Crítica | O Príncipe Dragão: 1ª Temporada – Voltando às Fantasias Clássicas

Recentemente, a Netflix vem investindo em um número considerável de animações, muitas delas de aprazível satisfação – bem acima da média em alguns casos. Nas últimas semanas, Matt Groening fechou contrato para entregar-se a mais uma de suas irreverências com (Des)Encanto, e dias depois uma homenagem ácida às ficções científicas ganhou seu espaço na forma de Final Space. Agora, a plataforma resolveu expandir ainda mais o conteúdo original voltado para um público infanto-juvenil, mas que também mantém relações com as nostálgicas produções que fizeram parte da geração millenial – incluindo os desenhos de emissoras como Nickelodeon e Cartoon Network.

O Príncipe Dragão, pelo próprio título, já emula inúmeras obras de fantasia das últimas décadas e séculos – e confesso que, antes de começar a assistir, pensei que a trama giraria em torno de um príncipe transformado na lendária criatura. Entretanto, Aaron Ehasz resolveu levar a série à conotação literal, iniciando o episódio piloto com um prólogo muito interessante: de acordo com a mitologia que criou, o mundo vivia em harmonia até que um humano corrompido pela ambição deu origem à Magia das Trevas levou as raças mágicas a banirem os homens para uma terra longínqua, separada por um rio escaldante de lava guardado por um temível dragão. Entretanto, o frágil acordo de paz acabou quando seu herdeiro, ainda dentro do ovo, foi aparentemente assassinado, marcando o início de uma guerra que ainda alcançaria proporções drásticas.

Logo nos primeiros minutos, é possível mergulhar num cosmos totalmente nostálgico e envolvente, o qual primeiro nos mostra as cartas do jogo, apresentando os cenários, os futuros embates e as questões políticas e sociais que envolvem cada um dos grupos. De um lado, temos os humanos, cujas províncias são lideradas pelo rei Harrow de Katolis (Luc Roderique), ciente da batalha que se aproxima e aconselhado pelo misterioso Viren (Jason Simpson), um mago que esconde muito mais do que aparenta. De outro, temos o avanço élfico comandado por Runaan (Jonathan Holmes), chefe do clã assassino que pretende vingar a morte do príncipe herdeiro. O roteiro e a direção combinam-se em essa fragmentação dupla que arquiteta uma atmosfera densa, complexa e, por vezes, aterrorizante por inúmeros motivos. É claro que, sendo esta a primeira temporada, os levantes catárticos ainda se contêm para melhor explicar ao público o que está acontecendo.

Seguindo uma lógica compreensível e que nem ao menos ousa tangenciar acontecimentos ocasionais, os dois mundos se cruzam nas figuras dos filhos do rei, Callum (Jack de Sena) e Ezran (Sasha Rojen), e na da jovem aprendiz elfa Rayla (Paula Burrows num sotaque escocês delicioso e inebriante). Ainda que o encontro não seja um dos melhores, seus objetivos em comum de cessar os conflitos e retornar o ovo (escondido em segredo durante todo esse tempo nas masmorras do castelo) dão força para o fortalecimento de laços de confiança e de uma amizade imprevisível. Basicamente, o time criativo vale-se muito do confronto de personalidades para fornecer ritmo e orquestrar cada um dos atos com a maestria necessária para nos satisfazer.

A ambiência nostálgica não é mera coincidência: Ehasz é responsável por uma das séries mais aclamadas da década passada – Avatar: A Lenda de Aang -, e é óbvio que usaria de vários elementos miméticos para compor sua mais nova aventura. Desde o prólogo até a concepção imagética mantêm paralelismos estruturais – por exemplo, a separação das raças e as vestimentas entre os clãs dos elementos em Avatar e em O Príncipe Dragão são praticamente as mesmas. Entretanto, aqui o showrunner vale-se de uma fórmula clássica e contínua em detrimento de acontecimentos episódicos, o que se afasta do revestimento antológico para uma progressão seriada. Não estou falando que uma opção é melhor que outra, mas sim que ambas funcionam em suas respectivas obras, ainda mais levando em conta que o intuito de cada uma é relativamente diferente.

A primeira temporada é bem mais dinâmica e profunda do que lhe damos crédito: o trio protagonista lida com inseguranças próprias, ilusões acerca de sua própria história, mentiras, descréditos e ilusões que podem ser tanto positivas quanto negativas para o fomento dos arcos. Tudo isso, ainda que peque um pouco em diálogos excessiva e desnecessariamente cômicos, é respaldado por sequências bem coreografadas de luta e de magia, contribuindo para a manutenção da atmosfera fantástica. Além disso, é notável o amadurecimento dos personagens principais à medida que se aproximam de seu destino – e como o mais otimista dos sentimentos não é páreo para o que está por vir. Tal premissa inclusive serve de cliffhanger para uma quase confirmada continuação que tem tudo para ser tão boa quanto ou melhor que a primeira iteração.

As técnicas de animação estranham à prima vista, visto que se aproximam muito de uma linguagem 2D dos videogames clássicos. Entretanto, é compreensível sua utilização para nos manter vidrados em um cosmos com traços de RPG e que permitem a conexão entre público e série. A fluidez, por muitas vezes, dá lugar a uma truncada delineação que, por mais bizarra que pareça, aumenta o clima nostálgico de modo inenarrável.

O Príncipe Dragão pode não ser perfeito, mas é certamente um produto audiovisual com gigantesco potencial. Ainda que satisfatório, penso duas vezes antes de falar que já vimos tudo o que a nova série teve a oferecer: a jornada de Rayla, Callum e Ezran acabou de começar, e diversos perigos ainda espreitam o caminho dos jovens heróis.

O Príncipe Dragão – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2018)

Criado por: Aaron Ehasz, Justin Richmond
Direção: Villads Spangsberg, Giancarlo Volpe, Meruan Salim
Roteiro: Aaron Ehasz, Justin Richmond, Devon Giehl, Iain Hendry
Elenco: Jack De Sena, Paula Burrows, Sasha Rojen, Racquel Belmonte, Jason Simpson, Jesse Inocalla, Jonathan Holmes, Luc Roderique, Adrian Petriw
Emissora: Netflix
Episódios: 09
Gênero: Animação, Fantasia, Aventura
Duração: 24 min. aprox.

Crítica | Maniac – Uma Ótima Minissérie da Netflix

A Netflix vem se tornando especialista em criar conteúdo diferenciado para seu público, sendo ele terror, ficção científica ou drama. Entre séries e filmes há muito conteúdo com qualidade duvidosa e há aqueles que se destacam pela trama bem trabalhada e pelo jeito que a narrativa é apresentada. Maniac é uma minissérie que entra na segunda hipótese e se diferencia do que tem sido lançado na tv, pois poucas séries ou minisséries têm ousado tanto no jeito de contar uma história quanto a série de Cary Fukunaga.

Maniac trata de diversos assuntos em seus dez episódios, muitos deles de modo superficial, pois não são o foco principal da trama e outros estão ali presentes em todos os episódios, mas são de difícil compreensão do público, já que nada do que acontece ou é apresentado em cada episódio nos é dado de bandeja. A cada palavra, cada diálogo é necessário refletir o que aquela frase está nos indicando e em alguns momentos é preciso decifrar as várias situações que estão sendo impostas e se elas fazem algum sentido.

O tema principal é a falta de conexão que existe em nosso tempo. Não apenas a falta de amor e empatia, mas também uma falta substancial de afeto. Vivemos sozinhos em uma sociedade em que tudo é artificial, não apenas a tecnologia, mas os prazeres e até mesmo o amor. A trama toda gira em torno dos protagonistas Annie Landsberg (Emma Stone) e Owen Milgrim (Jonah Hill), ambos com problemas relacionados a sentimentos que não conseguem entender ou decifrar. Owen tem claramente um problema com sua família e tem um histórico de psicose, seu principal amigo é imaginário, enquanto Annie tem um trauma pesado envolvendo sua irmã e é viciada em um remédio experimental que usa com frequência para esquecer o passado. São traumas sociais com raízes profundas e que com o tempo deixam os protagonistas com cada vez mais transtornos.

