus filmes, mostra que a força da crença é onde criamos o verdadeiro poder presente em cada um de nós e nos fazer ser pessoas melhores. Se era possível se fazer algo assim em um filme de super-heróis? Corpo Fechado mostra que sim!

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