Crítica | Um Pequeno Favor – A dicotomia entre o suspense e o humor

Após mais de uma década trabalhando com comédias na televisão e no cinema, Paul Feig tornou-se uma das referências no gênero para o cinema americano contemporâneo. Explorando como poucos o talento de Melissa McCarthy em comédias como As Bem Armadas e A Espiã que Sabia de Menos, chegou ao Oscar com Missão Madrinha de Casamento e enfrentou uma onda de polêmicas com seu reboot feminino de Caça-Fantasmas, o primeiro fracasso propriamente dito de sua carreira sólida até então.

Procurando se recuperar a da broxante recepção do reboot, Feig vai por um caminho ainda mais arriscado com Um Pequeno Favor, filme que se propõe como um thriller de mistério a lá Alfred Hitchcock, mas que acaba entregando os pontos ao se mostrar uma narrativa novelesca e exagerada que acaba chegando no cômico através de dispositivos escandalosos.

Baseada no livro de Darcey Bell a trama nos apresenta a Stephanie (Anna Kendrick), uma mãe solteira metódica e organizada, e que passa as horas vagas em seu vlog de internet focado em cozinha. Ao buscar seu filho na escola em certa tarde, ela conhece Emily (Blake Lively), com quem passa a ter uma relação de amizade forte, ainda que a sofisticada moça não ofereça muitos detalhes sobre sua vida misteriosa ou o casamento com Sean (Henry Golding). Após pedir para que Stephanie busque seu filho na escola para ela, Emily desaparece, colocando Stephanie e Sean em uma caçada para descobrir não apenas o paradeiro de Emily, mas também os mistérios de seu passado oculto.

Tragicomédia de Erros

À primeira vista, e principalmente quando se assiste ao filme de Feig, é impossível não remeter a Garota Exemplar. Assim como a obra de Gillian Flynn, a trama de Um Pequeno Favor é repleta de reviravoltas e revelações que tendem a subverter as expectativas do espectador e nos surpreender constantemente. O problema fica mesmo na falta de uma execução melhor, e na verdadeira macarronada que a história adaptada por Jessica Schanzler se torna. É preciso muita paciência e cuidado para introduzir as viradas que Um Pequeno Favor se propôs a usar, e o tom confuso entre paródia e thriller – Feig até apela para o jump scare barato ao trazer uma surpresa quase fantasmagórica – pode provocar uma sensação de não saber se está rindo porque o filme o quis, ou se é simplesmente ridículo.

Como diretor, Feig demonstra uma evolução em sua mise en scène. Saindo do formato sitcom – algo que ele sempre foi capaz de deixar mais cinematográfico, vide Caça-Fantasmas – o diretor abraça completamente a atmosfera de um noir durante alguns momentos da narrativa. Todo o primeiro ato com o envolvimento entre Stephanie e Emily é bem conduzido pelo diretor, que é capaz de criar uma atmosfera inquieta e sedutora através de planos abertos e cortes certeiros para um determinado close – ou até mesmo o momento embaraçoso em que Stephanie começa a dançar em frente à Emily. O uso de trilha sonora pop francesa em diversos momentos também garante charme e elegância para o universo particular de Emily, e é fundamental para envolver o espectador com aquelas personagens.

Seu talento para o suspense também é considerável, com destaque para uma perseguição de carro abrupta em uma fazenda, mas é um aspecto que acaba sendo anulado pelo humor abrupto que toma conta da cena quando menos esperamos; culminando no péssimo clímax que descamba totalmente para a paródia.

Jogadoras poderosas

No quesito elenco, Um Pequeno Favor encontra sua maior pérola. A começar pela deslumbrante Blake Lively, que assume a persona de uma femme fatale desde sua imponente primeira cena, onde caminha em slow mo pela chuva, usa um padrão tipicamente adotado na relação amorosa de um homem e uma mulher, para a de duas amigas. Lively é cheia de nuances e se mostra amadurecida como atriz, sempre demonstrando um lado mais perigoso e suspeito de Emily a cada linha de diálogo. Paul Feig pode não ser David Fincher, mas eu adoraria ver como Blake Lively rivalizaria com Rosamund Pike, vide o imenso potencial que praticamente implora por papéis mais desafiadores. Lively ainda vai longe.

Mas o filme é mesmo de Anna Kendrick, personagem com a qual passamos boa parte do tempo e adotamos a principal perspectiva. Kendrick tem um estilo de atuação muito particular, onde sempre parece gaguejar e fazer a persona da garota inocente, algo visto tanto em suas personagens na Saga Crepúsculo e seu papel aclamado em Amor Sem Escalas. Sua Stephanie não traz muitas novidades em quesitos cênicos, mas Kendrick carrega o filme e sempre mantém nosso interesse e envolvimento, especialmente por seu acertadíssimo timing cômico. Vale também destacar o carismático Henry Golding, que oferece charme e ambiguidade a Sean, o marido nada coitado de Emily.

Agora, um aspecto no qual Um Pequeno Favor se sobressai, e que é criminalmente subestimado em produções contemporâneas, é seu figurino. Como a personagem de Lively trabalha como relações públicas de um estilista, é evidente que a figurinista Renee Ehrlich Kalfus ofereceria o melhor e mais luxuoso para Emily, e são peças realmente deslumbrantes, e que oferecem algo a mais à persona de sua personagem, vide a escolha ousada de um decote sem sutiã em um cemitério.

De forma similar, as vestimentas de Stephanie traduzem seu aspecto mais “dona de casa inofensiva” através de peças que parecem saídas de uma boneca Barbie, e até mesmo o detetive de Bashir Salahuddin surge em cena com uma camisa laranja e um terno azul marinho, deixando bem claro ao espectador que esse universo não é povoado por figuras realistas, mas sim retratos cartunescos de um tipo específico de sociedade. O próprio momento em que Stephanie experimenta um dos vestidos de Emily e não parece conseguir sair dele é simbólico de todo o arco do longa, e também da metamorfose da mãe vlogueira em algo muito diferente.

Quase ótimo

No fundo, Um Pequeno Favor é surpreendente quando de fato leva o suspense a sério, comprovando que Paul Feig tem mão e estilo para esse tipo de gênero. Porém, o experimento mostra-se desequilibrado quando a história beira o absurdo e tenta compensá-la com um humor satírico, que parece mais apropriado para um grande novelão do que um thriller.

Um Pequeno Favor (A Simple Favor, EUA – 2018)

Direção: Paul Feig
Roteiro: Jessica Sharzer, baseado na obra de Darcey Bell
Elenco: Anna Kendrick, Blake Lively, Henry Golding, Jean Smart, Linda Cardellini, Ian Ho, Joshua Satine, Andrew Moodie, Andrew Rannells, Kelly McCormack, Aparna Nancherla
Gênero: Drama/Comédia
Duração: 117 min

Crítica | O Predador – Uma péssima tentativa de reboot

Trazido ao mundo por John McTierman no excelente filme de ficção científica de ação, o Predador rapidamente tornou-se um dos ícones do gênero no cinema. É uma conquista praticamente única, visto que a continuação protagonizada por Danny Glover não provocou o mesmo entusiasmo, o reboot com o estelar elenco liderado por Adrian Brody não alcançou seu potencial e os conflitos em Alien vs Predador definitivamente não passaram de um entretenimento guilty pleasure.

O Predador definitivamente merecia mais, e é uma barra alta para alcançar. Por isso, a Fox resolveu tentar novamente, encomendando um novo reboot com o diretor Shane Black, conhecido por seu trabalho em comédias policiais – como Máquina Mortífera, Beijos e Tiros e o fantástico Dois Caras Legais. Porém, o experimento deu terrivelmente errado. Batizado simplesmente de O Predador, o novo filme comprova que Black deveria manter sua atenção em sua zona de conforto, e mostra tudo o que não devemos fazer com o personagem.