Os dois personagens são muito bem desenvolvidos durante a minissérie, e a partir do momento que passam a participar do experimento vamos compreendendo melhor o porquê de Annie querer entrar nele, mesmo aparentemente não tendo nenhum problema mental e o porquê de Owen acreditar que esteja ficando louco, a pontode achar que esteja vendo coisas, já que acredita ter visto Annie alguma vez em sua vida mesmo sem a conhecer.

E este é o principal tema da minissérie muito bem trabalhado por Fukunaga que é o destino. Ao colocar o personagem de Jonah Hill no caminho de Annie e fazer com que se esbarrarem no laboratório faz com que nos mostre o que realmente a série tem a nos contar. Seria como se esse encontro, mesmo que por acaso, já estivesse pré-disposto a acontecer, seria como se estivesse escrito nas estrelas. No próprio experimento em que suas mentes parecem interagir uma com a outra há um momento que não se sabe se aquilo que estão vivendo é real ou imaginário. Annie e Owen acabam se encontrando em várias realidades distintas e em várias situações, como o momento em que ela é uma elfa e ele uma águia, ambos sempre interligados por um objetivo particular. A união dos dois em realidades diferentes e aparentemente sem conexão lembra o filme A Viagem das irmãs Wachowski em que em várias vidas os personagens se encontram e sempre se conectam de alguma forma.

O experimento é peça chave para a história da minissérie, já que ele faz tudo acontecer e leva a mente dos protagonistas ao encontro entre os dois. É um experimento complicado de entender de início. Dividido por fases tem como objetivo encontrar os principais medos e traumas em cada um e fazer com que a pessoa estudada passe essa fase adiante e encontre a felicidade. E o grande responsável por monitorar e fazer com que as pessoas viajem é um super computador com memória artificial. Não fica claro se o experimento leva as pessoas a sonharem com algo que elas queiram que aconteça ou seria um mundo criado pelo computador para que desse a eles uma oportunidade de vivenciar seus traumas e os superarem. E isso não tem importância, pois a idéia é mostrar que há sim como passar por essas fases que podem levar a depressão.

Por se tratar de uma minissérie com o nome de Maniac é muito provável que tenha um vilão ou uma vilã e isso realmente acontece, mas não do jeito que se imagina. O computador usa uma memória de uma mulher que é a mãe de um dos cientistas criadores do projeto e isso leva a máquina a ter quase que vida própria manipulando – muito que provavelmente – um encontro entre os pacientes mentalmente e o computador tenta a todo o custo fazer com que Annie se junte a máquina e fique em uma área da memória em que a alma da pessoa fica presa para sempre. É uma vilã que lembra e muito o computador HAL 9000 de 2001 Uma Odisseia no Espaço, até mesmo o jeito com que o computador fala quando está prestes a ser derrotado lembra a versão de Stanley Kubrick, usando um tom de voz humano e sensível.

O computador de Maniac não é maldoso ao mesmo nível de Hal nem perverso como a androide de Ex-Machina. Ela tem sentimentos por ter herdado a memória de uma mulher real e mãe do cientista e isso faz com que o computador sinta as mesmas emoções que vão desde alegria a um vazio existencial. A máquina começa com o tempo a se comportar como um Deus, achando que pode tomar todas as decisões sem consultar ninguém. 

Todos os personagens são intrigantes, carregando algum segredo profundo e tendo relações pessoais complicadas. O foco está quase que inteiramente nos personagens de Jonah Hill e Emma Stone, que são muito bem desenvolvidos. Nas várias fases do projeto vamos acompanhando a evolução de ambos, saindo de um período inicial de solidão para uma futura conexão entre ambos e uma superação de seus traumas pessoais. 

Emma Stone está ótima em seu papel, fazendo uma protagonista viciada em remédios e com problemas de relação com o pai, uma protagonista que até então não havia feito em sua carreira.  A surpresa fica a cargo de Jonah Hill, conhecido por fazer comédias escrachadas já havia feito um papel sério em O Homem que Mudou o Jogo, mas até então nada que fosse parecido com o que se vê em Maniac. Um homem sem alegria e mentalmente doente e sem amigos. Fukunaga dá um jeito de aproveitar o lado cômico do ator fazendo um episódio engraçadíssimo em que Jonah é um congressista islandês.

No elenco, além dos protagonistas Annie e Owen, há dois outros dois personagens igualmente interessantes que ajudam a compor a produção e acabam por roubarem a cena, o caricato e excêntrico Dr. James K. Mantleray interpretado por Justin Theroux (A Garota do Trem) e Dra. Fujita interpretada belamente por Sonoya Mizuno (Ex-Machina). Dr. James K.  é tão estranho que se torna engraçado, também tem um trauma envolvendo sua mãe e precisa superar essa fase da sua vida enquanto luta para desligar a máquina que ele criou e se rebelou contra seu experimento. Já a Dra. Fujita poderia ter sido melhor aproveita, é uma personagem intrigante, mas que não foi tão em desenvolvida assim.

Todos os dez episódios foram dirigidos por Cary Fukunaga (True Detective) e é um dos trabalhos mais relevantes e maduros de sua carreira, pois consegue criar um ambiente de estranheza difícil de ser criado e trabalha muito bem uma narrativa de difícil compreensão sem deixar furos. Outro elogio a ser feito está no jeito que flutua facilmente entre os gêneros indo do drama à fantasia sem perder a mão.

Maniac (Maniac, EUA – 2018)

Criado por: Patrick Somerville
Direção: Cary Joji Fukunaga
Roteiro: Cary Joji Fukunaga, Amelia Gray, Patrick Somerville, Ole Marius Araldsen, Danielle Henderson, Kjetil Indregard, Mauricio Katz, Espen Petrus Andersen Lervaag, Håkon Bast Mossige, Caroline Williams, Sam L. Roberts
Elenco: Jonah Hill, Emma Stone, Sonoya Mizuno, Billy Magnussen, Aaralyn Anderson, Rome Kanda
Emissora: Netflix
Episódios: 10
Gênero: Comédia, Drama, Sci-Fi
Duração: 45 min. aprox.

Crítica | Final Space: 1ª Temporada – A Escuridão do Espaço

Recentemente, a Netflix vem investindo em diversos produtos de comédia e de ficção científica. Apenas nos últimos meses, a plataforma foi responsável por viralizar o ótimo remake de Star Trek: Discovery, além de trazer o thriller psicológico Aniquilação para o gosto do público. É claro que, dentre as ótimas obras que teve a oferecer, alguns falharam miseravelmente em cumprirem com o propósito – como por exemplo Insatiable, que conseguiu resgatar de forma humilhante inúmeros estereótipos já descartados da indústria do entretenimento -, mas outras abriram margens para uma vertente ainda não tão explorada pelo serviço de streaming: as animações. E foi partindo de uma concepção de fusão entre esse gênero e o sci-fi que Final Space, em colaboração com a TBS, surgiu.

A princípio, é quase impossível delinear qualquer traço narrativo que faça sentido: a cena de abertura da temporada traz um astronauta vagando perdidamente pelo espaço, com apenas dez minutos restantes de oxigênio, já entregue ao seu fatal destino e tendo como única companhia a inteligência artificial de sua antiga nave, a Galaxy One. Momentos depois, somos transportados para um passado não tão distante no qual as coisas passam a ter uma estruturação mais compreensível: o astronauta, na verdade, se chama Gary Goodspeed (Olan Rogers) e cumpre pena como único tripulante da espaçonave em companhia de robôs. A cada dia, ele parece tentar se comunicar com uma espécie de amor perdido, mandando-lhe mensagens em vídeo sem qualquer resposta, mas que mantêm sua sanidade intacta. Ele é vigiado constantemente pelo computador de bordo HUE (Tom Kenny) e pelo irritante auxiliar KVN (Fred Armisen), os quais ama odiar.

Já no episódio piloto percebemos a total irreverência construída por Rogers e David Sacks, ambos showrunners. Assim como recentes seriados da própria plataforma, a história não é para crianças e busca uma rebeldia transgressora que mantém paralelismos com Rick and Morty e BoJack Horseman, trazendo certas críticas interessantes, mas que infelizmente se perdem ao longo do excesso de fantasia e impossibilidades. No geral, lidamos com uma jornada do herói que emula certos aspectos de famosas franquias de ficção científica (Star Wars, por exemplo) e que não se preocupa com entregar-se a uma carga dramática catártica. Gary personifica um jovem galã afundado nas próprias metáforas vencidas e que carrega, ao mesmo tempo, uma necessidade de se provar útil para alguma coisa – afinal, seu coração ainda é puro e ele sempre se coloca na frente de todos, ainda que desajeitado.

