Crítica | O Príncipe Dragão: 1ª Temporada – Voltando às Fantasias Clássicas

Recentemente, a Netflix vem investindo em um número considerável de animações, muitas delas de aprazível satisfação – bem acima da média em alguns casos. Nas últimas semanas, Matt Groening fechou contrato para entregar-se a mais uma de suas irreverências com (Des)Encanto, e dias depois uma homenagem ácida às ficções científicas ganhou seu espaço na forma de Final Space. Agora, a plataforma resolveu expandir ainda mais o conteúdo original voltado para um público infanto-juvenil, mas que também mantém relações com as nostálgicas produções que fizeram parte da geração millenial – incluindo os desenhos de emissoras como Nickelodeon e Cartoon Network.

O Príncipe Dragão, pelo próprio título, já emula inúmeras obras de fantasia das últimas décadas e séculos – e confesso que, antes de começar a assistir, pensei que a trama giraria em torno de um príncipe transformado na lendária criatura. Entretanto, Aaron Ehasz resolveu levar a série à conotação literal, iniciando o episódio piloto com um prólogo muito interessante: de acordo com a mitologia que criou, o mundo vivia em harmonia até que um humano corrompido pela ambição deu origem à Magia das Trevas levou as raças mágicas a banirem os homens para uma terra longínqua, separada por um rio escaldante de lava guardado por um temível dragão. Entretanto, o frágil acordo de paz acabou quando seu herdeiro, ainda dentro do ovo, foi aparentemente assassinado, marcando o início de uma guerra que ainda alcançaria proporções drásticas.

Logo nos primeiros minutos, é possível mergulhar num cosmos totalmente nostálgico e envolvente, o qual primeiro nos mostra as cartas do jogo, apresentando os cenários, os futuros embates e as questões políticas e sociais que envolvem cada um dos grupos. De um lado, temos os humanos, cujas províncias são lideradas pelo rei Harrow de Katolis (Luc Roderique), ciente da batalha que se aproxima e aconselhado pelo misterioso Viren (Jason Simpson), um mago que esconde muito mais do que aparenta. De outro, temos o avanço élfico comandado por Runaan (Jonathan Holmes), chefe do clã assassino que pretende vingar a morte do príncipe herdeiro. O roteiro e a direção combinam-se em essa fragmentação dupla que arquiteta uma atmosfera densa, complexa e, por vezes, aterrorizante por inúmeros motivos. É claro que, sendo esta a primeira temporada, os levantes catárticos ainda se contêm para melhor explicar ao público o que está acontecendo.

Seguindo uma lógica compreensível e que nem ao menos ousa tangenciar acontecimentos ocasionais, os dois mundos se cruzam nas figuras dos filhos do rei, Callum (Jack de Sena) e Ezran (Sasha Rojen), e na da jovem aprendiz elfa Rayla (Paula Burrows num sotaque escocês delicioso e inebriante). Ainda que o encontro não seja um dos melhores, seus objetivos em comum de cessar os conflitos e retornar o ovo (escondido em segredo durante todo esse tempo nas masmorras do castelo) dão força para o fortalecimento de laços de confiança e de uma amizade imprevisível. Basicamente, o time criativo vale-se muito do confronto de personalidades para fornecer ritmo e orquestrar cada um dos atos com a maestria necessária para nos satisfazer.

A ambiência nostálgica não é mera coincidência: Ehasz é responsável por uma das séries mais aclamadas da década passada – Avatar: A Lenda de Aang -, e é óbvio que usaria de vários elementos miméticos para compor sua mais nova aventura. Desde o prólogo até a concepção imagética mantêm paralelismos estruturais – por exemplo, a separação das raças e as vestimentas entre os clãs dos elementos em Avatar e em O Príncipe Dragão são praticamente as mesmas. Entretanto, aqui o showrunner vale-se de uma fórmula clássica e contínua em detrimento de acontecimentos episódicos, o que se afasta do revestimento antológico para uma progressão seriada. Não estou falando que uma opção é melhor que outra, mas sim que ambas funcionam em suas respectivas obras, ainda mais levando em conta que o intuito de cada uma é relativamente diferente.

A primeira temporada é bem mais dinâmica e profunda do que lhe damos crédito: o trio protagonista lida com inseguranças próprias, ilusões acerca de sua própria história, mentiras, descréditos e ilusões que podem ser tanto positivas quanto negativas para o fomento dos arcos. Tudo isso, ainda que peque um pouco em diálogos excessiva e desnecessariamente cômicos, é respaldado por sequências bem coreografadas de luta e de magia, contribuindo para a manutenção da atmosfera fantástica. Além disso, é notável o amadurecimento dos personagens principais à medida que se aproximam de seu destino – e como o mais otimista dos sentimentos não é páreo para o que está por vir. Tal premissa inclusive serve de cliffhanger para uma quase confirmada continuação que tem tudo para ser tão boa quanto ou melhor que a primeira iteração.

As técnicas de animação estranham à prima vista, visto que se aproximam muito de uma linguagem 2D dos videogames clássicos. Entretanto, é compreensível sua utilização para nos manter vidrados em um cosmos com traços de RPG e que permitem a conexão entre público e série. A fluidez, por muitas vezes, dá lugar a uma truncada delineação que, por mais bizarra que pareça, aumenta o clima nostálgico de modo inenarrável.

O Príncipe Dragão pode não ser perfeito, mas é certamente um produto audiovisual com gigantesco potencial. Ainda que satisfatório, penso duas vezes antes de falar que já vimos tudo o que a nova série teve a oferecer: a jornada de Rayla, Callum e Ezran acabou de começar, e diversos perigos ainda espreitam o caminho dos jovens heróis.

O Príncipe Dragão – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2018)

Criado por: Aaron Ehasz, Justin Richmond
Direção: Villads Spangsberg, Giancarlo Volpe, Meruan Salim
Roteiro: Aaron Ehasz, Justin Richmond, Devon Giehl, Iain Hendry
Elenco: Jack De Sena, Paula Burrows, Sasha Rojen, Racquel Belmonte, Jason Simpson, Jesse Inocalla, Jonathan Holmes, Luc Roderique, Adrian Petriw
Emissora: Netflix
Episódios: 09
Gênero: Animação, Fantasia, Aventura
Duração: 24 min. aprox.

Crítica | Maniac – Uma Ótima Minissérie da Netflix

A Netflix vem se tornando especialista em criar conteúdo diferenciado para seu público, sendo ele terror, ficção científica ou drama. Entre séries e filmes há muito conteúdo com qualidade duvidosa e há aqueles que se destacam pela trama bem trabalhada e pelo jeito que a narrativa é apresentada. Maniac é uma minissérie que entra na segunda hipótese e se diferencia do que tem sido lançado na tv, pois poucas séries ou minisséries têm ousado tanto no jeito de contar uma história quanto a série de Cary Fukunaga.

Maniac trata de diversos assuntos em seus dez episódios, muitos deles de modo superficial, pois não são o foco principal da trama e outros estão ali presentes em todos os episódios, mas são de difícil compreensão do público, já que nada do que acontece ou é apresentado em cada episódio nos é dado de bandeja. A cada palavra, cada diálogo é necessário refletir o que aquela frase está nos indicando e em alguns momentos é preciso decifrar as várias situações que estão sendo impostas e se elas fazem algum sentido.