A trama começa quando um Predador rebelde segue em rumo para a Terra, sendo perseguido por uma versão maior e mais brutal do alienígena. Com a queda de sua nave, alguns de seus aparatos acabam nas mãos do atirador de elite Quinn McKenna (Boyd Holbrook), que logo os envia para sua própria casa a fim de escondê-los do governo. A máscara e a manopla do Predador acabam com o filho de Quinn, Rory (Jacob Tremblay), iniciando uma corrida contra o tempo entre os dois Predadores rivais, McKenna, a cientista Casey (Olivia Munn) e um grupo de soldados lunáticos.

Shane Blackismos

Confesso que não foi nem um pouco fácil sumarizar e tentar lembrar de cabeça a premissa básica de O Predador. Desde sua concepção inicial, a ideia de ter Shane Black envolvido com um dos grandes ícones da ficção científica parecia equivocada. Não importa se Black até participou do filme de Arnold Schwarzenegger como ator, seu trabalho na criação da história (ao lado de Fred Dekker) é absolutamente desastroso, pois notamos como o estilo muito particular de sua escrita não é capaz de sustentar a fórmula específica do gênero, tampouco reinventá-lo ou trazer algo novo.

Todas as decisões parecem ser erradas, principalmente em execução. A própria ideia de McKenna enviar a caixa com equipamento alienígena altamente perigoso para sua própria família é de uma estupidez insana, assim como a ideia ainda mais absurda de que uma criança seria capaz de acionar e controlar os aparatos do Predador em seu próprio porão. 

De muitas formas, este novo Predador remete muito ao desserviço que Colin Trevorrow fez com a franquia Jurassic Park em seu Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros. O fato de termos personagens constantemente referenciando o filme original, as piadas auto conscientes com a mitologia do alienígena e até mesmo o fato absurdo de alguns personagens literalmente “brincarem” com as armas do Predador resultam em sua completa desmistificação. Algo que era especial, misterioso e único tornou-se banal, com destaque para a cena final do longa, que é uma verdadeira ofensa não apenas aos fãs do personagem, mas diria que também do bom cinema. 

Mesmo com um bom elenco em mãos, é difícil se afeiçoar aos personagens, que são tão mal escritos e têm infortúnio de proclamar alguns dos diálogos mais ridículos do ano – não existe fan service pior do que os vistos aqui (“You are one beautiful motherfucker”). Boyd Holbrook faz um bom papel como protagonista, mas nada que realmente se destaque. Olivia Munn surge deslumbrante como sempre, mas sem ter muito o que fazer. A grande surpresa fica com Sterling K. Brown, que interpreta um sujeito deliciosamente asqueroso e inescrupuloso, e comprova a versatilidade do ator para papéis antagonistas.

A carta fora do baralho, especialmente quando ouvimos o nome Predador, é o jovem Jacob Tremblay. Infelizmente, o esforçado ator está preso em um filme completamente diferente, apenas servindo à necessidade obsessiva de Black de ter “crianças espertinhas” em seus filmes, algo presente em praticamente em todos os seus roteiros. O retrato que Tremblay faz de um garoto autista é funcional e respeitoso, mas desperdiçado a serviço de algo anacrônico e sem sentido. Por fim, Trevante Rhodes (de Moonlight: Sob a Luz do Luar) tenta trazer algum peso dramático na pele de um comandante suicida, enquanto Keegan-Michael Key, Thomas Jane, Augusto Aguillera e Alfie Allen preenchem a cota de alívios cômicos. 

A Caçada é uma Bagunça

Como diretor, Black não apresenta nada demais. Se comparar com seu trabalho feito no irregular Homem de Ferro 3, que ao menos contava com algumas cenas de ação interessantes, é uma tremenda queda em seu talento. Colocando todas as cenas de ação à noite, sua mise en scéne é vítima da confusão e de efeitos visuais medianos, onde mal conseguimos acompanhar as lutas e perseguições. Há um terrível desequilíbrio tonal, onde Black mistura as intenções de fazer um tipo de cena intensa e rápida com uma abrupta entrada de atmosfera mais lenta (apenas reforçada pelo desaparecimento da trilha musical de Henry Jackman), algo que gera um desapego completo do espectador, que não sabe se deveria estar vibrando, com medo ou dando risada. 

A montagem do filme é das mais problemáticas, do tipo em que diversos núcleos (como o da esposa/ex-esposa de McKenna, o status nem ao menos fica claro) acabam simplesmente esquecidos de uma transição de cena a outra. E sabemos que elipses são importantes para economizar informações, mas elementos cruciais como um novo arsenal de armas e até mesmo um helicóptero não podem surgir magicamente nas mãos dos protagonistas, que eram soldados repreendidos naquele ponto – e me questiono quantos soldados americanos realmente conseguiriam arranjar um helicóptero tão rápido, no meio da noite. Fica aí uma ideia de derivado bem mais interessante.

Quanto à criatura do título, Black não faz nada para expandir sua mitologia de forma animadora. O chamado “Super Predador” é uma mera versão mais alta e forte do Predador comum, com a diferença de ser criado inteiramente por efeitos digitais, que transparecem facilmente em cena – especialmente quando temos um ator de carne e osso interpretando o outro Predador. O vilão nunca torna-se ameaçador ou memorável, com a ausência de uma máscara também atuando contra sua vantagem, e nem todo o sangue digital do mundo (o gore é presente, mas artificial e risível) conseguem nos fazer temer esse personagem tão genérico. 

Get to the chopper… E fuja desse filme

O Predador é uma verdadeira bagunça de filme, nunca sabendo se irá mesmo honrar o terror e suspense do original ou descambará de vez para o trash e o humor negro deslocado. Força a violência gráfica de forma artificial e tece algo que definitivamente é uma das manchas mais feias que o alienígena já teve em sua trajetória pelos cinemas. Mostra que Shane Black definitivamente não funciona fora de sua zona de conforto, e ele faria um grande favor a si mesmo – e ao público – se ficasse longe de blockbusters e trouxesse mais pérolas preciosas como Dois Caras Legais.

O Predador (The Predator, EUA – 2018)

Direção: Shane Black
Roteiro: Shane Black e Fred Dekker, baseado nos personagens de Jim Thomas e John Thomas
Elenco: Boyd Holbrook, Olivia Munn, Sterling K. Brown, Keegan Michael Kelly, Jacob Tremblay, Trevante Rhodes, Thomas Jane, Alfie Allen, Augusto Aguilera
Gênero: Ação, Ficção Científica
Duração: 108 min

Especial Predador

Crítica | Estação do Diabo – Um lamento épico

Falar do cinema de Lav Diaz é falar de uma obra sobre as Filipinas, sua história e as violências da Corte Marcial do ditador Ferdinando Marcos, e do atual presidente do país, Rodrigo Duterte, que parece cada vez mais assimilar atitudes do governante antigo. Como um compositor que flerta com um mesmo tema, o diretor busca apresentar sempre uma “variação”, ou “estudo” sobre o assunto, seja em narrativas mais naturalistas, documentais a sua forma, seja pela narrativa de histórias frouxamente inspiradas na literatura (caso da adaptação de Dostoiévski em Norte, o Fim da História e de Tolstói, seu filme anterior, A Mulher que se foi). Estação do Diabo, em particular, parece habitar um espaço de interseção entre essas “duas” esferas, um tanto reducionistas. Ainda que não tenha inspiração em uma obra literária específica, o tema da “inspiração” e da forma épica é central no filme.

Ao que foi chamado de “ópera rock” pelo próprio diretor, seria mais preciso, se quisermos ignorar suas idiossincrasias, chamar o filme talvez de “lamento épico”. As quatro horas de duração de Estação do Diabo são recheadas de composições, escritas pelo próprio Diaz, e entoadas a cappella pelos próprios atores em cena. Por um lado, em matéria de gênero, pode remeter a um musical, mas por sua sobriedade e tristeza, não deixa de lembrar uma antiga narrativa oral às avessas, como um relato elegíaco da miséria.