Tudo muda de perspectiva quando uma pequena criatura apelidada de Mooncake aparece na Galaxy e traz consigo uma horda de guerreiros malignos que tenta a todo custo sequestra-lo. Entretanto, os tripulantes conseguem vencê-los e mantém o gato humanoide Avocato (Coty Galloway) como refém, tentando arrancar algumas informações. Em meados da primeira parte, o antagonista se transforma em um aliado inesperado, revelando sua verdadeira história e convencendo o nosso herói a ajudá-lo a combater um inimigo muito mais poderoso para resgatar seu filho, Gatito (Steven Yeun). A partir disso, o time de roteiristas passa a fazer escolhas um tanto quanto interessantes para dar continuidade à trama principal e aumentar a complexidade dos arcos apresentados; entretanto, os eventos se desenrolam quase subjugados ao pano de fundo e não abrem brechas.

Em se tratando de uma série de comédia, narrativas secundárias são importantes para a criação de um ritmo envolvente e frenético, impedindo que o público caia nas ruínas da monotonia. Em grande parte da temporada isso acontece, apesar de alguns deslizes que quebram uma estrutura sólida e nos desligam do universo ao qual somos apresentados. De qualquer modo, os irônicos e propositalmente autoexplicativos diálogos, combinado à química do elenco, conseguem varrer os claros equívocos para debaixo do tapete – e aqui abro um parênteses para uma performance incrível, ainda que um pouco over-the-top, de David Tennant como Lorde Commander, o principal obstáculo a ser enfrentado pelos protagonistas. Além da incrível versatilidade cênica, que compõe cliffhangers angustiantes, os clímaces e viradas são muito bem pontuados e chocantes, e brincam com todas as ideias já exploradas pelo gênero, desde as viagens no tempo até as fendas cósmicas.

E é claro que o enlace romântico não poderia deixar de existir, e aqui ele insurge na figura da guerreira-cientista Quinn (Tika Sumpter), que parece brotar do nada, mas mantém relações inesperadas com Gary e até mesmo com sua família. Ela é a representação do arquétipo da inteligência e da proteção, que eventualmente entrega a própria vida por uma causa maior e representa um sacrifício não premeditado para a conclusão do arco do herói – o qual, com grande surpresa, não encontra seu fim, mas um gancho assustador para uma futura temporada.

A animação não ousa mais do que deve e mistura elementos do 2D e do 3D, oscilando entre originalidade e nostalgia, reforçando laços dialógicos com obras clássicas e inclinando-se para a contemporaneidade e o futuro. Mesmo não explorando todo o potencial, a fluidez funciona, principalmente àqueles que procuram uma boa e divertida aventura que entrega o que quer. Os momentos introspectivos se afastam do melodrama desnecessário e preparam terreno para incríveis cenas de ação que satisfazem até os mais céticos espectadores.

Final Space pode não ser a melhor das séries, mas definitivamente cumpre o seu papel e não força algo além do que pode entregar. Sua premissa é simples, divertido, não se escorando em tramas pretensiosas e, ao mesmo tempo, conseguindo flutuar entre momentos trágicos, hilários, emocionantes e de tirar o fôlego. Uma sequência é mais que aguardada – e muito bem-vinda, ainda mais para fechar algumas pontas que ficaram soltas e nos deixaram bastante angustiados.

Final Space – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2018)

Criado por: Olan Rogers, David Sacks
Direção: Mike Roberts, Ben Bjelajac, Chris Paluszek, Dan O’Connor
Roteiro: Olan Rogers, David Sacks, Jane Becker, Alyssa Lane, Alex J. Sherman, Christopher Amick, Ben Mekler, Adam Stein, Kelly Lynne D’Angelo, Nick Watson, Cameron Squires
Elenco: Olan Rogers, Fred Armisen, Tom Kenny, David Tennant, Tika Sumpter, Steven Yeun, Ron Perlman, Coty Galloway
Emissora: Netflix/TBS
Episódios: 10
Gênero: Animação, Sci-Fi, Comédia
Duração: 22 min. aprox.

Crítica | The Flash: 1ª Temporada – As alegrias de uma boa série de super-heróis

Com Arrow se popularizando rapidamente após duas temporadas de sucesso, a CW começava a investir em uma ideia ousada. A Marvel Studios havia reunido os Vingadores nos cinemas, enquanto a DC ainda apenas sonhava com a ideia de ter seu próprio universo compartilhado da Liga da Justiça nas telonas, ainda terminando a trilogia Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan. Mas a CW prometia ir mais longe, alcançando seu próprio evento épico em sua segunda grande série baseada em propriedades da DC: The Flash.

Um herói muito mais popular e renomado do que o Arqueiro Verde, que foi bem modificado para servir à versão de Stephen Amell dois anos antes, retratar o Velocista Escarlate na televisão é uma tarefa difícil. Não só pela iconografia do personagem, mas também por sua complexidade narrativa – que começa a envolver conceitos cabeludos de ciência e física – mas também pelo trabalho com efeitos visuais, que há alguns anos ainda eram muito precoces. Felizmente, o resultado é surpreendente.

Desenvolvida por Greg Berlanti, a primeira temporada da série é bem fiel à base do personagem nos quadrinhos da DC. Conhecemos Barry Allen (Grant Gustin, que já havia feito uma ponta em Arrow), um legista da polícia científica de Central City. Ao passo em que tenta provar a inocência de seu pai, injustamente preso após a morte misteriosa de sua mãe quando ainda era uma criança, Barry lida com os sentimentos pela amiga Iris West (Candice Patton) e também a dinâmica com seu pai adotivo, Joe (Jesse L. Martin). Quando Barry é atingido por um raio após uma explosão no acelerador de partículas dos Labortatórios S.T.A.R., Barry ganha a habilidade correr a velocidades que desafiam os limites da ciência, tornando-se o Flash.

Meta-Humanos e viagem no tempo

Eu não sou um grande conhecedor dos quadrinhos do Flash, mas é possível notar que os produtores da série certamente têm respeito e admiração por suas origens. Ao longo dos 23 episódios da temporada, há inúmeras referências, participações e até eventos que eu tenho certeza que deixaram os fãs mais calorosos empolgados – personagens que eu só havia ouvido falar, como o Gorila Grodd, me agradaram de um ponto de vista novato, então apenas imagino como deve ter sido a reação de um veterano. Ainda que um piloto de série de TV sempre precise lidar com o problema da pressa – a pressa em contar origem, de apresentar poderes e introduzir uniformes –  o diretor David Nutter faz um ótimo trabalho em introduzir Barry Allen e a dinâmica de seu grupo na S.T.A.R.

Claro, sendo uma série de emissora aberta, The Flash não consegue fugir da batida estrutura do caso da semana. A desculpa é um tanto forçada, mas acaba funcionando, já que os personagens revelam que a explosão do acelerador de partículas não afetou apenas Barry, mas também criou diversos meta-humanos (pessoas com habilidades diferentes) ao redor da cidade, e a cada novo episódio temos um oponente distinto para vermos Flash enfrentar. É algo que inevitavelmente cansa e acaba rendendo os infames episódios filler (no caso dessa temporada, envolve um péssimo capítulo onde encontramos uma “mulher-abelha”), mas que ajuda a desenvolver os poderes do protagonistas.

Mas quando The Flash supera esses problemas, revela ali uma série verdadeiramente especial. Logo no final do primeiro episódio os roteiristas introduzem a ideia de que algum tipo de viagem no tempo está acontecendo, já que o misterioso Harrison Wells acessa um jornal holográfico do futuro que relata o desaparecimento do Flash. A forma como todo o plano de Wells, e o eventual antagonista Flash Reverso se revelam é instigante e reminiscente de algumas das melhores histórias de viagem do tempo que o gênero já viu; desde De Volta para o Futuro até Jornada nas Estrelas – no sentido de que, ao vermos uma ação inexplicável, temos a resposta alguns episódios depois, por termos a realização de que algum tipo de viagem no tempo era sua justificativa.