O tema principal é a falta de conexão que existe em nosso tempo. Não apenas a falta de amor e empatia, mas também uma falta substancial de afeto. Vivemos sozinhos em uma sociedade em que tudo é artificial, não apenas a tecnologia, mas os prazeres e até mesmo o amor. A trama toda gira em torno dos protagonistas Annie Landsberg (Emma Stone) e Owen Milgrim (Jonah Hill), ambos com problemas relacionados a sentimentos que não conseguem entender ou decifrar. Owen tem claramente um problema com sua família e tem um histórico de psicose, seu principal amigo é imaginário, enquanto Annie tem um trauma pesado envolvendo sua irmã e é viciada em um remédio experimental que usa com frequência para esquecer o passado. São traumas sociais com raízes profundas e que com o tempo deixam os protagonistas com cada vez mais transtornos.

Os dois personagens são muito bem desenvolvidos durante a minissérie, e a partir do momento que passam a participar do experimento vamos compreendendo melhor o porquê de Annie querer entrar nele, mesmo aparentemente não tendo nenhum problema mental e o porquê de Owen acreditar que esteja ficando louco, a pontode achar que esteja vendo coisas, já que acredita ter visto Annie alguma vez em sua vida mesmo sem a conhecer.

E este é o principal tema da minissérie muito bem trabalhado por Fukunaga que é o destino. Ao colocar o personagem de Jonah Hill no caminho de Annie e fazer com que se esbarrarem no laboratório faz com que nos mostre o que realmente a série tem a nos contar. Seria como se esse encontro, mesmo que por acaso, já estivesse pré-disposto a acontecer, seria como se estivesse escrito nas estrelas. No próprio experimento em que suas mentes parecem interagir uma com a outra há um momento que não se sabe se aquilo que estão vivendo é real ou imaginário. Annie e Owen acabam se encontrando em várias realidades distintas e em várias situações, como o momento em que ela é uma elfa e ele uma águia, ambos sempre interligados por um objetivo particular. A união dos dois em realidades diferentes e aparentemente sem conexão lembra o filme A Viagem das irmãs Wachowski em que em várias vidas os personagens se encontram e sempre se conectam de alguma forma.

O experimento é peça chave para a história da minissérie, já que ele faz tudo acontecer e leva a mente dos protagonistas ao encontro entre os dois. É um experimento complicado de entender de início. Dividido por fases tem como objetivo encontrar os principais medos e traumas em cada um e fazer com que a pessoa estudada passe essa fase adiante e encontre a felicidade. E o grande responsável por monitorar e fazer com que as pessoas viajem é um super computador com memória artificial. Não fica claro se o experimento leva as pessoas a sonharem com algo que elas queiram que aconteça ou seria um mundo criado pelo computador para que desse a eles uma oportunidade de vivenciar seus traumas e os superarem. E isso não tem importância, pois a idéia é mostrar que há sim como passar por essas fases que podem levar a depressão.

Por se tratar de uma minissérie com o nome de Maniac é muito provável que tenha um vilão ou uma vilã e isso realmente acontece, mas não do jeito que se imagina. O computador usa uma memória de uma mulher que é a mãe de um dos cientistas criadores do projeto e isso leva a máquina a ter quase que vida própria manipulando – muito que provavelmente – um encontro entre os pacientes mentalmente e o computador tenta a todo o custo fazer com que Annie se junte a máquina e fique em uma área da memória em que a alma da pessoa fica presa para sempre. É uma vilã que lembra e muito o computador HAL 9000 de 2001 Uma Odisseia no Espaço, até mesmo o jeito com que o computador fala quando está prestes a ser derrotado lembra a versão de Stanley Kubrick, usando um tom de voz humano e sensível.

O computador de Maniac não é maldoso ao mesmo nível de Hal nem perverso como a androide de Ex-Machina. Ela tem sentimentos por ter herdado a memória de uma mulher real e mãe do cientista e isso faz com que o computador sinta as mesmas emoções que vão desde alegria a um vazio existencial. A máquina começa com o tempo a se comportar como um Deus, achando que pode tomar todas as decisões sem consultar ninguém. 

Todos os personagens são intrigantes, carregando algum segredo profundo e tendo relações pessoais complicadas. O foco está quase que inteiramente nos personagens de Jonah Hill e Emma Stone, que são muito bem desenvolvidos. Nas várias fases do projeto vamos acompanhando a evolução de ambos, saindo de um período inicial de solidão para uma futura conexão entre ambos e uma superação de seus traumas pessoais. 

Emma Stone está ótima em seu papel, fazendo uma protagonista viciada em remédios e com problemas de relação com o pai, uma protagonista que até então não havia feito em sua carreira.  A surpresa fica a cargo de Jonah Hill, conhecido por fazer comédias escrachadas já havia feito um papel sério em O Homem que Mudou o Jogo, mas até então nada que fosse parecido com o que se vê em Maniac. Um homem sem alegria e mentalmente doente e sem amigos. Fukunaga dá um jeito de aproveitar o lado cômico do ator fazendo um episódio engraçadíssimo em que Jonah é um congressista islandês.

No elenco, além dos protagonistas Annie e Owen, há dois outros dois personagens igualmente interessantes que ajudam a compor a produção e acabam por roubarem a cena, o caricato e excêntrico Dr. James K. Mantleray interpretado por Justin Theroux (A Garota do Trem) e Dra. Fujita interpretada belamente por Sonoya Mizuno (Ex-Machina). Dr. James K.  é tão estranho que se torna engraçado, também tem um trauma envolvendo sua mãe e precisa superar essa fase da sua vida enquanto luta para desligar a máquina que ele criou e se rebelou contra seu experimento. Já a Dra. Fujita poderia ter sido melhor aproveita, é uma personagem intrigante, mas que não foi tão em desenvolvida assim.

Todos os dez episódios foram dirigidos por Cary Fukunaga (True Detective) e é um dos trabalhos mais relevantes e maduros de sua carreira, pois consegue criar um ambiente de estranheza difícil de ser criado e trabalha muito bem uma narrativa de difícil compreensão sem deixar furos. Outro elogio a ser feito está no jeito que flutua facilmente entre os gêneros indo do drama à fantasia sem perder a mão.

Maniac (Maniac, EUA – 2018)

Criado por: Patrick Somerville
Direção: Cary Joji Fukunaga
Roteiro: Cary Joji Fukunaga, Amelia Gray, Patrick Somerville, Ole Marius Araldsen, Danielle Henderson, Kjetil Indregard, Mauricio Katz, Espen Petrus Andersen Lervaag, Håkon Bast Mossige, Caroline Williams, Sam L. Roberts
Elenco: Jonah Hill, Emma Stone, Sonoya Mizuno, Billy Magnussen, Aaralyn Anderson, Rome Kanda
Emissora: Netflix
Episódios: 10
Gênero: Comédia, Drama, Sci-Fi
Duração: 45 min. aprox.

Crítica | American Horror Story – 08×02: The Morning After

A mãe de todas as decepções é a alta expectativa – e infelizmente American Horror Story caiu nessa quase verdade absoluta com o retorno de sua oitava temporada na semana passada. Apocalypse não apenas abriu com um episódio morno, como representou a pior estreia da série de todos os tempos, tangenciando os três milhões de espectadores que, na verdade, esperavam uma iteração que superasse até mesmo as glórias de Asylum e Roanoke. Logo, não é nenhuma surpresa que o hype tenha caído consideravelmente para o capítulo seguinte. Entretanto, Ryan Murphy e Brad Falchuk parecem ter acertado o tom de sua antologia, entregando algo além do que poderíamos esperar – ainda que não tenha usado e abuso de seu incrível potencial pós-apocalíptico.