Para isso, como cineasta de esquerda, Diaz recorre, em primeiro lugar, a uma Musa/voz que lhe permita falar no lugar de alguém, que o ajude a tratar do mal que assola sua nação. Em off, uma voz feminina evoca uma epígrafe sobre o decreto da lei marcial de Duterte em uma ilha no sul das Filipinas, que contextualiza a ligação entre o presente e o contexto da narrativa.

Autoridades infernais

Estação do Diabo, filme dedicado às vítimas da lei marcial de Marcos, acompanha a história do poeta Hugo (Piolo Pascual), e de sua esposa, a médica Lorena (Shaina Magdayao), que acaba de deixá-lo para abrir uma clínica popular em uma vila afastada, durante a ditadura de Marcos. Com o decreto da lei marcial, um grupo militar está patrulhando o vilarejo e planejando como pode impor o medo no lugar e, assim, ter total controle da vida da população. Os soldados vão arquitetar a lenda de um monstro assassino, matando e expondo corpos de inocentes.

E não só no enredo o corpo militar terá um papel autoritário: é ele o primeiro grupo a aparecer e cantar os primeiros diálogos. Em outras palavras, literalmente, são eles que regem a música e ditam a dinâmica de todo o longa, ou ainda, o ritmo que as outras personagens terão de dançar.

No início do filme, após a introdução dos soldados, acompanhamos o poeta antes da partida de sua esposa, em uma longa cena em que ele declama “um poema que achou no lixo”. Depois desse momento porém, essa espécie de baile inelutável, toma conta da mise-en-scène do filme. Se compararmos o título do longa com o da obra máxima de Rimbaud, o tal Diabo parece ficar mais claro: não trata-se apenas de uma temporada (saison) no Inferno, mas “a temporada/estação/estada” do próprio Diabo, isto é, do governante personificado que mata poetas e senta a Beleza a seu colo para violentá-la.

Tal como filmes anteriores de Diaz, Estação do Diabo é filmado em preto e branco, em uma série de longas sequências com pouco movimento de câmera. Se formos retomar a ideia da “ópera”, essa opção estética conversa bem com o gênero, fazendo da cena um palco, seja na natureza, seja em ambientes fechados, de poucos elementos e com uma coreografia muito precisa – alternando entre o naturalismo e o rigor cênico.

A montagem, porém, parece ser aqui seu grande trunfo. A história narrada se passa durante dois momentos que distam três anos uma da outra, e apesar de isso ficar claro desde o começo, as fronteiras entre esses dois momentos vão se revelando mais interessantes de um ponto de vista da análise social e dramática. A partir desse embaralhamento (por momentos não sabemos localizar um acontecimento no tempo cronológico), Diaz incentiva um olhar, para usar o título de um de seus filmes, “do que vem antes”, suas passagens e trajetórias. Afinal, a proposta de Lav Diaz é fazer um registro memorial de tempos obscuros e de uma certa resiliência do próprios filipinos – e daí a conversa com suas experimentações com o tempo em seus filmes longuíssimos.

Estação do Diabo se diferencia por trazer representações simbólicas para o primeiro plano, desde todo o conceito da cantoria, passando pelas entidades que cada personagem representa (o Poeta, a Coruja, o Sábio, a Musa que acompanha o poeta, os soldados, as misteriosas figuras mascaradas, até uma cena em que aparece o próprio Diabo em um corpo feminino) até a conversa dos cenários com a história (o ambiente urbano contra a natureza).

Mais do que os outros filmes de Diaz, este se destaca por se aproximar vagamente do épico como forma literária, remontando aos clássicos gregos da mesma forma que abordaria Dostoiévski ou Tolstói, mas sem deixar sua pretensão quase syberberguiana de superar cinematograficamente a “besta imunda” da ditadura filipina. Aqui, é o próprio poeta Hugo, herói a sua medida, que vem atrás de sua esposa e se depara com o horror inelutável, sobretudo frente ao personagem do presidente Narciso, incapaz de falar senão por grunhidos violentos – uma espécie de Janus, símbolo dos começos e fins, com uma grotesca face de Ferdinando Marcos em sua nuca.

Nessa incursão simbólica, Diaz experimenta uma nova “forma de combate”, uma fábula demoníaca, por assim dizer, ainda que isso, faça o longa perder um pouco de força em relação a filmes anteriores. Ainda assim, a narrativa conversa bem com a duração do filme, tornando-o menos exaustivo que a média. Nesses caminhos, Estação do Diabo firma-se como mais um episódio coerente do diálogo entre o artista e o(s) déspota(s) que é a obra de Lav Diaz.

*O filme está no programação do 18º Festival Indie, que acontece entre 12 e 19 de setembro

Estação do Diabo (Ang panahon ng halimaw, Filipinas – 2018)

Direção: Lav Diaz
Roteiro: Lav Diaz
Elenco: Piolo Pascual, Shaina Magdayao, Bituin Escalante, Pinky Amador, Bart Guingona, Hazel Orencio, Joel Saracho e Angel Aquino
Gênero: Drama, Musical
Duração: 234 min

Crítica | Buscando… – Uma revolução na arte de contar histórias

critica buscando filme

O cinema sempre está antenado com as mudanças na forma de comunicação humana. Desde que o 3D passou a oferecer uma interação maior com o público, ou quando câmeras se tornaram literalmente parte de histórias no gênero found footage, diferentes cineastas têm encontrado formas de usar ferramentas de comunicação para mudar a maneira de construir e conduzir narrativas.

Como a sociedade atual passa grande parte do tempo atrás de uma tela, seja de computadores ou smartphones, o cinema precisa encontrar uma forma de contornar esse bloqueio social. Filmes como Amizade Desfeita e Creep ofereceram experimentos louváveis ao manter integralmente suas narrativas no desktop de computadores, usando chats e Skype para desenvolver a trama e seus personagens. Agora, Buscando… aprimora todas essas ferramentas para criar uma experiência completamente inovadora: é um passo à frente no futuro do storytelling.

A trama é muito simples. Através de telas de desktop, vídeos e outras transmissões de vídeo, acompanhamos a busca de David Kim (John Cho) por sua filha Margot (Michelle La). Após sair para estudar em uma noite, a jovem desaparece sem deixar vestígios, fazendo com que David e a investigadora Rosemary Vick (Debra Messing) iniciem uma caçada nacional que também precisa lidar com o obstáculo de que Margot era uma pessoa muito reservada, com apenas seu laptop oferecendo pistas de sua vida supostamente misteriosa.

Suspense na Era Digital

É uma história básica e não muito diferente de obras desse mesmo viés, com até mesmo os internautas de Buscando… comparando os eventos com obras como Making a Murderer e Garota Exemplar. Mas o que faz o roteiro de Sev Ohanian e do diretor Aneesh Chaganty se sobressair é o cuidado especial da dupla em oferecer uma estrutura exemplar: pistas, informações e foreshadowings são usados com o brilhantismo presente nas melhores histórias de detetive, onde uma segunda visita a Buscando… definitivamente ofereceria uma experiência ainda mais enriquecedora. Pode ser uma narrativa que, sim, acaba soando exagerada em suas tentativas de surpreender, mas que o faz com muita segurança.

Não só pela escrita, mas também pela proposta radicalmente distinta de se desenrolar através de telas. A forma como informações relevantes à trama são exibidas para o espectador é de uma elegância notável, como quando David é apresentado à detetive Kim pela primeira vez, e enquanto escuta as medidas da personagem para a investigação,  o protagonista simultaneamente abre uma aba do Google para pesquisar sobre ela, já oferecendo ao espectador todo o background necessário, dispensando diálogos expositivos de forma orgânica e que corresponde ao nosso cotidiano marcado por múltiplas informações ao mesmo tempo. E é realmente admirável como um detalhe aparentemente descartável como uma capa de Facebook com frase motivacional pode passar de um elemento para construir a confiança de um personagem em outro, para uma assustadora confirmação de seu próprio caráter – novamente, uma aula de foreshadowing.