Elenco vencedor

Como toda boa série, o grande charme sempre estará em seus personagens. Na época famoso pela série Glee, Grant Gustin é uma explosão de carisma na pele de Barry Allen. O ator incorpora toda a confusão e bom-humor do personagem, além de trazer uma presença canastra muito bem-vinda quando coloca o uniforme vermelho, sempre oferecendo piadinhas e trocadilhos divertidos. De forma similar, o Cisco de Carlos Valdes é um excelente alívio cômico, mesmo que suas falas sejam resumidas a oferecer referências pop sem parar (algo que não reclamo, sendo sincero) e a adorável Caitlin de Danielle Panabaker oferece um bom balanço de preocupação e bússola moral. Fechando o arco dos laboratórios S.T.A.R., Tom Cavanagh é simplesmente fantástico como Wells, principalmente na forma como mantém a seriedade e inteligência do cientista e o equilibra com o lado misterioso e vilanesco que sempre vai se manifestando em setores finais de cada episódio.

O elenco coadjuvante também ganha muito com o núcleo West. A Iris West de Candice Patton é carismática e adorável, também oferecendo uma química muito particular com Barry, já que os dois cresceram juntos desde crianças. É um tipo de romance clichê e que você já viu diversas vezes, mas que funciona graças ao bom entrosamento do casal. E, claro, Jesse L. Martin como Joe West é uma presença que garante conforto e segurança a todos os personagens. Confesso que, ao ver a relação semi-paterna entre Joe e Barry, é muito fácil ficar comovido e investido na dinâmica da dupla.

E apesar de ter uma participação pequena, de apenas alguns episódios, é criminoso não falar sobre The Flash e não comentar a performance de Wentworth Miller como o vilão Capitão Frio. É um tipo de atuação onde vemos o ator literalmente mastigar o cenário e se divertir como se não houvesse fim, com o ex-astro de Prison Break assumindo uma canastrice deliciosa, e que praticamente transforma um personagem de quinta categoria a uma presença magnética. Não é à toa que o vilão lentamente vai sendo convertido em anti-herói, dada sua popularidade. Aproveitando a deixa, fica a menção honrosa para a divertidíssima participação de Mark Hamill, que praticamente interpreta o Coringa ao dar vida (novamente) ao vilão Trapaceiro.

Um universo em expansão

Ao longo de sua extensa primeira temporada, The Flash não tem medo de abraçar o cartunesco e oferecer narrativas verdadeiramente episódicas e dignas dos quadrinhos. Traz um ótimo elenco que nos faz querer passar todo o tempo do mundo acompanhando aventuras, e se revela algo realmente impressionante quando aposta pesado em seus conceitos de ficção científica. Um grande acerto, e uma das melhores adaptações de super-heróis para a TV dos últimos tempos.

The Flash: 1ª Temporada (EUA, 2014)

Criado por: Greg Berlanti, Geoff Johns, Andrew Kreisberg, baseado nos personagens da DC
Elenco: Grant Gustin, Candice Patton, Danielle Panabaker, Carlos Valdes, Tom Cavanagh, Jesse L. Martin, John Wesley Shipp, Wentworth Miller, Mark Hamill, Michelle Harrison
Emissora: CW
Episódios: 23
Gênero: Aventura
Duração: 40 min

Crítica | Great News: 1ª Temporada – Quando o Breakdown é Real

Tina Fey e Robert Carlock parecem ser o time dos sonhos: o duo é responsável por algumas das melhores comédias da televisão contemporânea e já faturou inúmeros prêmios por seus incríveis trabalhos seriados. Fey, por um lado, é responsável pela releitura às telonas de Meninas Malvadas, um dos mais memoráveis filmes teen do século, enquanto a colaboração com seu conterrâneo se iniciou em 30 Rock, alcançando um ápice com a aclamada Unbreakable Kimmy Schmidt e agora mergulhando em uma investida inusitada – o que já é de praxe. E o resultado pode não ser o melhor de suas carreiras, mas definitivamente não deixa a desejar em nenhum momento, ainda mais pela irreverência narrativa.

Em Great News, série que tinha tudo para cair no esquecimento e foi recuperada pelo poder incomparável de disseminação da Netflix, a trama principal gira em torno de uma família disfuncional formada pela exagerada e melancólica Katie (Briga Heelan) e sua mãe, Carol (Andrea Martin). Após uma sessão epifânica numa igreja, Katie percebe que deve seguir seus sonhos e lutar para ganhar reconhecimento na emissora de televisão MMC, localizada em Nova Jersey. Entretanto, ela não é a única a encarnar tal revelação, e a própria mãe resolve voltar para a faculdade de jornalismo e contar à sua filha que, para conseguir crédito extra, precisa de um estágio – e é justamente por isso que resolveu tentar a vaga no mesmo lugar em que trabalha!

Já no início do episódio piloto, o modo como a história se desenrola segue padrões inesperados e consegue fugir dos convencionalismos do gênero. A dramédia à qual somos apresentados parece focar apenas em Katie, uma mulher de trinta anos que tenta se desvencilhar das ações superprotetoras de sua família ao mesmo tempo em que não consegue negar seu amor por ela. Entretanto, Carol, quebrando também as fórmulas para seu tipo de personagem, insurge como outro foco principal que ajuda a criar as mais divertidas e impossíveis subtramas. E é a partir disso que Fey e Carlock, atuando como produtores executivos, criam uma mágica rítmica às telinhas que transforma a obra criada por Tracy Wigfield numa divertida jornada do começo ao fim – e detalhe: Wigfield já vem com uma carga cômica considerável, visto que auxiliou a dupla em séries predecessoras.

É claro que, considerando o time artístico por trás da iteração, as coisas nunca seriam tão simples quanto aparentam: eventualmente, Great News funciona como uma crítica às corporações jornalísticas e faz inúmeras referências para obras audiovisuais dramáticas e de cunho político. Aqui, esse pano de fundo ganha um revestimento ácido que não se preocupa em rechear com ironias alguns diálogos propositalmente fúteis ao mesmo tempo que desmente estereótipos de gênero – a personagem de Portia (Nicole Richie), por exemplo, é a típica bombshell loira que vem com as ideias mais idiotas devido a uma modelagem de seus chefes, mas que na verdade tem uma profundidade deliciosamente envolvente. John Michael Higgins, dando vida ao âncora Chuck Pierce ao lado de Portia, mostra-se forte e independente durante a primeira metade da temporada, até sofrer uma bruta desconstrução que não o torna superior a ninguém.

Todos ali trabalharam para o funcionamento do programa The Breakdown (uma referência nem um pouco sutil ao momento em que explodimos e queremos desistir de tudo): a dupla supracitada não consegue se entender e vive entrando em conflitos de ego hilários, arquitetando as mais absurdas mentiras para se mostrarem melhores que os outros, enquanto a equipe do backstage também passa por seus próprio problemas. Katie tenta ganhar reconhecimento em meio à polidez excessiva de seu chefe, Greg (Adam Campbell), o qual também lida com o fato – que nos é revelado apenas nos episódios finais – de ser neto da magnata da comunicação que controla todo o canal e mostra ser uma das figuras mais perversas da série (além de ser interpretada pela aplaudível Christina Pickles).

E é claro que, em se tratando de uma comédia, não apenas o roteiro mostra-se quase impecável – com alguns erros estruturais clássicos, mas nada que não seja ofuscado pelo brilho de seu elenco -, como também a construção cênica. As técnicas fílmicas mergulham em uma convergência de inúmeras outras investidas, incluindo a estética excessivamente documental de Veep, misturado ao hibridismo de The Office e até mesmo algumas inclinações mais escondidas a The Newsroom. As referências aos clássicos cinematográficos, ao contrário do que podemos imaginar, aparecem da forma mais distorcida e explícita possível – e diferente de outras iterações que não sabem como tratar uma mimésis desse tipo, ela funciona em grande parte da história e serve como respaldo de complexidade para a ambiência criada e para os personagens.

Não podemos deixar de citar a incrível química de praticamente todo o elenco: Martin retorna com uma força inenarrável após sua temporada de sucesso na Broadway com Pippin, entregando-se de corpo e alma a uma das personagens mais deliciosas dos últimos anos. As relações que mantém com as outras personas se inserem numa montanha-russa de sentimentos que em nenhum momento são forçadas; o público aceita de bom grado o que lhe é apresentado. Mas é ao lado de Heelan que a mágica ganha uma estrutura mais solidificada – nós não apenas compramos a ideia de serem da mãe e filha, como também melhores amigas, confidentes e colegas de trabalho que definitivamente têm muito a trazer para a vida uma da outra.

