Santa Clarita Diet não teve um dos começos mais promissores do extenso catálogo original da Netflix. Sua proposta original por vezes cedeu a um excessivo gore em detrimento de uma narrativa convincente e um pano de fundo que ousasse desconstruir o gênero zumbi. Claro, não podemos tirar mérito de Victor Fresco de humanizar um personagem que, normalmente, é visto como inimigo – e dar ênfase para suas claras referências a obras como Todo Mundo Quase Morto. Tal qual foi nossa surpresa quando a série foi renovada e nos entregou uma deliciosa e hilária segunda temporada – carregada por um elenco incrível e um roteiro propositalmente autoexplicativo e sarcástico com diversos temas. E, continuando em uma onda de melhorias, o terceiro ano conseguiu renovar a si mesmo e transformar uma comédia pastelão em uma dramédia familiar nem um pouco convencional.

Sheila (Drew Barrymore) e Joel (Timothy Olyphant) já perceberam há muito tempo que suas suburbanas vidas em Santa Clarita jamais voltarão ao normal. Afinal, depois da inesperada transformação de Sheila, ambos entraram em uma jornada “espiritual” para livrar o mundo de pessoas horríveis – lê-se aqui: nazistas, racistas e preconceituosos – e, ao mesmo tempo, alimentar a morta-viva. O que eles não esperavam é que esse novo cosmos não é recheado apenas de preocupações interiores, mas também de complexos obstáculos, que já dão as caras no prólogo do primeiro episódio (um grupo de cientistas russos que deseja estudar os “zumbis conscientes” para fins mercadológicos). E, como se isso não bastasse, a família Hammond também lida com a ameaça iminente de uma seita conhecida por Cavaleiros da Sérvia, cuja missão é exterminar essas mortais criaturas.

A princípio, Fresco teria um prato cheio para realizar seus experimentalismos cênicos e narrativos – mas ele não se contenta com apenas a arquitrama épica em questão. Além disso, o criador adiciona um tempero religioso materializado no pequeno culto que Anne (Natalie Moraes) cria após presenciar as habilidades divinas que Deus concedeu a Sheila – e que ameaça expor sua condição ao restante do mundo, atraindo olhares indesejados e que podem colocar um fim à sua imortal vida. E é claro que ele também não se esqueceria das aventuras inesperadas de Abby (Liv Hewson) e Eric (Skyler Gisondo), que devem continuar lidando não apenas com a manutenção do segredo da família, mas fugir de investigações criminais que os ligam diretamente à explosão da usina de energia da cidade.

Sim, tudo parece muito confuso. É provável que, no momento em que o público tenha tomado ciência das múltiplas tramas que se aglutinam nesse novo ano, seja tarde demais. Entretanto, diferente do que podemos imaginar, Fresco faz um ótimo uso de tudo a que nos apresenta, arquitetando ótimos arcos, finalizando-os em conclusões aprazíveis e abrindo margem para uma próxima temporada que, levando em consideração o chocante cliffhanger, tem muito a nos entregar. Mas mais interessante que tudo talvez seja o modo como a competente equipe criativa do show canalizou seus esforços para unir o melhor da comédia e do gore em um único espaço, revitalizando sua própria carga identitária.

Ao longo de dez breves episódios, o universo de Santa Clarita se expande progressivamente e passa a englobar personagens que até então foram ofuscados pelo brilho e pela química que Barrymore e Olyphant carregavam. É claro que o duo não deixa de nos envolver com uma relação tão pura e natural que consegue perpassar pelos obstáculos mais enigmáticos de todos, mas o casal de adolescentes também alcança um protagonismo considerável conforme passam a cultivar novos sentimentos. A amizade improvável eventualmente os aproximou de modo intenso, abrindo uma brecha para um possível romance que pode ou não dar certo: por um lado, melhores amigos que se apaixonam esbarra com força no convencionalismo melodramático das séries televisivas; por outro, o próprio discurso de Abby mostra que ela não sabe como se sente e que ainda o enxerga como uma espécie de irmão.

De qualquer forma, especulações sobre o futuro de Santa Clarita ainda são muito precipitadas – é preciso que nos concentremos no agora. E, de modo geral, o momento presente nunca foi tão envolvente e satisfatório quanto antes. A múltipla aglomeração de contos carrega uma duplicidade surpreendente e funcional, encontrando a composição início-meio-fim dentro dos trinta minutos ao mesmo tempo que se estende e dialoga com episódios anteriores e posteriores. E dessa forma que rostos como Jean (Linda Lavin) e Tommy (Ethan Suplee) não são meros acidentes imagéticos que taparam buracos eventuais, mas aliados importantes que contribuem para a resolução epopeica de mais um arco envolvendo os Hammond.

Seguindo os passos de produções como The Good Place e Unbreakable Kimmy Schmidt, a obra de Fresco se respalda na irreverência cênica, fazendo críticas de modo explícito para cativar seus fãs. É claro que aqui, as ironias insurgem com menos força e com um propósito diferente das conterrâneas, mas mesmo assim auxiliam no dinamismo estético. Sheila constantemente tem diálogos com Joel sobre o envolvimento de Abby em seu complicado cotidiano, e, como resposta, a sagaz filha mostra uma forte independência que, na verdade, não é abalada pela decisão paternalista do casal – e traz mais elementos lúdicos para serem explorados ao longo dos capítulos.

Santa Clarita Diet volta com força para mais um ano repleto de rebeldias televisivas que reafirmam sua belíssima evolução com o passar dos anos. Novamente, a coesão é a principal arma que o show carrega consigo e, num interessante paradoxo, é através dessa verossimilhança que as infinitas e bizarras possibilidades ganham terreno fértil.

Santa Clarita Diet – 3ª Temporada (Idem, EUA – 2019)

Showrunner: Victor Fresco
Direção: Ken Kwapis, Marc Buckland, Adam Arkin, Steve Pink, Jaffar Mahmood, Jamie Babbit
Roteiro: Aaron Brownstein, Simon Ganz
Elenco: Drew Barrymore, Timothy Olyphany, Liv Hewson, Skylar Gisondo, Mary Elizabeth Ellis, Linda Lavin, Ethan Suplee, Natalie Moraes
Episódios: 10
Duração: aprox. 30 min. cada episódio

Comente!