Dirigindo um Desktop

É engraçado falar sobre a direção de um filme que é todo baseado em telas de desktop, mas Chaganty merece aplausos. Ao contrário de Amizade Desfeita, o diretor toma liberdades mais “cinematográficas” com o uso da tela, trazendo cortes, closes e até trilha sonora não diegética para acentuar a tensão e atmosfera do filme. São recursos que ajudam a tornar a experiência mais urgente, algo que Chaganty faz ao cortar para um close de tela ou até mesmo um “plano detalhe”, e até mesmo formas de expressão de humor extremamente orgânicas, vide o corte de uma discussão intensa entre David e um dos adolescentes suspeitos, até a tela de Excel onde o protagonista escreve “Show de Bieber”.

De forma mais natural, e que se revela como recurso dramático eficiente, temos mensagens de texto para ilustrar dúvidas e estados de espírito. Chaganty também usa dessas ferramentas para manter o espectador completamente grudado à tela. Em um recurso já bem explorado em Amizade Desfeita, vemos personagens digitando mensagens que exploram seus pensamentos e demonstram hesitação, especialmente quando acabam decidindo não enviá-las; algo que gera empatia em literalmente todos nós, e que suporta a forma de exposição sutil da narrativa e até consegue gerar pay offs emocionais poderosos.

Chaganty também usa dessas ferramentas para manter o espectador completamente grudado à tela. Diversas cenas acabam criando verdadeira angústia no espectador, como quando David suspeita de uma pessoa próxima e espalha diferentes câmeras pelo ambiente, ao passo em que vamos esperando a inevitável bomba explodir – algo que só se torna mais intenso quando vemos as reveladoras notificações de seu celular na tela, e quase gritamos à tela para que o protagonista apanhe logo seu aparelho.

Através do uso de noticiários e outros vídeos de internet, Chaganty também mantém a tensão e as expectativas no ápice, especialmente quando conduz a narrativa em direção ao clímax surpreendente. É uma sensação quase voyeurística, a de observar mensagens e gravações destinadas a outras pessoas, quase como se estivéssemos vendo algo por acidente – como o crescente conflito que se inicia durante um vídeo de streaming, e que o diretor sabiamente “trava” o vídeo apenas para demonstrar o controle sobre a narrativa, para desespero do espectador.

Buscando… é um animador vislumbre do futuro. Através de ferramentas modernas e recursos inteligentes, Angeesh Chaganty captura como poucos a forma de comunicação humana no século XXI, conseguindo enxergar possibilidades de drama e suspense no mundano. É uma revolução na forma de se contar histórias.

Obs: Uma salva de palmas para o esforço da Sony Pictures Brasil no trabalho de tradução, que adaptou perfeitamente todas as telas e textos do filme, tornando a experiência o mais imersível possível.

Buscando… (Searching, EUA – 2018)

Direção: Aneesh Chaganty
Roteiro: Aneesh Chaganty e Sev Ohanian
Elenco: John Cho, Debra Messing, Sara Sohn, Michelle La, Joseph Lee, Briana McLean, Erica Jenkins, Ric Sarabia
Gênero: Suspense
Duração: 106 min

Crítica | A Freira – O capítulo mais fraco da franquia Invocação do Mal

Iniciado abruptamente em 2013, o universo cinematográfico de Invocação do Mal logo converteu-se em uma das franquias mais interessantes e distintas da Hollywood contemporânea. Usando uma fórmula de filmes compartilhados que apenas a Marvel Studios havia acertado em seus filme de super-heróis, James Wan capitaneou um universo concentrado inteiramente no terror, e não em ação; tudo o que a Universal tanto queria com o fracassado A Múmia e o plano do Dark Universe.

Após dois filmes do selo Invocação do Mal e duas “aventuras” solo da boneca demoníaca Annabelle, Wan aposta em outra figura sinistra para ganhar sua história de origem: A Freira. Baseando-se em um dos antagonistas do casal Ed e Lorraine Warren, Wan mantém sua tática habitual de encontrar um jovem prodígio para contar uma história original e com estilo distinto, algo que funcionou com David F. Sandberg em Annabelle 2: A Criação do Mal, mas que infelizmente não se repete aqui. O filme de Corin Hardy é facilmente o mais fraco da franquia até agora.

Assim como os dois filmes de Annabelle, a trama deste novo capítulo serve como prelúdio dos filmes de Invocação Mal, nos levando para um convento romeno em 1952. Após o misterioso suicídio de uma freira, o Vaticano envia o Padre Anthony Burke (Demian Bichir) e a noviça Irene (Taissa Farmiga) para investigar a situação e averiguar se o local “ainda é sagrado”. Ao chegar lá, eles descobrem a presença demoníaca de Valak, que se manifesta na forma de uma assustadora freira (Bonnie Aarons).

Um roteiro profano

A princípio, a ideia de explorar as origens da Freira é das mais empolgantes. Movido pela ambientação de época em um cenário radicalmente distinto para a franquia, que fora mais baseada em casas e famílias, o roteiro de Gary Dauberman (que também escreveu os filmes de Annabelle) acerta ao partir da premissa de um filme de investigação dentro do convento na Romênia, algo que por si só já é capaz de causar arrepios pela atmosfera aterradora. Infelizmente, trata-se do pior texto que Dauberman já trouxe até então, com uma sucessão de erros e oportunidades terrivelmente perdidas.

Como filmes de terror são produzidos em um tempo mais curto do que grandes blockbusters de efeitos visuais, é de se imaginar que a Warner Bros e James Wan tenham apressado a produção do longa, o que talvez explique porque a narrativa de Dauberman é tão debilitada. Percebemos a preguiça criativa logo no começo, quando o Padre Burke recruta Irene por sua experiência em campo na Romênia, mas a jovem noviça diz que nunca viajou ao país, e que a Igreja deve ter recomendado a pessoa errada – a clássica relutância da Jornada do Herói, de Joseph Campbell. Burke simplesmente assume que “ela foi recomendada por algum propósito”, e ficamos por aí. Mandar uma noviça para uma missão secreta e altamente perigosa, e é apenas o começo dos erros.

Ao longo da enxuta duração de 96 minutos, o texto de Dauberman oferece exposições sofríveis, uma mitologia aprofundada por flashbacks intrusivos e um trabalho praticamente nulo de seus personagens. Nenhuma das figuras aqui traz o charme ou carisma do casal Warren de Invocação do Mal, ou mesmo das órfãs simpáticas de Annabelle 2; que também foi escrito por Dauberman, o que só torna seu tropeço aqui ainda mais preocupante. Há tentativas furadas de criar arcos com Irene e Burke, com a primeira passando por um “questionamento de fé” que jamais ganha algum tipo de análise, visto que a personagem aparentemente só não fez seus votos perpétuos como freira por falta de tempo, ou a descartável experiência traumática do padre com um exorcismo fracassado – algo que só está no filme para garantir alguns sustos quando o passado se manifesta para assombrá-lo. Não há catarse ou resolução satisfatória em nenhum desses arcos.

O único agrado fica com o belga Jones Boquet, que consegue arrancar algumas risadinhas no óbvio papel do alívio cômico. Mas justamente pelo texto ser tão ruim, o fato de que seu personagem Frenchie esteja constantemente questionando e ridicularizando as ações do protagonista acaba surgindo como uma forma de auto-depreciação não planejada. A conexão de seu personagem com o universo da franquia também representa o outro ponto alto da projeção.

Direção nada abençoada

Com um roteiro péssimo, ao menos um diretor criativo conseguiria salvar o navio e oferecer algumas sequências assustadoras. Não acontece isso com Corin Hardy. Saído de A Maldição da Floresta, a técnica do diretor é previsível e sem imaginação, recorrendo constantemente aos jump scares (algo que a franquia sempre usou com inteligência) e o mesmíssimo movimento de câmera que envolve duas panorâmicas em 180 graus para revelar alguma ameaça oculta em cena – praticamente todas as revelações de entidades se dão dessa forma.