Great News é uma surpresa interessante e que poderia ter sua finalização em apenas essa breve narrativa de autoconhecimento e aceitação composta por dez episódios. É claro que, visto seu sucesso inesperado, uma segunda temporada já foi produzida e deve chegar à plataforma nos próximos meses – mas não tem problema: ainda há muito a ser explorado no The Breakdown, e só podemos esperar que as novas tramas sejam tão engraçadas e comedidas quanto as já mostradas.

Great News – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2017)

Criado por: Tracy Wigfield
Direção: Beth McCarthy-Miller, Claire Scanlon, Payman Benz, Victor Nelli Jr., Tristram Shapeero, Maggie Carey, Nisha Ganatra, Gail Mancuso, Jeff Richmond, John Riggi, Ken Whittingham
Roteiro: Tracy Wigfield, Ashley Wigfield, Dan Klein, Naomi Ekperigin, Ben Dougan, Sam Means, Hayes Davenport, Jack Burditt, Robert Carlock, Tina Fey
Elenco: Briga Heelan, Andrea Martin, Adam Campbell, Nicole Richie, Horatio Sanz, John Michael Higgins, Tommy Dewey, Sheaun McKinney
Emissora: Netflix/NBC
Episódios: 10
Gênero: Comédia
Duração: 22 min. aprox.

Crítica | (Des)Encanto: 1ª Temporada – Groening nos Tempos Medievais

Matt Groening é um dos maiores expoentes da televisão norte-americana contemporânea, responsável por trazer algumas das animações mais hilárias e distorcidas dos últimos anos, como Os Simpsons e Futurama. Tais obras são conhecidas por fugir dos convencionalismos narrativos e buscarem uma perspectiva crítica e ácida da sociedade, traduzindo em tramas absurdas os exageros humanos. Ainda que esta tenha funcionado de forma mais transigente, aquela permanece ainda no gosto popular – não é à toa que está chegando ao seu trigésimo ano. E foi partindo dessa premissa e com o advento de inúmeras plataformas de streaming que Groening encontrou espaço para sua próxima narrativa: (Des)Encanto.

Ambientada numa versão totalmente inesperada da Idade Média, a trama gira em torno de Dreamland, reino governado pelo irritadiço Zog (John DiMaggio), cuja filha, Tiabeanie “Bean” (Abbi Jacobson) mostra-se como um obstáculo em potencial para o exercício de todo seu pleno poder. Mas diferente do que podemos imaginar, o pano de fundo é sobre a garota, e não sobre o Rei: Bean está no ápice de sua adolescência e, levando em conta a época na qual a série se passa, suas irreverências insurgem na bebida compulsória, nos jogos de azar e nas escapadas românticas, colocando em xeque a integridade de sua família e de si mesma. Entretanto, logo com o primeiro episódio, percebemos que tudo isso é justificado pelo fato de seu casamento obrigatório como forma de manter a aliança entre territórios outrora inimigos.

Ao que tudo indica, estamos lidando com mais de uma histórias coming-of-age animadas com mensagens otimistas e aventuras mirabolantes. Todavia, em se tratando de uma construção de Groening, nada será o que aparenta; as críticas estão lá, nuas e cruas, como forma de chocar e traçar um paralelo com a loucura e a sandice da sociedade contemporânea. Há um espaço fértil, recheado de infinitas possibilidades que inclusive não precisam de valer de estereótipos, mas sim utilizá-los a seu favor para orquestrar o sarcasmo de modo completo e satisfatório. O problema principal: criar uma história com começo, meio e fim, algumas viradas interessantes e um cliffhanger digno para uma futura segunda temporada – e é justamente isso que o showrunner não consegue trazer para as telinhas.

Levando em conta a decorrência de eventos do piloto, é natural que nos sintamos em território estranho (afinal, precisamos nos acostumar à nova ambiência). Mas o que acontece quando essa singularidade, por assim dizer, permanece durante cada um dos dez episódios? É muito complicado para uma audiência acostumada ao ritmo frenético de Simpsons seguir as construções contemplativas desse show em questão, ainda mais um que não se vale de muitos acontecimentos ou extravagâncias para conseguir uma estrutura sólida. A priori, a narrativa parece querer nos levar em uma direção, cruzando o caminho de Bean com o demônio Luci (Eric André) e depois fundindo seu arco ao do elfo Elfo (Nat Faxon) – mas todo o potencial é desperdiçado sem dó, obrigando-os a permanece no mesmo território o tempo inteiro.

É quase frustrante observar como tais personagens, cuja interessante química seria melhor aproveitada em circunstâncias diferentes, são jogados em uma linearidade narrativa insuportável. Eles não têm nenhuma evolução aparente até os episódios finais, caem nos mesmos erros e mergulham em ciclos viciosos inquebrantáveis, afastando cada vez mais o espectador de qualquer possibilidade de conexão. A ideia aqui era, após Bean fugir de seu casamento, pegar seus novos amigos e sair para conhecer o mundo, colocando-os em uma clássica-porém-distorcida jornada do herói – e tudo abriria margens para as mais hilárias subtramas. Entretanto, o time de roteiristas não leva isso em conta e brinca dentro dos limites de uma zona de conforto entediante.

Nem mesmo a aparição de coadjuvantes ajuda a aumentar a complexidade: devendo servir como respaldo tragicômico, como por exemplo a Rainha Oona (Tress MacNeille) ou o conselheiro de três olhos Ovaldo (Maurice LaMarche), as investidas não tão recorrentes quanto os protagonistas fazem um trabalho inverso e refletem a estupidez de suas construções. Os poucos pontos de quebra de expectativa provêm da obviedade, afastando a série das tentativas de recuperar a glória das obras antecessoras. Eventualmente, os acontecimentos se mostram repetitivos, caindo nas mesmas alternativas de fechamento de arco que os outros capítulos.

Mesmo assim, não podemos negar alguns pontos fortes trazidos pelo show. Groening encontra um espaço propício para trabalhar um passado narrativo que mantém certo dialogismo com as outras séries animadas – afinal, ele já brincou com o presente e com o futuro. Em um cenário medieval, marcado pela magia e por criaturas fantásticas, a estética de um contingente considerável de personagens secundários e terciários foge dos padrões e busca uma humanização excessiva – temos, por exemplo, a intocável transcendência das fadas misturando-se aos vícios humanos (como o fumo e a bebedeira) de modo tão desconstruído que chega a ser propositalmente ofensivo e deturpado. Além disso, devo dizer que a irregularidade da primeira metade encontra seu caminho e um equilíbrio interessante até o season finale, arquitetando algumas viradas satisfatórias que já dão as cartas do próximo jogo.

(Des)Encanto é uma série desperdiçada e irregular que encontra sua identidade tarde demais para haver uma conexão profunda entre as mensagens que deseja entregar e a receptividade do público. E não há muito o que se possa dizer, apenas a ligeira sensação de desapontamento, justificada pelo fato de um grande nome da indústria não ousar mais do que julgava conseguir.

(Des)Encanto – 1ª Temporada ((Dis)Enchantment, EUA – 2018)

Criado por: Matt Groening
Direção: Wesley Archer, Frank Marino, David D. Au, Peter Avanzino, Albert Calleros, Dwayne Carey-Hill, Brian Sheesley, Ira Sherak
Roteiro: Matt Groening, John Weinstein, Jamie Angell, Jeff Rowe, Shion Takeuchi, Jeny Batten, David X. Cohen, M. Dickson, Rich Fulcher, Reid Harrison, Eric Horsted, Bill Oakley, Patric M. Verrone
Elenco: Abbi Jacobson, Eric André, Nat Faxon, John DiMaggio, Tress MacNeille, David Herman, Maurice LeMarche, Sharon Horgan
Emissora: Netflix
Episódios: 10
Gênero: Comédia, Animação, Fantasia
Duração: 30 min. aprox.