Como bem sabemos, Michael Langdon (Cody Fern), literalmente o próprio Satã em Terra, chegou ao Posto 3 e decidiu que estava na hora de selecionar os sobreviventes merecedores e levá-los para o Santuário – um local desconhecido que só podemos imaginar ser o clã bruxo controlado pela saudosa Cordelia Foxx (interpretada por Sarah Paulson no terceiro ano do show). Sua chegada é misteriosa, carregada com um misticismo aterrador que já precede toda sua significação dentro do escopo de AHS; afinal, estamos lidando com um ser sobrenatural cujo poder é imensurável. É possível até mesmo traçar paralelos entre sua presença e o prólogo que precede o episódio, envolvendo os primeiros traços de magia da temporada.

Langdon tem como plano interrogar cada um dos sobreviventes e decidir quem deve seguir para o novo abrigo. E ele inicia com o voluntarismo compulsório de Gallant (Evan Peters), que deseja sair de lá e provar-se tanto para os outros quanto para sua avó Evie (Joan Collins), da qual conserva ressentimento e um crescente ódio que tem influência em diversos momentos do episódio. Gallant é apenas um dos poucos dotados de uma personalidade conturbada e de uma hipocrisia generalizada que toma conta de todos os seus companheiros, principalmente da insuportável dupla formada por Mallory (Billie Lourd) e Coco (Leslie Grossman). É repugnante vê-los nos holofotes, enquanto personagens como Timothy (Kyle Allen) e Emily (Ash Santos) perdem seu protagonismo em detrimento de uma canalização excessiva àqueles que, por falta de outras palavras, realmente não merecem.

De qualquer forma, tais deslizes são ofuscados por outras presenças igualmente ilustres. O personagem encarnado por Peters e sua devassidão completa acabam invocando uma figura há muito esquecida – o fantasma de látex de Murder House – que retorna para trazer o pior das pessoas e colocá-los em submissão psicológica e sexual. Isso também dá margens para o primeiro enlace entre Timothy e Emily, quebrando os tabus impostos pela rigorosa Srta. Venable (Paulson). A diretora Jennifer Lynch conduz com exímia técnica o desenrolar dos eventos, construindo uma atmosfera tensa que chega em seu inimaginável ápice, não poupando de impactantes viradas e de sacrifícios necessários.

De fato, os pontos altos residem com Paulson e Kathy Bates encarnando Miriam Mead, braço direito de Venable que realiza todo o trabalho sujo, incluindo torturas e execuções sumárias. As duas compartilham de uma química incrível que se estende para outros companheiros de cenas – e ambas as personagens parecem guardar segredos macabros. Langdon eventualmente obriga Venable a despir-se e a colocar em cheque seu pudor excessivo e autoritário, mostrando uma profunda distorção em sua coluna. Momentos depois, Miriam leva um tiro durante um homicídio duplo fracassado e revela que na verdade não é um ser humano, e sim uma espécie de criação híbrida entre mulher e máquina. É claro que isso levanta inúmeras questões e nos faz pensar que as conexões podem existir para muito além de Coven e Murder House.

Lynch mantém a identidade artística ao brincar com uma tentativa de fluidez cênica dentro do claustrofóbico espaço do abrigo. Diferente do capítulo anterior, The Morning After se recusa a visitar os espaços de fora e mantém-se preso dentro de um ciclo angustiante. Não posso negar que as distorções imagéticas características das outras temporadas – incluindo a presença dos planos holandeses e das grande-angulares para efeitos mais floreados – faz falta em diversos momentos e transforma a série em algo mais quadrado do que deveria ser. Mas o aspectos intimista e opressor do cenário em questão deve ser levado em consideração para nos conectarmos aos personagens, até que a tão aguardada mudança possa finalmente acontecer.

O desperdício de seu potencial vem na manutenção de certos personagens. Apocalypse, ao menos em tese, deveria ser o ano mais tenso e mais perturbador da antologia – e certas figuras continuam quebrando o ritmo dos diálogos e das sequências com piadas ácidas e diálogos irreverentes que até funcionaram, porém em outro momento. Grossman e Lourd são as principais responsáveis por nos tirar da ambiência de inquietação, até mesmo forçando-se em um papel que cai na canastrice. De fato, eliminá-las seria ótimo para a série, a não ser que elas sofram uma mudança necessária e urgente.

American Horror Story recuperou o brilho em diversos aspectos e tem tudo para continuar em ascensão. De fato, apesar da melhora, eu e mais inúmeros fãs estamos doidos para a fusão final do famigerado clã e do retorno das bruxas mais poderosas de todos os tempos para enfrentarem (ou corroborarem) as forças diabólicas que agora dominam o nosso mundo.

American Horror Story – 08×02: The Morning After (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Jennifer Lynch
Roteiro: James Wong
Elenco: Sarah Paulson, Kathy Bates, Evan Peters, Joan Collins, Billie Lourd, Adina Porter, Cheyenne Jackson, Billy Eichner, Leslie Grossman, Emma Roberts, Gabourey Sidibe, Lily Rabe, Frances Conroy, Taissa Farmiga
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

Guia de Episódios | American Horror Story – 8ª Temporada: Apocalypse

A tão aguardada oitava temporada de American Horror Story finalmente estreou e promete ser a melhor entrada de toda a antologia criada por Ryan Murphy. Confira nossas críticas episódicas abaixo, atualizadas semanalmente:

08×01: THE END

Publicado originalmente em 13 de setembro de 2018

08×02: THE MORNING AFTER

Publicado originalmente em 20 de setembro de 2018

American Horror Story – 8ª Temporada: Apocalypse (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Ryan Murphy
Elenco: Sarah Paulson, Evan Peters, Frances Conroy, Emma Roberts, Kathy Bates, Taissa Farmiga, Joan Collins, Billy Eichner, Cody Fern, Jessica Lange, Adina Porter, Billie Lourd, Gabourey Sidibe
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos por episódio

Confira AQUI a crítica das outras temporadas!

Crítica | American Horror Story – 08×01: The End

Ryan Murphy sempre soube como criar um buzz acerca de suas criações. Desde as primeiras investidas televisivas com Glee até suas obras mais recentes como American Crime Story e Pose, a estruturação dos shows que trazia a um público fascinado pelo novo e pela ousadia seguia um padrão de choque e impacto muito interessante e que o colocou, na maioria das vezes, no patamar de um dos showrunners mais experimentais de todos. De fato, Murphy ganha ainda mais glória quando pensamos em sua primeira antologia seriada, American Horror Story, na qual mistura drama, sexo, horror e arquiteta uma atmosfera sobrenatural digna de emulação de clássicos do gênero – em quase todas as temporadas.

Com o fracasso iminente de Cult, que afastou-se bruscamente da proposta da obra e deixou claro um possível desgasta por parte do time criativo em inovar quanto aos temas narrativos, Murphy, ao lado de Brad Falchuk, teria um trabalho a mais: recuperar uma glória perdida que já dava as caras desde Freakshow – que, conforme escrito na crítica, foi uma das iterações mais desperdiçadas do universo. Logo, o anúncio de que o oitavo ano da franquia traria um tema aguardado por boa parte dos fãs e fundiria duas das temporadas mais aclamadas pelo público e pela crítica insurgiu como uma inteligente jogada que felizmente funcionou muito melhor que explorações anteriores.