Não provocar medo talvez seja o maior pecado que um filme de terror pode cometer, especialmente quando Hardy tem em mãos uma das figuras mais sinistras e icônicas de toda a franquia Invocação do Mal. Bonnie Aarons surge tão bem caracterizada quanto sua participação anterior na franquia, mas o diretor peca ao mantê-la ausente durante boa parte do longa, e apostando em sombras que cobrem sua presença quando de fato está em cena. Apenas uma seção do filme aposta em todo o poder da Freira, mas é tão capenga e vergonhosa que acaba por desmistificar o trabalho que Wan havia feito em Invocação do Mal 2. Resta dizer que, se a intenção era trazer Valak falando, as falas poderiam ser mais bem elaboradas. O que temos aqui é digno de um Resident Evil de Paul W.S. Anderson, se tanto.

Infelizmente, A Freira representa o primeiro grande tropeço da franquia Invocação do Mal nos cinemas, ficando abaixo até mesmo do primeiro derivado centrado em Annabelle. É um exemplo de grande potencial desperdiçado em um roteiro defeituoso e uma direção pouco inspirada, e que requer um carinho maior do produtor James Wan na hora de aprovar seus projetos, já que este aqui representa pura preguiça.

Resta rezar para que este seja apenas um tropeço, e que os Warren retornem para abençoar a franquia novamente.

A Freira (The Nun, EUA – 2018)

Direção: Corin Hardy
Roteiro: Gary Dauberman, baseado em seu argumento com James Wan
Elenco: Taissa Farmiga, Demian Bichir, Bonnie Aarons, Jones Bloquet, Ingrid Bisu, Charlotte Hope, Sandra Tales, August Maturo, Jack Falk
Gênero: Terror
Duração: 96 min

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Crítica | Os Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas – Diversão televisiva nas telonas

jovens titas em acao no cinema

Não deveria vir como um choque a ninguém que a DC Comics é uma absoluta bagunça nos cinemas. Com a recepção negativa e decepcionante para o universo cinematográfico iniciado por Zack Snyder em O Homem de Aço, Batman vs Superman: A Origem da Justiça e Liga da Justiça, a Warner Bros corre desesperadamente para tentar salvar sua valiosa franquia, e os fãs aguardam ansiosamente por uma melhora. Enquanto Aquaman não chega, o estúdio não tinha outra opção senão recorrer a uma de suas propriedades mais elogiadas: as animações produzidas diretamente para o mercado home video, como é o caso de Os Jovens Titãs em Ação! Vão ao Cinema, animação que é bem sucedida em parodiar as próprias convenções do gênero.

Completamente metalinguística, a trama nos apresenta ao grupo composto por Robin (Scott Menville), Ravena (Tara Strong), Mutano (Greg Clipes), Ciborgue (Khary Payton) e Estelar (Hynden Walch), que são vistos pelo público e outros super-heróis do grande escalão como heróis menores e insignificantes. Com Batman, Superman e todos os membros da Liga da Justiça ganhando filmes um atrás do outro, Robin está obcecado em ganhar seu próprio longa-metragem, mas precisa satisfazer a diretora Jade Wilson (Kristen Bell) e encontrar um arqui-inimigo à altura, que se manifesta na figura do mercenário Deathstroke (Will Arnett).

Um Mundo de Super-Heróis

Primeiramente, é preciso deixar algo bem claro sobre Os Jovens Titãs em Ação! Vão ao Cinema: isto não é um filme. Não foi pensado como um filme, tampouco planejado para ser lançado no circuito de cinemas, e isso transparece durante a experiência. O roteiro de Michael Jelenic e Aaron Horvath é praticamente um episódio estendido do desenho animado que fora exibido no Cartoon Network, povoado de esquetes e cenas que não oferecem um propósito narrativo, apenas preenchendo lacunas e oferecendo uma minutagem que possa considerá-lo como um longa-metragem, ao contrário de sua duração (de 84 minutos) que definitivamente era muito mais curta. Também não chega nem perto do brilhantismo técnico e a sofisticação de um LEGO Batman: O Filme, que também era consideravelmente mais bem resolvido.

Porém, que isso não ofusque o quão insanamente divertida é a experiência desta animação dos Jovens Titãs. A impressão que fica é que a Warner Bros deu uma carta branca implacável para os diretores Peter Rida Michail e Horvath, que literalmente disparam para todos os lados nas piadas e referências ao atual estado do cinema blockbuster e sua obsessão com super-heróis. Figuras como Batman e Superman (que tem voz de Nicolas Cage, por si só uma piada interna genial) ganham um destaque hilário, com as piadas levando em conta os inúmeros filmes dos heróis, sua popularidade e até a controversa solução de “Martha” em Batman vs Superman, que rende boas tiradas dos protagonistas.

A ousadia atinge níveis de brilhantismo quando o grupo resolve voltar no tempo (com direito a usar o tema icônico de Alan Silvestri da trilogia De Volta para o Futuro) e impedir a criação de todos os heróis da DC, envolvendo salvar Krypton da destruição, impedir o assalto dos pais de Bruce Wayne e até mesmo afogar Aquaman com a poluição dos oceanos – isso para não estragar o que acontece depois, quando os heróis precisam reverter a situação ao perceber que a Terra se tornou uma zona de guerra sem os outros super-heróis.

Até mesmo o plano do vilão do filme – cuja identidade secreta é incrivelmente previsível – traz um comentário ácido sobre como o público está praticamente sendo escravizado pelo cinema de heróis, sendo até irônico que seu plano envolva um serviço de streaming dos heróis da DC; não é exatamente o melhor tipo de publicidade para o vindouro DC Universe que a editora lança ainda este ano, e que curiosamente traz uma versão radicalmente diferente e sombria dos Titãs. E ver Will Arnett no papel da voz de Deathstroke (ou “Slaaaaaaade”) garante um bom peso ao filme, especialmente após sua versão cômica do Cavaleiro das Trevas na franquia LEGO.

Boa dinâmica e saudosismo

A dinâmica dos protagonistas também garante muitas risadas. Confesso que nunca havia assistido a qualquer desenho dos Jovens Titãs, nem mesmo durante minha infância, mas rapidamente me vi apegado e envolvido nas conversas e conflitos dos carismáticos personagens. O próprio drama central de Robin, que nada mais é do que um desejo narcisista de aparecer, ganha um bom arco de amizade e superação com o apoio de Ravena, Estelar, Mutano e Ciborgue; é a profundidade de um desenho animado do Cartoon Network, e que definitivamente não se esquece do público-alvo infantil ao trazer inúmeras piadas com flatulência e outras escatologias bestas, mas que acaba funcionando. 

Por mais que seja uma animação 2D sem qualquer tipo de inovação tecnológica, é nostálgico ver um traço tão tradicional e clássico em uma grande tela de cinema. E a animação da dupla Michaeil e Horvath consegue encontrar momentos criativos onde possa fazer experimentos, como o filme caseiro feito pelo grupo para Robin, que envolve stop motion e dobraduras de papel, ou quando o antigo parceiro do Batman tem um sonho impagável que serve como sátira a O Rei Leão, com toda a animação assumindo o traço e os movimentos da clássica animação da Disney – sem falar que ver Flash comendo lixo como um antílope foi histérico.

No fim, Os Jovens Titãs em Ação! Vão ao Cinema consegue trazer uma bem-vinda leveza à DC, que cada vez mais vai saindo das sombras. Pode não ser algo tão estimulante como LEGO Batman: O Filme, e que também não traz nenhum tipo de inovação em sua animação, mas que revela-se uma diversão rápida e extremamente divertida.

Obs: No melhor estilo Pixar, há um curta-metragem animado com a Batgirl que antecede o longa, e também funciona pela leveza e humor.