Crítica | Insatiable: 1ª Temporada – Quando a Netflix Realmente Errou

Não há absolutamente nada de bom sobre Insatiable. A nova série da Netflix, estrelada por Debby Ryan, já carregava consigo potenciais polêmicas desde seu anúncio, com um trailer que deixava no ar alguns pontos extremamente duvidosos acerca da qualidade que ofereceria. Mesmo assim, o público adepto ao conteúdo original da plataforma resolveu dar um voto de confiança à produção, esperando até o dia de sua estreia para conferir com os próprios olhos que diabos se tratava a narrativa. O resultado não poderia ter sido mais catastrófico: além de ter recebido a pior avaliação de todos os tempos, a série também refletiu um suposto desgaste da gigante do streaming e uma possível perda de seu monopólio criativo.

O episódio piloto se inicia de forma clichê: uma menina obesa chamada Patty Bladell (Ryan) sofre bullying constante na escola que frequenta, descontando todas as suas frustrações compulsórias na comida, sendo respaldada emocionalmente pela melhor amiga Nonnie (Kimmy Shields). Em um cosmos paralelo, Bob Armstrong (Dallas Roberts), um ex-advogado que se tornou técnico de misses de concursos de beleza, lida com a frustração de sua última cliente e de sua insuportável mãe, as quais se unem para acusá-lo de pedofilia e destruir sua reputação. Os dois mundos se cruzam quando Patty acaba se envolvendo em uma briga com um mendigo e quebra a mandíbula, além de ser processada: Bob, pois, volta para sua vida jurídica e atende a garota após não conseguir mais nenhum caso, e vê a possibilidade de voltar para o mundo artístico após perceber que ela emagreceu horrores e tem o porte de uma pageant queen.

A narrativa não precisaria seguir pelos modos mais convencionais, tomando cuidado para se esquivar de clichês e saídas formulaicas que a transformassem em mais uma trama cômica de coming-of-age adolescente. Entretanto, a criadora e showrunner Lauren Gussis não apenas se respalda em todas as construções que conhecemos, como também reafirma estereótipos extremamente problemáticos em uma sociedade marcada pela tentativa constante de quebrar padrões conservadores e da busca pela empatia e pelo equilíbrio da alteridade.

A programação original da Netflix há algum tempo já mostra uma falta de consideração em relação a inúmeros gatilhos que influenciam no crescimento e no psicológico de várias faixas etárias. Afinal, precisamos lembrar que a plataforma tem uma expansão progressiva que abrange parcelas consideráveis dos telespectadores – então a cautela é um passo de bastante importância. Em outras palavras, ao mesmo passo em que produziu comédias aplaudíveis e de teor ácido sem ferir a integridade de qualquer minoria social, como The Good Place e Unbreakable Kimmy Schmidt, também foi responsável, por exemplo, pela insurgência da adaptação 13 Reasons Why – e a polêmica estende-se até hoje pelo fato de romantizar o suicídio e não tratá-lo com o devido respeito.

Insatiable vai muito além disso. Diferente do drama tour-de-force da obra de Jay Asher, essa série não teve uma intenção boa: sua ideia pareceu, desde o princípio, pegar todos os problemas em pauta na atualidade e usá-los como base para humilhar seus personagens e criar um desserviço social inegável. Patty emagrece e utiliza esse acontecimento para se vingar de todo o bullying que sofreu, tornando-se uma criação histérica que inclusive se utiliza de sua recém-adquirida sedução para conseguir o que quer; além disso, a protagonista faz alusão à pedofilia e a encara com descaso e como uma forma de subir na vida; a sororidade também é desconstruída, colocando todas as personagens femininas em conflito entre si e sempre submetidas à presença masculina, que se porta com mais inteligência e calma. Enquanto isso, Bob delineia todo seu arco “evolutivo” partindo da premissa a magreza é mágica, condenando as pessoas gordas e submetendo suas clientes às tarefas mais insanas para alcançarem o pódio. Basicamente, a série declara mais de uma vez que a beleza é o fator principal para conseguir subir na vida.

Como se não bastasse, nem mesmo o estruturalismo técnico da série é bem pensado: a montagem segue um padrão horrível paralelo que nem mesmo consegue prever supostos furos de roteiro, combinando o que quer que exista apenas para entregar um episódio pífio e medíocre, que em nenhum momento diverte ou ousa ser mais do que aparenta. A direção de arte, que poderia buscar um apoio na paleta de cores extensa da indústria dos alimentos, não consegue brincar de forma adequada para, em meio a tantos equívocos propositais, representar um ínfimo suspiro de esperança. Em outras palavras, todo o show se comporta como a justaposição de fragmentos cênicos sem pé nem cabeça.

Ryan e Roberts, configurando-se como o casal protagonista, carregam o peso tragicômico de manter a série fluida, senão pelos diálogos porcamente criados, ao menos pela química entre suas atuações. Porém, os dois parecem viver cada um em seu mundo: as tentativas de forçar um romance entre os personagens é chocante por todos os motivos errados, inclusive pelo fato de Patty ser menor de idade e Bob estar em um casamento conturbado com Coralee (Alyssa Milano), a própria representação da mulher branca de meia-idade que abandonou todas as suas raízes e transformou-se em uma tradicionalista ridícula sem altos e baixos e que se move às custas, mais uma vez, de seu marido.

Em meio a tantas problematizações que vão da gordofobia até a LGBTfobia mascarada, Insatiable é uma prova de como nem mesmo em pleno século XXI estamos livres de séries que ratificam e disseminam estereótipos. Como supracitado, a Netflix conseguiu mais uma vez mergulhar em um desserviço completo e que definitivamente deixou sua reputação ainda mais difícil de ser recuperada.

Insatiable – 1ª Temporada (Idem, EUA – 2018)

Criado por: Lauren Gussis
Direção: Andrew Fleming, Lev L. Spiro, Brian Dannelly, Elodie Keene, Maggie Kiley, Steven K. Tsuchida
Roteiro: Lauren Gussis, Jenina Kibuka, Jace Richdale, Kari Drake, Danielle Hoover, David Monahan, Craig Chester, Michael Ellis, Andrew Green, Tim Schlattman
Elenco: Debby Ryan, Dallas Roberts, Christopher Gorham, Kimmy Shields, Daniel Kang, Erinn Westbrook, Michael Provost, Irene Choi, Alyssa Milano
Emissora: Netflix
Episódios: 12
Gênero: Comédia
Duração: 35 min. aprox.

Crítica | True Blood: 1ª Temporada – Os Vampiros Retornam à Louisiana

O que aconteceria se, de um dia para o outro, vampiros revelassem sua existência publicamente? E se esses mesmos quisessem fazer parte de nossa sociedade, com direitos e deveres próprios? True Blood trabalha em cima dessa premissa, jogando-a em um contexto provinciano, do interior da Louisiana, mais especificamente Bon Temps. Uma cidadezinha onde, até então, nada de incomum acontecia.

Como nos livros nos quais foi baseada, a série foca em Sookie Stackhouse (Anna Paquin), uma jovem garçonete do único bar da cidade, Merlotte’s. Stackhouse, porém, conta com um diferencial, que, desde os primeiros minutos, já é trabalhado em cima: sua capacidade de ler as mentes de todos ao seu redor. Tal habilidade, porém, funciona de maneira passiva e é preciso grande esforço por parte dela para se manter no silêncio. Algo, porém, foge a essa regra – em um dia normal, sem avisos, um vampiro entra no bar, sentando-se em uma das mesas de Sookie. Há um evidente ar de mistério emanando daquele ser, possibilitado pelo trabalho de maquiagem de Sasha Camacho, perfeitamente em harmonia com a atuação de Stephen Moyer, que nos entrega uma criatura claramente fora de seu tempo, como um retrato antigo, preto e branco, de família.

A garçonete, prontamente, entusiasmada, corre para atender o novo cliente, o primeiro vampiro do Merlotte’s, dando o primeiro passo em um caminho que o levaria ao centro do sobrenatural. Desde então, Anna Paquin prende nossa atenção, através de sua atuação que mergulha a fundo na personagem, trazendo cada nuance de sua personalidade à tona, compondo um perfeito contraponto a Bill. Desde o primeiro encontro é inegável a química existente entre os dois personagens, Alan Ball trabalha em cima dela durante todos os episódios da temporada sem entediar o espectador. Cada interação é realizada de forma diferente, mesclando o provinciano, os sotaques sulistas e aquela vida do interior, com o sobrenatural. Stackhouse é quem nos leva para esse mundo e, a cada episódio, True Blood nos apresenta novos elementos, novas problemáticas que dão um estranho ar de naturalidade à tudo aquilo.