Apocalypse se passa em um futuro próximo, no qual a ameaça de um ataque nuclear se concretiza nas maiores metrópoles do mundo, incluindo Los Angeles. Bradley Buecker aposta em uma trama antes-e-depois, nos levando para um dia comum em um salão de cabeleireiro que confronta um anúncio inesperado de que Hong Kong foi atacado. A explosão da bomba nunca nos é mostrado, exceto por uma breve sequência que reflete nos olhos da socialite Coco (Leslie Grossman), cuja família abastada permitiu que ela e outras pessoas conseguissem se salvar. Poucos momentos depois, somos transportados para um passado não tão distante em que dois jovens desconhecidos são “resgatados” por agentes da Corporação, grupo secreto de recrutamento das maiores mentes remanescentes do mundo, e são levados ao Posto Três, supervisionado pela macabra matriarca Wilhemina Venable (Sarah Paulson em uma performance brilhante).

O episódio inicial, intitulado jocosamente como The End, faz bom uso de homenagens a outras investidas audiovisuais pós-apocalípticas e até mesmo se inclina para o subgênero da distopia para criar o cenário – que, no final das contas, é a melhor coisa do capítulo. A Corporação tem como mote a sobrevivência e a manutenção da espécie humana em um planeta devastado pela radiação, mas na verdade distorce essa premissa para retornar bruscamente a um paradoxo que podemos intitular de “tempos medievais modernos”. O abrigo é construído de modo opressor, e até mesmo os enquadramentos e ângulos da cama refletem isso pelas composições essencialmente intimistas e fechadas e pelo teto baixo que reafirma a superioridade hierárquica da Srta. Venable e de seu braço-direito, a assassina Miriam Mead (Kathy Bates).

As estruturas cênicas optam por uma luz difusa, proveniente da pouca iluminação que vai ao encontro de uma constante e proposital névoa, dialogando diretamente com o ideal místico restaurado pela série. A ambiência agonizante é um elemento essencial para nos manter presos em um ciclo vicioso de tormento – não que isso necessariamente seja ruim: o público se mantém preso entre as fortificadas paredes do Posto Três esperando que algo aconteça, mas tanto Murphy quanto Buecker se recusam a sair da proteção e nos fazem imaginar o que existe lá fora. Eventualmente, as passagens externas ocorrem, mas não revelam muito pela cobertura leitosa do “inverno atômico” e nos deixam nas mesmas conjecturas.

Mesmo sendo o primeiro contato com a real definição de American Horror Story desde Roanoke, não há muito acontecendo aqui. Estamos diante de um grupo de pessoas assustadas, cujas emoções são quebradas pelas presenças cômicas de Grossman e de Joan Collins, aguardando um possível resgate. Eles permanecem dezoito meses escondidos no subsolo, maltratados e passíveis de punição pelas dirigentes do local. A explicitação de certas sequências, o racionamento compulsório de comida e a falta de liberdade individual e de expressão são alguns temas que brotam vez ou outra, mas não têm seu potencial totalmente explorado. É claro que os quase quarente e cinco minutos de duração passam em um piscar de olhos, mas o ritmo frenético nos deixa com uma sensação de que o desenrolar dos eventos foi rápido demais para uma degustação completa e satisfatória.

A oitava temporada talvez peque no que realmente deveria mostrar: o encontro de dois mundos que buscam pela vingança – representados pelo limbo de Murder House e pela traição de Coven. O público está sedento para que o sobrenatural retorne de forma incisiva, quase sanguinária, e que nos apresente e um novo patamar de horror, suspense e drama. Afinal, alguns dos personagens mais queridos de todos os tempos irão retornar às telinhas; entretanto, não posso tirar mérito desse episódio em trazer a primeira aparição de Cody Fern como Michael Langdon que, como todos sabemos, é o filho de Satã concebido na iteração de 2011 em uma das cenas mais chocantes de todo o show.

Apocalypse tem um pontapé inicial relativamente morno, cujo principal objetivo é definir o tom do que está por vir. Ao que tudo indica, o próximo capítulo irá nos levar a uma das instituições que ainda permanecem erguidas em meio ao fim do mundo – a provável mansão das bruxas comandada por Cordelia -, e o que podemos fazer por enquanto é que Murphy honre o nome de sua própria criação e supere todas as nossas expectativas.  

American Horror Story – 08×01: The End (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Bradley Buecker
Roteiro: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Elenco: Sarah Paulson, Kathy Bates, Evan Peters, Joan Collins, Billie Lourd, Adina Porter, Cheyenne Jackson, Billy Eichner, Leslie Grossman, Emma Roberts, Gabourey Sidibe, Lily Rabe, Frances Conroy, Taissa Farmiga
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

Crítica | Final Space: 1ª Temporada – A Escuridão do Espaço

Recentemente, a Netflix vem investindo em diversos produtos de comédia e de ficção científica. Apenas nos últimos meses, a plataforma foi responsável por viralizar o ótimo remake de Star Trek: Discovery, além de trazer o thriller psicológico Aniquilação para o gosto do público. É claro que, dentre as ótimas obras que teve a oferecer, alguns falharam miseravelmente em cumprirem com o propósito – como por exemplo Insatiable, que conseguiu resgatar de forma humilhante inúmeros estereótipos já descartados da indústria do entretenimento -, mas outras abriram margens para uma vertente ainda não tão explorada pelo serviço de streaming: as animações. E foi partindo de uma concepção de fusão entre esse gênero e o sci-fi que Final Space, em colaboração com a TBS, surgiu.

A princípio, é quase impossível delinear qualquer traço narrativo que faça sentido: a cena de abertura da temporada traz um astronauta vagando perdidamente pelo espaço, com apenas dez minutos restantes de oxigênio, já entregue ao seu fatal destino e tendo como única companhia a inteligência artificial de sua antiga nave, a Galaxy One. Momentos depois, somos transportados para um passado não tão distante no qual as coisas passam a ter uma estruturação mais compreensível: o astronauta, na verdade, se chama Gary Goodspeed (Olan Rogers) e cumpre pena como único tripulante da espaçonave em companhia de robôs. A cada dia, ele parece tentar se comunicar com uma espécie de amor perdido, mandando-lhe mensagens em vídeo sem qualquer resposta, mas que mantêm sua sanidade intacta. Ele é vigiado constantemente pelo computador de bordo HUE (Tom Kenny) e pelo irritante auxiliar KVN (Fred Armisen), os quais ama odiar.

Já no episódio piloto percebemos a total irreverência construída por Rogers e David Sacks, ambos showrunners. Assim como recentes seriados da própria plataforma, a história não é para crianças e busca uma rebeldia transgressora que mantém paralelismos com Rick and Morty e BoJack Horseman, trazendo certas críticas interessantes, mas que infelizmente se perdem ao longo do excesso de fantasia e impossibilidades. No geral, lidamos com uma jornada do herói que emula certos aspectos de famosas franquias de ficção científica (Star Wars, por exemplo) e que não se preocupa com entregar-se a uma carga dramática catártica. Gary personifica um jovem galã afundado nas próprias metáforas vencidas e que carrega, ao mesmo tempo, uma necessidade de se provar útil para alguma coisa – afinal, seu coração ainda é puro e ele sempre se coloca na frente de todos, ainda que desajeitado.

Tudo muda de perspectiva quando uma pequena criatura apelidada de Mooncake aparece na Galaxy e traz consigo uma horda de guerreiros malignos que tenta a todo custo sequestra-lo. Entretanto, os tripulantes conseguem vencê-los e mantém o gato humanoide Avocato (Coty Galloway) como refém, tentando arrancar algumas informações. Em meados da primeira parte, o antagonista se transforma em um aliado inesperado, revelando sua verdadeira história e convencendo o nosso herói a ajudá-lo a combater um inimigo muito mais poderoso para resgatar seu filho, Gatito (Steven Yeun). A partir disso, o time de roteiristas passa a fazer escolhas um tanto quanto interessantes para dar continuidade à trama principal e aumentar a complexidade dos arcos apresentados; entretanto, os eventos se desenrolam quase subjugados ao pano de fundo e não abrem brechas.

