Tecnologia

A empresa que fabrica sua RAM acabou de travar os preços altos até 2030

A Micron assinou 16 contratos de longo prazo que garantem margens recordes até 2030, confirmando que a crise de memória não tem fim à vista.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
4 min de leitura

A notícia que ninguém queria que fosse real

A Micron Technology, maior fabricante americana de chips de memória, divulgou nesta semana os resultados do terceiro trimestre fiscal de 2026. Os números são históricos: US$ 41,5 bilhões em receita, crescimento de 346% ano a ano, quinto trimestre consecutivo de recorde. Margem bruta de 84,9%. Projeção de US$ 50 bilhões e margem de 86% para o próximo trimestre. As ações subiram 13% no after hours.

Para quem investe em Micron, é um banquete. Para quem compra consoles, PCs, smartphones ou qualquer dispositivo com memória dentro, o relatório traz uma mensagem diferente: os preços altos de RAM e armazenamento não são uma crise passageira. São o novo normal, contratualmente garantido até pelo menos 2030.

Os contratos que travaram a situação

O ponto central do relatório não foi a receita recorde. Foi o anúncio de 16 acordos estratégicos de clientes, chamados internamente de SCAs. Esses contratos, firmados com quatro grandes clientes e três médios ao longo de 2026, funcionam como contratos do tipo pague-ou-leve: os compradores se comprometem a adquirir volumes específicos de memória independentemente de o mercado cair. Em troca, têm acesso garantido ao produto numa banda de preço com piso e teto.

O piso garante à Micron margens brutas acima de qualquer trimestre registrado na história da empresa. O CEO Sanjay Mehrotra foi direto sobre o que isso significa: os 16 contratos cobrem cerca de 20% do volume de DRAM e um terço do NAND da empresa, e 14 deles carregam comprometimento mínimo acumulado de US$ 100 bilhões. A Micron também está recebendo US$ 22 bilhões em depósitos antecipados dos clientes para financiar a expansão das fábricas.

Não é especulação sobre o futuro do mercado. É o mercado dizendo formalmente à Micron que vai pagar caro por memória pelos próximos cinco anos.

Por que não há saída no curto prazo

Mehrotra explicou com clareza o problema estrutural por trás de tudo isso. Construir uma nova fábrica de chips hoje é mais difícil e demorado do que era há dez anos, porque a complexidade dos tipos de memória modernos aumentou drasticamente. Mesmo com investimentos massivos em expansão, incluindo novos projetos nos Estados Unidos, em Taiwan, no Japão e em Singapura, a capacidade instalada não vai conseguir acompanhar a demanda. A SK Hynix, segunda maior fabricante global, anunciou planos de triplicar sua capacidade de produção de wafers, mas o prazo é 2034.

A demanda que está sugando todo o oxigênio do mercado é a dos data centers de inteligência artificial. A memória HBM, que vai dentro das GPUs usadas em treinamento de modelos, consome capacidade fabril de forma radicalmente diferente das memórias convencionais para PCs e consoles.

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Quando a TSMC e a Micron estão operando com utilização máxima para suprir a Nvidia e a Microsoft, sobra menos capacidade para o mercado de consumo. O resultado é o que estamos vendo: consoles mais caros, PCs mais caros, smartphones mais caros e, em breve, um PlayStation 6 cujo preço analistas já não conseguem projetar com confiança.

O que isso significa para games e tecnologia de consumo

Na prática, o relatório da Micron é o documento que transforma em contrato o que antes era previsão. A crise de memória que causou os aumentos de preço do PS5, do Xbox Series X e da Steam Machine não está chegando ao fim. Ela foi contratualmente estendida.

Para quem está decidindo o que comprar agora, o cenário tem implicações diretas. O PS5 Pro, que custa US$ 749,99, vai parecer caro hoje, mas pode parecer razoável quando o PS6 chegar ao mercado em 2027 com preço que analistas já projetam entre US$ 699 e US$ 1.000 dependendo de como a Sony conseguir negociar o custo de componentes.

Pegar o PS5 Pro agora, antes de uma nova rodada de reajustes que a própria Microsoft já confirmou para agosto, e antes de o PS6 redefinir o patamar de preço da indústria, é provavelmente a decisão mais econômica para quem quer qualidade máxima em console nos próximos dois a três anos.

O mercado de memória decidiu que vai lucrar historicamente por mais cinco anos. Quem compra hardware de consumo vai dividir essa conta. A diferença é quando você decide entrar nessa equação.

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