Bill? Eu achei que seria Antoine, ou Basil, ou algo como Langford, talvez. Mas Bill? Vampiro Bill!

É nesse ponto que entramos em um ponto chave de True Blood. Quando achamos que estamos entrando em algo sério, Alan Ball nos puxa de volta para a realidade, inserindo alguma situação nada menos que ridícula. É uma série que não tem o intuito de ser levada a sério – seu objetivo é entreter, algo que é deixado claro desde a primeira cena antes dos créditos. Trata-se de uma grande caricatura de um mundo que, aos poucos, passamos a nos habituar. Quando paramos para perceber, cada ocorrência, no mínimo, surreal, é encarada normalmente e o que poderia ser visto como defeito, rapidamente, se torna um mérito.

Isso quer dizer que é uma série pior ou melhor que outras? Definitivamente não. Tal elemento confere uma identidade única a True Blood e, mais importante, permite os criadores a trabalharem em cima de praticamente qualquer material. É um típico exemplo de produto do entretenimento que forma um nicho específico, uma base de fãs que se identificam com tal narrativa – não é para todos, sem dúvidas.

Essa característica possibilita a abordagem de temáticas mais sérias sob uma visão menos incisiva. Temas como racismo, drogas e homofobia são trabalhados constantemente em diversos episódios, utilizando, muitas vezes, os vampiros como alguma metáfora de nossa sociedade. Nesses pontos as criaturas funcionam como bodes expiatórios, sendo culpados por crimes não menos cometidos pelos próprios humanos. Porém, de todos os temas abordados, a homossexualidade é um dos maiores destaques. Através do personagem Laffayette (brilhantemente vivido por Nelsan Ellis), a HBO, novamente na vanguarda, abre caminho para diversas outras produções, como Looking.

Dentro de todo o clima sobrenatural, ao mesmo tempo interiorano, ainda temos uma série de assassinatos ocorrendo em Bon Temps, que garante ainda mais a desconfiança dos moradores locais em relação aos vampiros. Trata-se de uma subtrama que aos poucos vai ganhando mais destaque dentro da temporada, unindo-se com a narrativa sob o ponto de vista de Sookie. Um grande mérito deste início da série é justamente a forma como cada história é encadeada, através de uma efetiva e dinâmica montagem – são diversos personagens, mas cada um deles consegue prender a atenção do espectador, garantindo a tensão por diversas vias, algo que é perdido em temporadas posteriores.

Contribuindo para toda a atmosfera carnal de mistério, paixão, sobrenatural, está a trilha sonora de Nathan Barr que utiliza, principalmente, instrumentos de corda para compor suas marcantes melodias. Aos poucos, cada música facilmente nos liga a determinado personagem, nos aproximando dele, através dos tons intimistas utilizados. Esse caráter íntimo da série se perde, em alguns momentos, por deslizes da fotografia de Checco Varese, que busca inovar, porém, sem atingir seus objetivos. Aos poucos, contudo, juntamente com os efeitos especiais, tais aspectos técnicos vão ganhando mais cuidado, ganhando uma visível qualidade.

True Blood certamente é uma série que não irá agradar a todos e sequer visa isso. É uma obra corajosa de Alan Ball, que cumpre o papel desejado: entreter seu público através de uma história que não deve ser levada completamente a sério. A primeira temporada foca na introdução do espectador a seu universo, explicando, pouco a pouco, cada elemento do sobrenatural. Seja através das subtramas ou dos distintos personagens, definitivamente irá fisgar a atenção daqueles dispostos a se deixarem levar pelas suas inusitadas situações passados por Sookie Stackhouse.

True Blood: 1ª temporada (EUA, 2008)

Criador: Alan Ball
Roteiro: Alan Ball, Brian Buckner, Alexander Woo, Raelle Tucker, Chris Offutt, Nancy Oliver,
Direção: Alan Ball, Scott Winant, John Dahl, Michael Lehmann, Daniel Minahan, Nick Gomez, Marcos Siega, Anthony Hemingway, Nancy Oliver
Elenco: Anna Paquin, Stephen Moyer, Sam Trammell, Ryan Kwanten, Rutina Wesley, Chris Bauer, Nelsan Ellis, Jim Parrack, Carrie Preston, Michael Raymond-James, William Sanderson, Alexander Skarsgård, Lynn Collins, Lizzy Caplan, Lois Smith, Todd Lowe, Deborah Ann Woll
Duração: média de 53 min por episódio

Crítica | Samantha!: 1ª Temporada – A TV Politicamente Incorreta

A comédia brasileira sempre foi um nicho muito complicado para a aceitação do público; carregada com o estigma das ruínas do pastelão e do caricato, o número de produções do gênero que repete as mesmas fórmulas narrativas é quase inenarrável – e, apesar de constantemente criticadas em todos os âmbitos, representam um microcosmo econômico de grande lucro para a indústria do entretenimento nacional. À parte dos dramas hiper-realistas e de algumas outras tentativas, os longas-metragens e séries cômicos são os mais consumidos em disparadas, e é partindo dessa premissa quase engessada que a Netflix resolveu mergulhar um pouco mais no potencial do nosso país e trazer a primeira produção seriada dessa vertente para sua plataforma: Samantha!.

Já de cara posso dizer que Samantha! traça inúmeros paralelos com certo filme que caiu no esquecimento das pré-indicações ao Oscar, Bingo – O Rei das Manhãs. Ambos trazem um artista em decadência tentando recuperar o brilho de suas habilidades e deparando-se com inúmeros conflitos internos e externos que contribuem para um amadurecimento compulsório. E as semelhanças são imediatamente perceptíveis quando Emanuelle Araújo, que deu vida a uma versão mais nova da icônica Gretchen no longa, volta à ativa ao encarnar a protagonista-título, a qual era conhecida como “a criança mais amada do Brasil” aos nove anos, retornando nostalgicamente para a década de 1980, e agora lida com a falta de reconhecimento público. O capítulo piloto já insurge trazendo uma montagem anacrônica que passeia pelos tempos de estrelato da anti-heroína e como seu cotidiano mudou drasticamente após constituir uma conturbada família.

Samantha é ex-esposa do forçosamente aposentado jogador de futebol cujo apelido é Dodói (Douglas Silva, afastando-se em uma completude sincera de sua memorável performance em Cidade de Deus), que ficou doze anos preso por motivos desconhecidos. Dodói a deixou numa posição de mãe solteira com os dois filhos Brandon (Cauã Gonçalves) e Cindy (Sabrina Nonata), cujas personalidades opostas ao extremo carregam inúmeras brechas para camadas e mais camadas de humor puro – ao menos a tentativa de construção de um. A série, criada por Felipe Braga, já acerta em cheio ao optar por um núcleo principal pequeno e que permite o desenvolvimento de seus personagens principais – e também merece reconhecimento por afastar-se do convencionalismo de treze episódios, optando por sete capítulos de aproximadamente meia hora que possuem começo, meio e fim em si mesmos.

Braga parece buscar inspirações em diversos shows norte-americanos que prezam pelo politicamente incorreto, tema constante em cada uma das subtramas aqui, e pelo propositalmente ridículo. Os enquadramentos teatrais e os diálogos autoexplicativos nos levam aos moldes de Unbreakable Kimmy Schmidt, por exemplo. As sátiras ácidas, ainda que não existem em um número satisfatório, indicam um potencial interessante que pode ser trabalhado em um futuro próximo, caso a série seja renovada, é claro; o afastamento de arcos românticos e padronizados é muito bem-vindo, além de respaldar a entrada de outras críticas profusas entre as iterações que tangenciam tópicos polêmicos como a representatividade midiática das minorias, a efemeridade da internet, o boom das subcelebridades, o feminismo, e muitos outros.