Em se tratando de uma série de comédia, narrativas secundárias são importantes para a criação de um ritmo envolvente e frenético, impedindo que o público caia nas ruínas da monotonia. Em grande parte da temporada isso acontece, apesar de alguns deslizes que quebram uma estrutura sólida e nos desligam do universo ao qual somos apresentados. De qualquer modo, os irônicos e propositalmente autoexplicativos diálogos, combinado à química do elenco, conseguem varrer os claros equívocos para debaixo do tapete – e aqui abro um parênteses para uma performance incrível, ainda que um pouco over-the-top, de David Tennant como Lorde Commander, o principal obstáculo a ser enfrentado pelos protagonistas. Além da incrível versatilidade cênica, que compõe cliffhangers angustiantes, os clímaces e viradas são muito bem pontuados e chocantes, e brincam com todas as ideias já exploradas pelo gênero, desde as viagens no tempo até as fendas cósmicas.

E é claro que o enlace romântico não poderia deixar de existir, e aqui ele insurge na figura da guerreira-cientista Quinn (Tika Sumpter), que parece brotar do nada, mas mantém relações inesperadas com Gary e até mesmo com sua família. Ela é a representação do arquétipo da inteligência e da proteção, que eventualmente entrega a própria vida por uma causa maior e representa um sacrifício não premeditado para a conclusão do arco do herói – o qual, com grande surpresa, não encontra seu fim, mas um gancho assustador para uma futura temporada.

A animação não ousa mais do que deve e mistura elementos do 2D e do 3D, oscilando entre originalidade e nostalgia, reforçando laços dialógicos com obras clássicas e inclinando-se para a contemporaneidade e o futuro. Mesmo não explorando todo o potencial, a fluidez funciona, principalmente àqueles que procuram uma boa e divertida aventura que entrega o que quer. Os momentos introspectivos se afastam do melodrama desnecessário e preparam terreno para incríveis cenas de ação que satisfazem até os mais céticos espectadores.

Final Space pode não ser a melhor das séries, mas definitivamente cumpre o seu papel e não força algo além do que pode entregar. Sua premissa é simples, divertido, não se escorando em tramas pretensiosas e, ao mesmo tempo, conseguindo flutuar entre momentos trágicos, hilários, emocionantes e de tirar o fôlego. Uma sequência é mais que aguardada – e muito bem-vinda, ainda mais para fechar algumas pontas que ficaram soltas e nos deixaram bastante angustiados.

Final Space – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2018)

Criado por: Olan Rogers, David Sacks
Direção: Mike Roberts, Ben Bjelajac, Chris Paluszek, Dan O’Connor
Roteiro: Olan Rogers, David Sacks, Jane Becker, Alyssa Lane, Alex J. Sherman, Christopher Amick, Ben Mekler, Adam Stein, Kelly Lynne D’Angelo, Nick Watson, Cameron Squires
Elenco: Olan Rogers, Fred Armisen, Tom Kenny, David Tennant, Tika Sumpter, Steven Yeun, Ron Perlman, Coty Galloway
Emissora: Netflix/TBS
Episódios: 10
Gênero: Animação, Sci-Fi, Comédia
Duração: 22 min. aprox.

Crítica | The Flash: 1ª Temporada – As alegrias de uma boa série de super-heróis

Com Arrow se popularizando rapidamente após duas temporadas de sucesso, a CW começava a investir em uma ideia ousada. A Marvel Studios havia reunido os Vingadores nos cinemas, enquanto a DC ainda apenas sonhava com a ideia de ter seu próprio universo compartilhado da Liga da Justiça nas telonas, ainda terminando a trilogia Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan. Mas a CW prometia ir mais longe, alcançando seu próprio evento épico em sua segunda grande série baseada em propriedades da DC: The Flash.

Um herói muito mais popular e renomado do que o Arqueiro Verde, que foi bem modificado para servir à versão de Stephen Amell dois anos antes, retratar o Velocista Escarlate na televisão é uma tarefa difícil. Não só pela iconografia do personagem, mas também por sua complexidade narrativa – que começa a envolver conceitos cabeludos de ciência e física – mas também pelo trabalho com efeitos visuais, que há alguns anos ainda eram muito precoces. Felizmente, o resultado é surpreendente.

Desenvolvida por Greg Berlanti, a primeira temporada da série é bem fiel à base do personagem nos quadrinhos da DC. Conhecemos Barry Allen (Grant Gustin, que já havia feito uma ponta em Arrow), um legista da polícia científica de Central City. Ao passo em que tenta provar a inocência de seu pai, injustamente preso após a morte misteriosa de sua mãe quando ainda era uma criança, Barry lida com os sentimentos pela amiga Iris West (Candice Patton) e também a dinâmica com seu pai adotivo, Joe (Jesse L. Martin). Quando Barry é atingido por um raio após uma explosão no acelerador de partículas dos Labortatórios S.T.A.R., Barry ganha a habilidade correr a velocidades que desafiam os limites da ciência, tornando-se o Flash.

Meta-Humanos e viagem no tempo

Eu não sou um grande conhecedor dos quadrinhos do Flash, mas é possível notar que os produtores da série certamente têm respeito e admiração por suas origens. Ao longo dos 23 episódios da temporada, há inúmeras referências, participações e até eventos que eu tenho certeza que deixaram os fãs mais calorosos empolgados – personagens que eu só havia ouvido falar, como o Gorila Grodd, me agradaram de um ponto de vista novato, então apenas imagino como deve ter sido a reação de um veterano. Ainda que um piloto de série de TV sempre precise lidar com o problema da pressa – a pressa em contar origem, de apresentar poderes e introduzir uniformes –  o diretor David Nutter faz um ótimo trabalho em introduzir Barry Allen e a dinâmica de seu grupo na S.T.A.R.

Claro, sendo uma série de emissora aberta, The Flash não consegue fugir da batida estrutura do caso da semana. A desculpa é um tanto forçada, mas acaba funcionando, já que os personagens revelam que a explosão do acelerador de partículas não afetou apenas Barry, mas também criou diversos meta-humanos (pessoas com habilidades diferentes) ao redor da cidade, e a cada novo episódio temos um oponente distinto para vermos Flash enfrentar. É algo que inevitavelmente cansa e acaba rendendo os infames episódios filler (no caso dessa temporada, envolve um péssimo capítulo onde encontramos uma “mulher-abelha”), mas que ajuda a desenvolver os poderes do protagonistas.

Mas quando The Flash supera esses problemas, revela ali uma série verdadeiramente especial. Logo no final do primeiro episódio os roteiristas introduzem a ideia de que algum tipo de viagem no tempo está acontecendo, já que o misterioso Harrison Wells acessa um jornal holográfico do futuro que relata o desaparecimento do Flash. A forma como todo o plano de Wells, e o eventual antagonista Flash Reverso se revelam é instigante e reminiscente de algumas das melhores histórias de viagem do tempo que o gênero já viu; desde De Volta para o Futuro até Jornada nas Estrelas – no sentido de que, ao vermos uma ação inexplicável, temos a resposta alguns episódios depois, por termos a realização de que algum tipo de viagem no tempo era sua justificativa.