Os Jovens Titãs em Ação! Vão ao Cinema (Teen Titans Go! To the Movies, EUA – 2018)

Direção: Peter Rida Michail e Aaron Horvath
Roteiro: Michael Jelenic e Aaron Horvath, baseado nos personagens da DC
Elenco: Scott Menville, Tara Strong, Greg Clipes, Khary Payton, Hynden Walch, Kristen Bell, Will Arnett, Nicolas Cage, Halsey, Jimmy Kimmel, Greg Davies, John DiMaggio, Patton Oswalt
Gênero: Comédia, Aventura
Duração: 84 min

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Crítica | Meu Ex é Um Espião – Uma Comédia Vazia, Mas Divertida

Quando se fala em filme sobre espionagem o que se vem a cabeça logo de cara é o personagem James Bond e sua numerosa franquia. O humor sempre esteve muito presente nos longas de 007 e esse humor esquecido pelos filmes protagonizados por Daniel Craig quase nunca deixam de fazer parte do gênero da comédia, como o encontrado em Austin Powers e depois com produções menores sobre espionagem sem muito destaque. O traço desse tipo de longa é o de criar espiões que esbarraram sem querer na missão de serem heróis por acaso. Meu Ex é Um Espião apresenta duas protagonistas fazendo humor com esse tema, e escárnio funciona para fugir de situações confusas e em outras cenas ele se mostra forçado. 

Puxado pela dupla de protagonistas Mila Kunis (Perfeita é a Mãe) e Kate McKinnon (A Noite é Delas) que são duas amigas que acabam indo parar no meio de uma disputa de um pen drive e precisam fugir para salvar suas vidas. Desde o início em que aparecem juntas a diretora (Susanna Fogel) já nos deixa claro o tipo de humor que irá abordar, como será o tipo das piadas e quem são as protagonistas. Há sempre uma situação nova sendo criada para se fazer rir, ou alguma piada ou diálogos engraçados que logo se esgotam, ou por ser algo dito fora de hora ou pela piada simplesmente não ter se encaixado bem naquela cena. 

Mas são poucos os momentos em que não se ri. Em geral é daquelas produções que se vai assistir e se divertir sem precisar se preocupar com o que é apresentado. O humor é feito de uma maneira simples com diálogos fáceis de serem compreendidos e uma trama que se entende de início, além de tiradas rápidas. O principal problema dele é o que quase todas produções do gênero tem em comum que é a falta de uma mensagem, algo que o torna um filme vazio sem nada para ser dito, apenas apresentado de maneira superficial que entre na sua cabeça e depois se esqueça do que assistiu. 

As cenas mais engraçadas acontecem quando as duas estão sendo perseguidas, mas não é aquela risada espontânea. Em alguns momentos se força para se fazer rir, um elemento que funciona já que as duas protagonistas têm carisma e a forçação não fica boba. As duas em cena estão ótimas, o problema é quanto aparece o antagonista, aí se perde o humor e fica mais forçado ainda. A falta de um vilão forte é o que empobrece a trama, se por um lado temos duas boas personagens do outro temos um vilão fraco, sem força para segurar suas cenas, algo que não acontece na comédia A Espiã que Sabia de Menos com Melissa McCarthy e Jason Statham. O vilão é nada mais nada menos que Jude Law, e isso faz a história ficar mais balanceada com atuações boas por ambas as partes que participam. 

Tanto Mila Kunis quanto Kate McKinnon estão bem em suas personagens, mas aqui há também uma falta de compasso entre as duas, enquanto Milla Kunis é uma mulher mais centrada e o humor dela acontece quase que espontâneo McKinnon vê a necessidade quase sempre de forçar em suas piadas, isso é explicado por sua protagonista ser meio maluquinha. Esse vício em sempre forçar no jeito de fazer humor é algo que vem dos seus trabalhos de McKinnon no programa de humor Saturday Night Live, para a personagem pode funcionar em alguns momentos, mas fica cansativo de tão repetitivo e exagerado.

Por ser um filme de espionagem é necessário que tenha cenas de ação, elas estão bastante presentes, desde as cenas em que estão em fuga desenfreada, mas elas não são bem trabalhadas. Colocam explosões, tiroteios e lutas quase que a todo instante, como um fator para esconder os buracos da narrativa, sempre que o filme se torna chato colocam alguma cena de ação sem sentido apenas por colocar e quase sempre tentando fazer um certo humor nas cenas de ação, algo que não funciona também pelo simples fato de não saberem colocar as protagonistas em uma real situação de perigo, pois sempre que aparecem com algum criminoso ele some quase que rapidamente sem ao menos ter feito algo que dê mais tensão para o que está acontecendo com elas.

Os personagens secundários são interessantes e intrigantes, mas não tão bem utilizados. O destaque do segundo escalão é o ator Sam Heughan (Outlander) que cai de paraquedas na trama e se sai muito bem, seu personagem é bem escrito e não nos dão pista para quais dos dois lados ele está jogando, um elemento interessante sendo que é uma produção sobre espionagem e faltava saber se seu personagem era o bonzinho ou o malvado da história. Esse artifício de enganar o público deixando só para o final saber se ele é do bem ou do mal poderia ter sido usado mais vezes como feito em o O Agente da U.N.C.L.E. em que sabemos quem são os dois espiões, mas não sabemos quais dos dois protagonistas é o mais confiável

Algo bastante elogiável é a trilha sonora. Bem trabalhada e escolhida a dedo, vai desde Scorpions e Elvis Presley á Crash Test Dummies com a famosa música Mmm Mmm Mmm Mmm. Há outros nomes desconhecidos, mas igualmente interessantes que podem ser encontrados comprando a trilha sonora, Há um trabalho minucioso de se encaixar cada som em cada cena específica e isso é bem feito, dando maior badalação para uma cena que as vezes não é tão empolgante quanto aparenta ser. 

Susanna Fogel foi um acerto para dirigir a produção. Apesar de ter poucas produções como diretora no currículo consegue fazer uma comédia suave, sem apelar demais para o humor desnecessário ou escatológico em que muitas comédias americanas acabam por fazer. Sua direção foge do que estamos acostumados a ver no humor, mas que ainda precisa de mais atenção quanto ao roteiro em que há altos e baixos e piadas que as vezes não funcionam. Meu Ex é Um Espião é competente em fazer rir sem dificuldades e deve atrair um grande público aos cinemas.

Meu Ex é Um Espião (The Spy Who Dumped Me, EUA – 2018)

Direção: Susanna Fogel
Roteiro: Susanna Fogel, David Iserson
Elenco: Mila Kunis, Kate Mckinnon, San Haughan, Justin Theroux, Gillian Anderson
Gênero: Ação, Comédia
Duração: 117 min.

Crítica | Te Peguei! – Mais absurdo que a ficção

Algumas histórias são tão absurdas que só podem ser verdade. E quando algumas dessas histórias são adaptadas para o cinema, a comédia talvez seja o melhor prisma da transição realidade/ficção, até porque a desgraça de um sempre será motivo de riso para o outro. No caso de Te Peguei!, onde temos literalmente um jogo de pega pega como foco da narrativa, baseada em casos reais, é uma situação onde absolutamente todos os envolvidos – audiência e personagens históricos – só podem contemplar o ridículo e rir.

A trama é inspirada na história real de um grupo de amigos que está jogando pega-pega há 30 anos. Todo mês de maio, a turma formada por Callahan (Jon Hamm), Hoagie (Ed Helms), Chilli (Jake Johnson), Kevin (Hannibal Buress) e Jerry (Jeremy Renner) prepara uma elaborada brincadeira onde cada um faz coisas absurdas e insanas para sair vencedor. Em todos esses anos, o personagem de Renner nunca foi pego por nenhum deles, e o grupo se une para quebrar a zica, aproveitando o fato de que o sujeito está de casamento marcado e mais distraído.

Antes de falar sobre Te Peguei! como filme, é bom ver que mais uma comédia de estúdio chegou aos cinemas. Antes de A Noite do Jogo há alguns meses, poucos estúdios pareciam investir pesado em elenco e cinematografia para comédia, um gênero que está praticamente extinto em meio a tantos filmes de super-heróis, blockbusters e outras produções de maior interesse popular.