Elenco vencedor

Como toda boa série, o grande charme sempre estará em seus personagens. Na época famoso pela série Glee, Grant Gustin é uma explosão de carisma na pele de Barry Allen. O ator incorpora toda a confusão e bom-humor do personagem, além de trazer uma presença canastra muito bem-vinda quando coloca o uniforme vermelho, sempre oferecendo piadinhas e trocadilhos divertidos. De forma similar, o Cisco de Carlos Valdes é um excelente alívio cômico, mesmo que suas falas sejam resumidas a oferecer referências pop sem parar (algo que não reclamo, sendo sincero) e a adorável Caitlin de Danielle Panabaker oferece um bom balanço de preocupação e bússola moral. Fechando o arco dos laboratórios S.T.A.R., Tom Cavanagh é simplesmente fantástico como Wells, principalmente na forma como mantém a seriedade e inteligência do cientista e o equilibra com o lado misterioso e vilanesco que sempre vai se manifestando em setores finais de cada episódio.

O elenco coadjuvante também ganha muito com o núcleo West. A Iris West de Candice Patton é carismática e adorável, também oferecendo uma química muito particular com Barry, já que os dois cresceram juntos desde crianças. É um tipo de romance clichê e que você já viu diversas vezes, mas que funciona graças ao bom entrosamento do casal. E, claro, Jesse L. Martin como Joe West é uma presença que garante conforto e segurança a todos os personagens. Confesso que, ao ver a relação semi-paterna entre Joe e Barry, é muito fácil ficar comovido e investido na dinâmica da dupla.

E apesar de ter uma participação pequena, de apenas alguns episódios, é criminoso não falar sobre The Flash e não comentar a performance de Wentworth Miller como o vilão Capitão Frio. É um tipo de atuação onde vemos o ator literalmente mastigar o cenário e se divertir como se não houvesse fim, com o ex-astro de Prison Break assumindo uma canastrice deliciosa, e que praticamente transforma um personagem de quinta categoria a uma presença magnética. Não é à toa que o vilão lentamente vai sendo convertido em anti-herói, dada sua popularidade. Aproveitando a deixa, fica a menção honrosa para a divertidíssima participação de Mark Hamill, que praticamente interpreta o Coringa ao dar vida (novamente) ao vilão Trapaceiro.

Um universo em expansão

Ao longo de sua extensa primeira temporada, The Flash não tem medo de abraçar o cartunesco e oferecer narrativas verdadeiramente episódicas e dignas dos quadrinhos. Traz um ótimo elenco que nos faz querer passar todo o tempo do mundo acompanhando aventuras, e se revela algo realmente impressionante quando aposta pesado em seus conceitos de ficção científica. Um grande acerto, e uma das melhores adaptações de super-heróis para a TV dos últimos tempos.

The Flash: 1ª Temporada (EUA, 2014)

Criado por: Greg Berlanti, Geoff Johns, Andrew Kreisberg, baseado nos personagens da DC
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, John Wesley Shipp, Wentworth Miller, Mark Hamill, Michelle Harrison
Emissora: CW
Episódios: 23
Gênero: Aventura
Duração: 40 min

Crítica | Great News: 1ª Temporada – Quando o Breakdown é Real

Tina Fey e Robert Carlock parecem ser o time dos sonhos: o duo é responsável por algumas das melhores comédias da televisão contemporânea e já faturou inúmeros prêmios por seus incríveis trabalhos seriados. Fey, por um lado, é responsável pela releitura às telonas de Meninas Malvadas, um dos mais memoráveis filmes teen do século, enquanto a colaboração com seu conterrâneo se iniciou em 30 Rock, alcançando um ápice com a aclamada Unbreakable Kimmy Schmidt e agora mergulhando em uma investida inusitada – o que já é de praxe. E o resultado pode não ser o melhor de suas carreiras, mas definitivamente não deixa a desejar em nenhum momento, ainda mais pela irreverência narrativa.

Em Great News, série que tinha tudo para cair no esquecimento e foi recuperada pelo poder incomparável de disseminação da Netflix, a trama principal gira em torno de uma família disfuncional formada pela exagerada e melancólica Katie (Briga Heelan) e sua mãe, Carol (Andrea Martin). Após uma sessão epifânica numa igreja, Katie percebe que deve seguir seus sonhos e lutar para ganhar reconhecimento na emissora de televisão MMC, localizada em Nova Jersey. Entretanto, ela não é a única a encarnar tal revelação, e a própria mãe resolve voltar para a faculdade de jornalismo e contar à sua filha que, para conseguir crédito extra, precisa de um estágio – e é justamente por isso que resolveu tentar a vaga no mesmo lugar em que trabalha!

Já no início do episódio piloto, o modo como a história se desenrola segue padrões inesperados e consegue fugir dos convencionalismos do gênero. A dramédia à qual somos apresentados parece focar apenas em Katie, uma mulher de trinta anos que tenta se desvencilhar das ações superprotetoras de sua família ao mesmo tempo em que não consegue negar seu amor por ela. Entretanto, Carol, quebrando também as fórmulas para seu tipo de personagem, insurge como outro foco principal que ajuda a criar as mais divertidas e impossíveis subtramas. E é a partir disso que Fey e Carlock, atuando como produtores executivos, criam uma mágica rítmica às telinhas que transforma a obra criada por Tracy Wigfield numa divertida jornada do começo ao fim – e detalhe: Wigfield já vem com uma carga cômica considerável, visto que auxiliou a dupla em séries predecessoras.

É claro que, considerando o time artístico por trás da iteração, as coisas nunca seriam tão simples quanto aparentam: eventualmente, Great News funciona como uma crítica às corporações jornalísticas e faz inúmeras referências para obras audiovisuais dramáticas e de cunho político. Aqui, esse pano de fundo ganha um revestimento ácido que não se preocupa em rechear com ironias alguns diálogos propositalmente fúteis ao mesmo tempo que desmente estereótipos de gênero – a personagem de Portia (Nicole Richie), por exemplo, é a típica bombshell loira que vem com as ideias mais idiotas devido a uma modelagem de seus chefes, mas que na verdade tem uma profundidade deliciosamente envolvente. John Michael Higgins, dando vida ao âncora Chuck Pierce ao lado de Portia, mostra-se forte e independente durante a primeira metade da temporada, até sofrer uma bruta desconstrução que não o torna superior a ninguém.

Todos ali trabalharam para o funcionamento do programa The Breakdown (uma referência nem um pouco sutil ao momento em que explodimos e queremos desistir de tudo): a dupla supracitada não consegue se entender e vive entrando em conflitos de ego hilários, arquitetando as mais absurdas mentiras para se mostrarem melhores que os outros, enquanto a equipe do backstage também passa por seus próprio problemas. Katie tenta ganhar reconhecimento em meio à polidez excessiva de seu chefe, Greg (Adam Campbell), o qual também lida com o fato – que nos é revelado apenas nos episódios finais – de ser neto da magnata da comunicação que controla todo o canal e mostra ser uma das figuras mais perversas da série (além de ser interpretada pela aplaudível Christina Pickles).

E é claro que, em se tratando de uma comédia, não apenas o roteiro mostra-se quase impecável – com alguns erros estruturais clássicos, mas nada que não seja ofuscado pelo brilho de seu elenco -, como também a construção cênica. As técnicas fílmicas mergulham em uma convergência de inúmeras outras investidas, incluindo a estética excessivamente documental de Veep, misturado ao hibridismo de The Office e até mesmo algumas inclinações mais escondidas a The Newsroom. As referências aos clássicos cinematográficos, ao contrário do que podemos imaginar, aparecem da forma mais distorcida e explícita possível – e diferente de outras iterações que não sabem como tratar uma mimésis desse tipo, ela funciona em grande parte da história e serve como respaldo de complexidade para a ambiência criada e para os personagens.