A Comédia de Estúdio vive

Só pela proposta já sabemos que há algo valioso aí, então a questão fica em como o roteiro de Rob McKittrick e Mark Steilen são capazes de segmentar a trama e dar espaço para as piadas. O set up da trama é bem lógico, com o anúncio do casamento de fato servindo para uma distração e desculpa para que o grupo una suas forças, ao mesmo tempo em que garante situações divertidas dentro dessa temática – que não deixa de ser uma variante de Se Beber, Não Case!, a grande comédia de adultos de estúdio que também se concentra em marmanjos lidando com o casamento. As piadas são divertidas quando abordam algo mais megalomaníaco, vide a situação absurda em que uma personagem pode ou não estar gfingindo um aborto, mas falham quando somos deixados a algo mais improvisado.

Esses momentos acabam não soando tão inspirados por um motivo simples, mas que se revela letal para o longa: o elenco parece não ter química. Todos estão ótimos em cena, com Jon Hamm se entregando totalmente para caretas e comportamentos estúpidos, ao passo em que Ed Helms continua com seu mesmo perfil excêntrico com bom complemento de Johnson e Burgess. O problema é que em ponto algum temos a impressão de que realmente são amigos próximos ali, apenas atores se divertindo – e isso transparece bem em cena. Tal efeito fica ainda pior quando o roteiro de McKitrrick e Steilen subitamente se alterna para o drama, e vemos como o texto parecia ter algo interessante a dizer, mas o desalinhamento do elenco e a mão pesada acabam tornando a experiência embaraçosa.

Riso bem Fotografado

Te Peguei! também não traz o mesmo brilhantismo técnico deNoite do Jogo, onde a dupla Jonathan Goldstein e John Francis Daley apostavam em planos sequência, match cuts e diversos elementos visuais que raramente vemos em longas cujo objetivo principal é o riso, e que cada vez mais se aproxima da ação. A direção de Jeff Tomsic em Te Peguei! é mais genérica, mas segue a onda de um olhar mais preciosista para o gênero: a fotografia é belíssima, com um jogo de luzes digno de um exemplar da série Missão: Impossível para nos revelar Jeremy Renner pela primeira vez – o mesmo se aplica a uma perseguição na floresta, que parece saída de um terror iraniano -, ao passo em que usa o slow motion com paixão para traduzir visualmente o raciocínio insano de Renner, que calcula os movimentos de seus amigos para conseguir se esquivar; praticamente uma versão escrachada do Sherlock Holmes de Robert Downey Jr.

Entre erros e acertos, Te Peguei! é mais um representante do aprimoramento técnico do gênero de comédia, além de representar um tipo de filme praticamente nichado. Vale conferir pelo absurdo da história real e as boas soluções de Jeff Tomsic como diretor, mas é uma experiência tão rápida e volúvel quanto um jogo de pega-pega.

Te Peguei! (Tag, EUA – 2018)

Direção: Jeff Tomsic
Roteiro: Rob McKittrick e Mark Steilen, baseado no artigo de Russell Adams
Elenco: Ed Helms, Jon Hamm, Jeremy Renner, Jake Johnson, Hannibal Buress, Isla Fisher, Annabelle Wallis, Leslie Bibb, Rashida Jones
Gênero: Comédia
Duração: 100 min

Crítica | Slender Man: Pesadelo Sem Rosto – Assusta de Tão Ruim Que é

Cada vez mais os filmes de terror tentam inovar nos sustos, seja colocando os personagens em um ambiente inóspito e isolado ou fazendo com que algo apareça pelas costas para pregar o famoso susto surpresa, ou então inserindo uma trama que tenta se sustentar em cima do vilão. Tudo isso e mais um pouco é encontrado em Slender Man – Pesadelo Sem Rosto, e tudo apresentado de forma exagerada e bizarra que o faz ser um dos piores filmes de terror dos últimos anos. 

O principal problema foi a criação da atmosfera de terror que envolve todo o vilão e as protagonistas. O diretor (Sylvain White) cria um clima sombrio, sem tensão nem suspense, e quando tenta nos fazer acreditar que nada vai acontecer dando um ar de normalidade ela é quebrada com a música, aí fica fácil saber que virá algum susto de algum lugar. Na floresta que é o habitat natural de Slender Man é o lugar que poderia rolar algo de diferente, mas ele cai na mesmice de outras produções como A Morte do Demônio ou a Bruxa de Blair com correria e mais correria sem rumo pela floresta e sem saber ao certo qual rumo tomar.

Há uma necessidade exagerada em querer assustar, mesmo que não haja motivo algum para isso acontecer, ou tentam criar um suspense com a música (que é a única coisa assustadora no filme) ou com jogadas rápidas de câmera ou as levando ao que se parece ser a provável loucura que a entidade cria na cabeça das garotas. Essa obrigatoriedade em ter que assustar atrapalha bastante o andamento da história, pois ela é deixada de lado como algo secundário só para se focar em jeitos múltiplos de assustar o telespectador. 

O principal atrativo da trama é obviamente Slender Man e até nisso erraram. Todos já sabem quem é o vilão, ele aparece no marketing e sua imagem é bastante disseminada pela internet. Em produções do gênero de terror é comum se esconder quem é o ser que atormenta famílias ou grupo de adolescentes, só que aqui há um exagero. Escondem tanto que quando ele aparece há uma desilusão, pois ele não é nem assustador, nem apavorante. Sempre que surgia não fazia nada, e quando fazia não era mostrado, um corte e ia para outra cena, nem se quer pensaram em o mostrar agindo na outra dimensão (lugar onde possivelmente reside), diferente do que ocorreu na série Stranger Things ou no filme Sobrenatural, a diferença é que nessas duas produções a ambientação de onde estaria escondida a entidade ou monstro foi bem construída e não jogada como acontece aqui. É um vilão diferente que tinha tudo para ser diferente e assustador, mas ficou sem graça e em alguns momentos ridículo. 

O uso da trilha sonora é a única coisa angustiante e que nos lembra que estamos em uma produção de terror, é uma trilha que ajuda a dar os sustos que funcionam, mas depois de um tempo ela se torna parte do filme e você esquece dela, há também um uso desnecessário para a trilha, há cenas em que ela não é necessária, mas mesmo assim está lá fazendo parte como se fosse um objeto de cena. Já o uso dos jump scares são excessivos e nada surpreendentes, funcionam de início, mas depois devido a muita repetição da prática se torna monótona e vergonhosa. 

O roteiro se equívoca em contar a origem do ser que dá nome a produção. Como se sabe, Slender Man tem origem em um meme feito pela internet e essa origem chega a ser pelo menos usada rapidamente no filme como fato determinante para disseminá-lo como um vírus para todos que o assistem. Só que o roteiro nos leva a vários significados de quem é Slender Man, de onde vem e o que faz com as pessoas que o convocam, só que dão tantas alternativas sobre essas curiosidades que em algum momento tudo se torna confuso demais. Vai pela linha de que Slender se prende nas memórias para atormentar as pessoas, de que ele é uma entidade gerada de eletricidade, ou que seria algo vindo do sobrenatural. Misturam ocultismo, demônios e sobrenatural. Várias questões e temas que são levantados, mas que claramente foram jogados ali para dar maior corpo para a história e tentar a tornar mais atrativa, algo difícil de acontecer com tantos fatos sendo evidenciados e nada trabalhados. 

Do elenco Joey King (A Barraca do Beijo) e Annalise Basso (Capitão Fantástico) são as mais conhecidas, mas a única que se salva é Annalise Basso, só que sua personagem é mal aproveitada e nada desenvolvida, assim como todo o resto do elenco. Todos personagens poderiam ser mais interessantes do que realmente são. Havia espaço para crescerem mais, mostrar seus dramas particulares, seus medos, mas fica tudo muito superficial e mal explorado. Algo que o remake de It conseguiu fazer com maestria ao abordar a vida de cada um dos personagens. Em Slender Man parece que só pensaram mesmo em mostrar que algo está atrás delas e que elas estão em perigo, uma atitude errada do roteiro, já que as garotas têm papel importante para a trama. 