Não podemos deixar de citar a incrível química de praticamente todo o elenco: Martin retorna com uma força inenarrável após sua temporada de sucesso na Broadway com Pippin, entregando-se de corpo e alma a uma das personagens mais deliciosas dos últimos anos. As relações que mantém com as outras personas se inserem numa montanha-russa de sentimentos que em nenhum momento são forçadas; o público aceita de bom grado o que lhe é apresentado. Mas é ao lado de Heelan que a mágica ganha uma estrutura mais solidificada – nós não apenas compramos a ideia de serem da mãe e filha, como também melhores amigas, confidentes e colegas de trabalho que definitivamente têm muito a trazer para a vida uma da outra.

Great News é uma surpresa interessante e que poderia ter sua finalização em apenas essa breve narrativa de autoconhecimento e aceitação composta por dez episódios. É claro que, visto seu sucesso inesperado, uma segunda temporada já foi produzida e deve chegar à plataforma nos próximos meses – mas não tem problema: ainda há muito a ser explorado no The Breakdown, e só podemos esperar que as novas tramas sejam tão engraçadas e comedidas quanto as já mostradas.

Great News – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2017)

Criado por: Tracy Wigfield
Direção: Beth McCarthy-Miller, Claire Scanlon, Payman Benz, Victor Nelli Jr., Tristram Shapeero, Maggie Carey, Nisha Ganatra, Gail Mancuso, Jeff Richmond, John Riggi, Ken Whittingham
Roteiro: Tracy Wigfield, Ashley Wigfield, Dan Klein, Naomi Ekperigin, Ben Dougan, Sam Means, Hayes Davenport, Jack Burditt, Robert Carlock, Tina Fey
Elenco: Briga Heelan, Andrea Martin, Adam Campbell, Nicole Richie, Horatio Sanz, John Michael Higgins, Tommy Dewey, Sheaun McKinney
Emissora: Netflix/NBC
Episódios: 10
Gênero: Comédia
Duração: 22 min. aprox.

Crítica | (Des)Encanto: 1ª Temporada – Groening nos Tempos Medievais

Matt Groening é um dos maiores expoentes da televisão norte-americana contemporânea, responsável por trazer algumas das animações mais hilárias e distorcidas dos últimos anos, como Os Simpsons e Futurama. Tais obras são conhecidas por fugir dos convencionalismos narrativos e buscarem uma perspectiva crítica e ácida da sociedade, traduzindo em tramas absurdas os exageros humanos. Ainda que esta tenha funcionado de forma mais transigente, aquela permanece ainda no gosto popular – não é à toa que está chegando ao seu trigésimo ano. E foi partindo dessa premissa e com o advento de inúmeras plataformas de streaming que Groening encontrou espaço para sua próxima narrativa: (Des)Encanto.

Ambientada numa versão totalmente inesperada da Idade Média, a trama gira em torno de Dreamland, reino governado pelo irritadiço Zog (John DiMaggio), cuja filha, Tiabeanie “Bean” (Abbi Jacobson) mostra-se como um obstáculo em potencial para o exercício de todo seu pleno poder. Mas diferente do que podemos imaginar, o pano de fundo é sobre a garota, e não sobre o Rei: Bean está no ápice de sua adolescência e, levando em conta a época na qual a série se passa, suas irreverências insurgem na bebida compulsória, nos jogos de azar e nas escapadas românticas, colocando em xeque a integridade de sua família e de si mesma. Entretanto, logo com o primeiro episódio, percebemos que tudo isso é justificado pelo fato de seu casamento obrigatório como forma de manter a aliança entre territórios outrora inimigos.

Ao que tudo indica, estamos lidando com mais de uma histórias coming-of-age animadas com mensagens otimistas e aventuras mirabolantes. Todavia, em se tratando de uma construção de Groening, nada será o que aparenta; as críticas estão lá, nuas e cruas, como forma de chocar e traçar um paralelo com a loucura e a sandice da sociedade contemporânea. Há um espaço fértil, recheado de infinitas possibilidades que inclusive não precisam de valer de estereótipos, mas sim utilizá-los a seu favor para orquestrar o sarcasmo de modo completo e satisfatório. O problema principal: criar uma história com começo, meio e fim, algumas viradas interessantes e um cliffhanger digno para uma futura segunda temporada – e é justamente isso que o showrunner não consegue trazer para as telinhas.

Levando em conta a decorrência de eventos do piloto, é natural que nos sintamos em território estranho (afinal, precisamos nos acostumar à nova ambiência). Mas o que acontece quando essa singularidade, por assim dizer, permanece durante cada um dos dez episódios? É muito complicado para uma audiência acostumada ao ritmo frenético de Simpsons seguir as construções contemplativas desse show em questão, ainda mais um que não se vale de muitos acontecimentos ou extravagâncias para conseguir uma estrutura sólida. A priori, a narrativa parece querer nos levar em uma direção, cruzando o caminho de Bean com o demônio Luci (Eric André) e depois fundindo seu arco ao do elfo Elfo (Nat Faxon) – mas todo o potencial é desperdiçado sem dó, obrigando-os a permanece no mesmo território o tempo inteiro.

É quase frustrante observar como tais personagens, cuja interessante química seria melhor aproveitada em circunstâncias diferentes, são jogados em uma linearidade narrativa insuportável. Eles não têm nenhuma evolução aparente até os episódios finais, caem nos mesmos erros e mergulham em ciclos viciosos inquebrantáveis, afastando cada vez mais o espectador de qualquer possibilidade de conexão. A ideia aqui era, após Bean fugir de seu casamento, pegar seus novos amigos e sair para conhecer o mundo, colocando-os em uma clássica-porém-distorcida jornada do herói – e tudo abriria margens para as mais hilárias subtramas. Entretanto, o time de roteiristas não leva isso em conta e brinca dentro dos limites de uma zona de conforto entediante.

Nem mesmo a aparição de coadjuvantes ajuda a aumentar a complexidade: devendo servir como respaldo tragicômico, como por exemplo a Rainha Oona (Tress MacNeille) ou o conselheiro de três olhos Ovaldo (Maurice LaMarche), as investidas não tão recorrentes quanto os protagonistas fazem um trabalho inverso e refletem a estupidez de suas construções. Os poucos pontos de quebra de expectativa provêm da obviedade, afastando a série das tentativas de recuperar a glória das obras antecessoras. Eventualmente, os acontecimentos se mostram repetitivos, caindo nas mesmas alternativas de fechamento de arco que os outros capítulos.

Mesmo assim, não podemos negar alguns pontos fortes trazidos pelo show. Groening encontra um espaço propício para trabalhar um passado narrativo que mantém certo dialogismo com as outras séries animadas – afinal, ele já brincou com o presente e com o futuro. Em um cenário medieval, marcado pela magia e por criaturas fantásticas, a estética de um contingente considerável de personagens secundários e terciários foge dos padrões e busca uma humanização excessiva – temos, por exemplo, a intocável transcendência das fadas misturando-se aos vícios humanos (como o fumo e a bebedeira) de modo tão desconstruído que chega a ser propositalmente ofensivo e deturpado. Além disso, devo dizer que a irregularidade da primeira metade encontra seu caminho e um equilíbrio interessante até o season finale, arquitetando algumas viradas satisfatórias que já dão as cartas do próximo jogo.