Se há algo elogiável na direção são alguns enquadramentos feitos quando Slender Man aparece de sopetão e no jeito que trabalha (em alguns momentos) a loucura das protagonistas. Algo que funciona e está na dose certa, sem exagerar e sem ficar repetindo a todo instante. Sylvain White poderia ter usado esses flashs de ousadia em outros aspectos da narrativa e sair da mesmice e da obviedade que a história se encontrava. 

Um roteiro como o de Slender Man mostra que as vezes ter um vilão forte e assustador não é o suficiente para segurar uma trama. Há vários equívocos que fazem com que o telespectador deixe de se impressionar com o que está vendo, com o tempo tudo vai ficando chato e cansativo. Há um aprendizado em tudo isso que é o de que não adianta criar uma ambientação bacana, sem a inserir decentemente na história e não criar uma relação decente entre as protagonistas e o local em que serão inseridas. Invocação do Mal é um exemplo disso, a atmosfera criada em torno da casa é feita aos poucos com elementos simples que vão perturbando o telespectador. Em Slender Man nada funciona, pois o roteiro é frágil em fazer até o simples que é o de fazer com que a história seja interessante a ponto de prender a atenção de quem assiste.

Slender Man: Pesadelo Sem Rosto (Slender Man, EUA – 2018)

Direção: Sylvain White
Roteiro: David Birke, Victor Surge
Elenco: Joey King, Julia Goldani Telles, Jaz Sinclair, Annalise Basso, Alex Fitzalan
Gênero: Horror, Mistério, Thriller
Duração: 90 min.

Crítica | A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata – O Clube do Livro mais Irreverente de Todos

É impressionante a fascinação de storytellers pelo antigo. Histórias ambientadas no polêmico cenário bélico da primeira metade do século XX não apenas conseguem abrir margens para as mais encantadoras tramas envolvendo heróis e heroínas, paixões proibidas e sequências de ação de tirar o fôlego, mas também mostram o número de diferentes perspectivas a serem tratadas em relação àquela época. É claro que algumas produções acabam caindo nas generalizações de sempre, como O Zoológico de Varsóvia ou A Menina que Roubava Livros; outros inclinam-se para a comédia satírica proposital, como Caçadores de Obras-Primas; e também há aqueles feitos para chocar e misturar ficção com realidade de formas lúdicas e intensas – e aqui não posso deixar de citar Império do Sol e A Lista de Schindler.

Mas e quando tenta-se unir múltiplas vertentes narrativas em um único cosmos? É muito fácil também cair nas saídas formulaicas quando se cria um mundo próprio, ambientado numa ilha outrora paradisíaca até a chegada do inimigo – no entanto, A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata propõe sair da caixinha ao trazer um elenco interessante, uma trama que fuja de qualquer coisa que já tenhamos visto e algumas viradas surpreendentes, ainda que com falhas evidentes. De qualquer forma, após inúmeros fracassos entregues pela Netflix nos últimos meses, os quais nos levaram a duvidar do monopólio criativo exercido pela plataforma de streaming, assistir a uma obra desse gênero é refrescante e apaziguador: algo que serve tanto para os apaixonados por comida, por eventos históricos e por romances ao melhor estilo Romeu e Julieta.

Lily James parece ter mergulhado em uma boa fase de sua vida, fazendo escolhas aceitáveis que a colocaram em voga: com Cinderela vindo três anos atrás e com a estreia da sequência de Mamma Mia!, a atriz provou sua versatilidade e resolveu abraçar um personagem um tanto quanto confortável, no qual conseguiria criar uma química interessante ao lado de seus colegas e mostrar mais uma vez certas habilidades cênicas. E é justamente por isso que o papel da escritora Juliet Ashton, cuja consternação com o período que sucedeu a II Guerra a impede de se sentir satisfeita com a publicação de seus romances – e é claro que o fato de sua primeira obra não ter sido um sucesso também contribui para a melancolia. Mesmo assim, ela tenta se encontrar em meio ao luxo londrino, tendo como parceiro o futuro noivo Mark (Glen Powell).

Eventualmente – claro, funcionando como o compulsório deus ex machina de um romance como esse -, Juliet passa a se corresponder com Dawsey Adams (Michiel Huisman), que por ventura encontra um dos exemplares da coleção da autora em uma das únicas livrarias restantes na Ilha de Guernsey e pede para que ela encontre outros volumes “raros”, por assim dizer. E, como podemos imaginar, ela se encanta pelo redator misterioso e pelo hilário clube do livro que fundam no impulso de se esconderem da ocupação germânica em sua casa – nome emprestado ao título da obra. Logo, a romancista resolveu viajar para Guernsey em uma visita surpresa ao grupo, conhecendo alguns dos personagens mais adoráveis que já vi.

Como dito, o longa carrega consigo erros bem visíveis: o primeiro ato, ainda que compreensível de ser mais monótono por querer contrastar o antes e o depois dos efeitos da guerra, move-se em um vagaroso início de coming-of-age que pode ou não envolver os espectadores. É mais provável que o público sinta afabilidade pela presença carismática de James e por seu apaixonante sotaque britânico que pela história em si – afinal, as coisas só ganham uma guinada considerável quando Juliet chega à famigerada ilha. Na verdade, a atmosfera começa realmente a ganhar forma e a mudar quando a primeira carta chega ao seu pequeno apartamento e o som da máquina de escrever volta a encher os corredores.

Mais que um romance, Sociedade Literária é uma crítica aos governos nazifascistas, mesmo mascarada. A resistência representadas pelas figuras de Isola (Katherine Parkinson) e Eben Ramsey (Tom Courtenay) reflete os traumas daquele período, mas nenhum deles chega aos pés da representatividade catártica de Elizabeth McKenna (Jessica Brown Findlay). Ela ousou quebrar os padrões da época e enxergar a bondade até mesmo nos tachados de inimigos, envolvendo-se com um dos soldados do exército alemão e provando que nem todos estavam ali por seguirem a mesma ideologia; conforme a narrativa se segue, abrindo margens para um paralelismo interessante que não é tratado com a importância merecida, Juliet embarca em um mistério muito maior do que esperava, cavando fundo nos eventos de Guernsey e compreendendo que o mundo que pensava existir na verdade tem cicatrizes dolorosas.

Mike Newell faz um trabalho interessante com a condução cênica, resgatando elementos de uma de suas obras anteriores mais famosas – Harry Potter e o Cálice de Fogo. Seja pela preferência de uma fotografia mais escura e expressiva ou pelos ângulos distorcidos – a presença dos planos holandeses é mais do que necessária nessa produção -, as marcas registradas de seu trabalho fílmico estão em todos os lugares e também conseguem fugir dos parâmetros esperados, ainda que falte um pouco de polimento em certas sequências. De qualquer forma, os enquadramentos mais fechados em diálogos de descoberta e amadurecimento refletem a intimidade entre os personagens e permite a criação de laços interpessoais.

Sociedade Literária é uma boa pedida para os amantes de histórias românticas e clássicas. Claro, não espere algo que chegue ao nível de Casablanca, mas há certas inclinações inegáveis e até mesmo modernizadas que entregam uma obra interessante e satisfatória.

A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata (The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society, Reino Unido – 2018)

Direção: Mike Newell
Roteiro: Don Ross, Kevin Hood, Thomas Bezucha, baseado no romance de Mary Ann Schaffer e Annie Barrows
Elenco: Lily James, Jessica Brown Findlay, Tom Courtenay, Michiel Huisman, Katherine Parkinson, Matthew Goode, Glen Powell
Gênero: Drama Histórico, Romance
Duração: 124 min.