(Des)Encanto é uma série desperdiçada e irregular que encontra sua identidade tarde demais para haver uma conexão profunda entre as mensagens que deseja entregar e a receptividade do público. E não há muito o que se possa dizer, apenas a ligeira sensação de desapontamento, justificada pelo fato de um grande nome da indústria não ousar mais do que julgava conseguir.

(Des)Encanto – 1ª Temporada ((Dis)Enchantment, EUA – 2018)

Criado por: Matt Groening
Direção: Wesley Archer, Frank Marino, David D. Au, Peter Avanzino, Albert Calleros, Dwayne Carey-Hill, Brian Sheesley, Ira Sherak
Roteiro: Matt Groening, John Weinstein, Jamie Angell, Jeff Rowe, Shion Takeuchi, Jeny Batten, David X. Cohen, M. Dickson, Rich Fulcher, Reid Harrison, Eric Horsted, Bill Oakley, Patric M. Verrone
Elenco: Abbi Jacobson, Eric André, Nat Faxon, John DiMaggio, Tress MacNeille, David Herman, Maurice LeMarche, Sharon Horgan
Emissora: Netflix
Episódios: 10
Gênero: Comédia, Animação, Fantasia
Duração: 30 min. aprox.

Crítica | Insatiable: 1ª Temporada – Quando a Netflix Realmente Errou

Não há absolutamente nada de bom sobre Insatiable. A nova série da Netflix, estrelada por Debby Ryan, já carregava consigo potenciais polêmicas desde seu anúncio, com um trailer que deixava no ar alguns pontos extremamente duvidosos acerca da qualidade que ofereceria. Mesmo assim, o público adepto ao conteúdo original da plataforma resolveu dar um voto de confiança à produção, esperando até o dia de sua estreia para conferir com os próprios olhos que diabos se tratava a narrativa. O resultado não poderia ter sido mais catastrófico: além de ter recebido a pior avaliação de todos os tempos, a série também refletiu um suposto desgaste da gigante do streaming e uma possível perda de seu monopólio criativo.

O episódio piloto se inicia de forma clichê: uma menina obesa chamada Patty Bladell (Ryan) sofre bullying constante na escola que frequenta, descontando todas as suas frustrações compulsórias na comida, sendo respaldada emocionalmente pela melhor amiga Nonnie (Kimmy Shields). Em um cosmos paralelo, Bob Armstrong (Dallas Roberts), um ex-advogado que se tornou técnico de misses de concursos de beleza, lida com a frustração de sua última cliente e de sua insuportável mãe, as quais se unem para acusá-lo de pedofilia e destruir sua reputação. Os dois mundos se cruzam quando Patty acaba se envolvendo em uma briga com um mendigo e quebra a mandíbula, além de ser processada: Bob, pois, volta para sua vida jurídica e atende a garota após não conseguir mais nenhum caso, e vê a possibilidade de voltar para o mundo artístico após perceber que ela emagreceu horrores e tem o porte de uma pageant queen.

A narrativa não precisaria seguir pelos modos mais convencionais, tomando cuidado para se esquivar de clichês e saídas formulaicas que a transformassem em mais uma trama cômica de coming-of-age adolescente. Entretanto, a criadora e showrunner Lauren Gussis não apenas se respalda em todas as construções que conhecemos, como também reafirma estereótipos extremamente problemáticos em uma sociedade marcada pela tentativa constante de quebrar padrões conservadores e da busca pela empatia e pelo equilíbrio da alteridade.

A programação original da Netflix há algum tempo já mostra uma falta de consideração em relação a inúmeros gatilhos que influenciam no crescimento e no psicológico de várias faixas etárias. Afinal, precisamos lembrar que a plataforma tem uma expansão progressiva que abrange parcelas consideráveis dos telespectadores – então a cautela é um passo de bastante importância. Em outras palavras, ao mesmo passo em que produziu comédias aplaudíveis e de teor ácido sem ferir a integridade de qualquer minoria social, como The Good Place e Unbreakable Kimmy Schmidt, também foi responsável, por exemplo, pela insurgência da adaptação 13 Reasons Why – e a polêmica estende-se até hoje pelo fato de romantizar o suicídio e não tratá-lo com o devido respeito.

Insatiable vai muito além disso. Diferente do drama tour-de-force da obra de Jay Asher, essa série não teve uma intenção boa: sua ideia pareceu, desde o princípio, pegar todos os problemas em pauta na atualidade e usá-los como base para humilhar seus personagens e criar um desserviço social inegável. Patty emagrece e utiliza esse acontecimento para se vingar de todo o bullying que sofreu, tornando-se uma criação histérica que inclusive se utiliza de sua recém-adquirida sedução para conseguir o que quer; além disso, a protagonista faz alusão à pedofilia e a encara com descaso e como uma forma de subir na vida; a sororidade também é desconstruída, colocando todas as personagens femininas em conflito entre si e sempre submetidas à presença masculina, que se porta com mais inteligência e calma. Enquanto isso, Bob delineia todo seu arco “evolutivo” partindo da premissa a magreza é mágica, condenando as pessoas gordas e submetendo suas clientes às tarefas mais insanas para alcançarem o pódio. Basicamente, a série declara mais de uma vez que a beleza é o fator principal para conseguir subir na vida.

Como se não bastasse, nem mesmo o estruturalismo técnico da série é bem pensado: a montagem segue um padrão horrível paralelo que nem mesmo consegue prever supostos furos de roteiro, combinando o que quer que exista apenas para entregar um episódio pífio e medíocre, que em nenhum momento diverte ou ousa ser mais do que aparenta. A direção de arte, que poderia buscar um apoio na paleta de cores extensa da indústria dos alimentos, não consegue brincar de forma adequada para, em meio a tantos equívocos propositais, representar um ínfimo suspiro de esperança. Em outras palavras, todo o show se comporta como a justaposição de fragmentos cênicos sem pé nem cabeça.

Ryan e Roberts, configurando-se como o casal protagonista, carregam o peso tragicômico de manter a série fluida, senão pelos diálogos porcamente criados, ao menos pela química entre suas atuações. Porém, os dois parecem viver cada um em seu mundo: as tentativas de forçar um romance entre os personagens é chocante por todos os motivos errados, inclusive pelo fato de Patty ser menor de idade e Bob estar em um casamento conturbado com Coralee (Alyssa Milano), a própria representação da mulher branca de meia-idade que abandonou todas as suas raízes e transformou-se em uma tradicionalista ridícula sem altos e baixos e que se move às custas, mais uma vez, de seu marido.

Em meio a tantas problematizações que vão da gordofobia até a LGBTfobia mascarada, Insatiable é uma prova de como nem mesmo em pleno século XXI estamos livres de séries que ratificam e disseminam estereótipos. Como supracitado, a Netflix conseguiu mais uma vez mergulhar em um desserviço completo e que definitivamente deixou sua reputação ainda mais difícil de ser recuperada.

Insatiable – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2018)

Criado por: Lauren Gussis
Direção: Andrew Fleming, Lev L. Spiro, Brian Dannelly, Elodie Keene, Maggie Kiley, Steven K. Tsuchida
Roteiro: Lauren Gussis, Jenina Kibuka, Jace Richdale, Kari Drake, Danielle Hoover, David Monahan, Craig Chester, Michael Ellis, Andrew Green, Tim Schlattman
Elenco: Debby Ryan, Dallas Roberts, Christopher Gorham, Kimmy Shields, Daniel Kang, Erinn Westbrook, Michael Provost, Irene Choi, Alyssa Milano
Emissora: Netflix
Episódios: 12
Gênero: Comédia
Duração: 35 min. aprox.