Enquanto os momentos de glória despontem com emoção – principalmente por parte da performance inigualável de Araújo e de suas expressões cativantes que permeiam cada um dos subnúcleos explorados -, os deslizes encontram um triste equilíbrio para também aparecerem: os primeiros capítulos não possuem um ritmo muito bem trabalhado, beirando a monotonia extrema e logo depois pulando para um frenético jogo de palavras e de câmera que por vezes contribui para a perdição do telespectador; alguns diálogos se tornam crus demais para um cosmos tão naturalista quanto este, transformando-se em desnecessários monólogos clichês.

De modo geral, Samantha! vale mais pelas atuações e pelas referências que a história em si. Claro, é interessante ver uma protagonista feminina em um tour-de-force atrás do estrelato perdido – e toda e qualquer tipo de representatividade é muito válida. Porém, a construção desses arcos é falha e se vale muito de conexões forçadas para funcionar totalmente. Não obstante, a presença de nomes como a própria Gretchen e Sabrina Sato, marcam uma atemporalidade interessante para nos mostrar o poder de diálogo entre as diversas décadas da Era de Ouro do entretenimento brasileiro – e abre espaço para os easter eggs que joga com graça, seja no próprio formato dos programas de auditório ou dos mascotes nem um pouco ortodoxos (Ary França faz um incrível trabalho ao dar vida à Cigarrinho que, como o próprio nome diz, é uma caixa de cigarros).

É interessante perceber que a comédia nacional finalmente decide seguir em um rumo diferente. Ainda que seja complicado desapegar de raízes tão fortificadas durante décadas e décadas de criações formulaicas, as composições de Braga são essenciais para mostrar que há muita coisa faltante a ser explorada nesse meio – e a série em questão é apenas um dos poucos produtos que podem ser oferecidos em meio a tanta mediocridade, mesmo que um pouco de polimento seja necessário.

Samantha! – 1ª Temporada(Idem, Brasil – 2018)

Criado por: Felipe Braga
Direção: Luis Pinheiro, Júlia Jordão 
Roteiro: Roberto Vitorino, Patricia Corso
Elenco: Emanuelle Araújo, Douglas Silva, Sabrina Nonata, Cauã Gonçalves, Daniel Furlan, Ary França, Rodrigo Pandolfo, Maurício Xavier, Lorena Comparato, Duda Gonçalves
Emissora: Netflix
Episódios: 07
Gênero: Comédia
Duração: 25 min. aprox.

Crítica | Grace and Frankie: 1ª Temporada – Uma Comédia como Você Nunca Viu

Em vários textos aqui no site, falamos sobre como a comédia é um dos gêneros mais complicados de serem trabalhados; afinal, ele deve se renovar constantemente para não cair nos convencionalismos excessivos, como as quebras de expectativas previsíveis, a entrada do melodrama superficial ou até mesmo resoluções incabíveis para um universo irreverente. É claro, se pensarmos no auge das séries cômicas dos anos 1980 e 1990, como Seinfeld e Friends, as saídas formulaicas ainda eram agradáveis e sutis ao público – e sabíamos que aquele recorte completamente bizarro era proposital. Contudo, manter-se preso a isso é um dos piores equívocos que se pode cometer no showbiz; a ideia aqui é a originalidade, a busca pelo impensável, por histórias que não poderiam ser contadas.

Nos últimos anos, a Netflix tornou-se uma plataforma de criação expansiva, e mesmo que tenha se rendido às ruínas de alguns produtos bem medíocres, criou obras-primas da televisão contemporânea como Unbreakable Kimmy Schmidt e The Good Place, invadindo territórios considerados tabus e repaginando-os com uma perspectiva única. E foi com o mesmo intuito que Martha Kauffman (trazendo sua grande experiência de volta à tona) e Howard J. Morris arquitetaram um cotidiano às avessas de duas famílias aparentemente perfeitas, mas cujas conturbações insurgiram numa época um tanto complicada, e a ele deram o nome de Grace and Frankie. A trama, que poderia facilmente mergulhar em algo insosso, na verdade tornou-se uma das maiores surpresas de 2015 – e não é à toa que chegará à sua quinta temporada.

É claro que trabalhar dentro de uma equipe clássica como essa não seria fácil: as protagonistas, que emprestam nome para o título do show, são interpretadas apenas por dois dos maiores nomes de sua geração, Jane Fonda e Lily Tomlin nas respectivas personas. Não é nem preciso dizer que ambas as atrizes criam uma química inexplicável que supera todas as expectativas nas telinhas, abrindo espaço para suas habilidades performáticas e cultivando margens para versáteis rendições. Seja na presença da tragicomédia ou das subvertentes como coming-of-age ou tour-de-force, as duas sempre fazem algo de parte maior e, mantendo esses fortes laços intercambiáveis, conseguem trazer todos os outros personagens para um mesmo nível de desenvolvimento e delineação.

Mas nos voltemos à história principal: Grace e Frankie são duas mulheres da terceira idade muito bem resolvidas vivendo uma longe da outra, ainda que seus maridos trabalhem juntos na mesma firma de advocacia. Entretanto, tudo isso muda quando, durante um almoço planejado de última hora, Robert (Martin Sheen) e Sol (Sam Waterston) revelam às duas que estão tendo um caso há mais de vinte anos e que só agora resolveram assumir quem realmente são e começar um novo capítulo – afinal, nunca é tarde para amar, não é mesmo? Todo esse escopo seria hilário, se não fosse trágico; claro, colocar um casal de idade avançada em uma subtrama LGBT é sempre bem-vinda, e os roteiristas encontram um modo muito leve e nem um pouco ofensivo de tratar isso ao mostrar a perspectiva de cada um dos afetados, sem se deixar levar por uma entrega parcial.

Ainda que não chegue aos pés de Fonda e Tomlin, os dois atores, também veteranos da indústria do entretenimento, carregam consigo uma fofura inigualável que deixa quase impossível odiá-los por mentirem e traírem suas esposas sem ao menos lhes dar alguma satisfação. Eventualmente, a construção arquetípica dos personagens também revela falhas ao mesmo tempo em que permite nos conectarmos em diversos âmbitos com cada um deles – e a presença excessiva de personas secundárias é ofuscada pelo tratamento minucioso que a série em si recebe.

Grace e Frankie passam a viver juntas na casa de praia que foi adquirida pelos dois, alfinetando-se o tempo todo pelos estilos totalmente opostos de vida que levavam antes de entrarem num círculo compulsório de convivência: enquanto esta sempre optou por uma vida hippie, em contato com entidades místicas, a quebra de padrões estéticos e o apreço pela arte moderna – ela até mesmo dá aulas de pintura para ex-detentos como modo de reabilitá-los -, aquela mergulhara em pura ostentação, mostrando sua superioridade até mesmo para com os filhos (ora, ela até mesmo era CEO de uma empresa de produtos de beleza antes de passá-la para as mãos da filha Brianna, interpretada pela carismática e hilária June Diane Raphael). Vê-las encontrar um meio-termo para se aturarem é incansável, e as histórias episódicas funcionam tão bem em si mesmas que fica difícil não querer devorar a série o mais rápido possível.

Kauffman e Morris também encontram um modo de fazerem valer as subtramas: temos, por exemplo, a relação conturbada entre um dos filhos de Frankie, Coyote (Ethan Embry), e a queridinha de Grace, Mallory (Brooklyn Decker). Ainda que se perca alguns episódios para frente, quase sendo varrida para debaixo do tapete, essa pequena fatia microcósmica serve como respaldo para o plano geral. Decker, em especial, dando às caras quatro anos depois de seu último projeto com Esposa de Mentirinha, mostra-se muito competente ao abraçar a irreverência de fazer parte de toda aquela conturbação, fugindo dos estereótipos da dona de casa e construindo relações duradouras com o público.

O ápice da série é, sem dúvida, sua leveza. Nada é forçado: os diálogos propositalmente autoexplicativos se mesclam com metáforas impensáveis, os movimentos de câmera seguem um padrão de sitcom, passando pelo reality show e retornando para a zona de conforto de outras fórmulas hollywoodianas ao mesmo tempo em que se esquiva do clichê excessivo, as atuações movem-se com uma fluidez incrível. Em outras palavras, tal obra não é pedante e não preza por uma bruta crítica social, conseguindo passar sua mensagem sem se valer de ideologias compulsórias que obviamente são melhor exploradas por dramas intencionais.

Fonda e Tomlin provam que ainda estão com tudo. Apenas a presença das duas é capaz de nos manter vidrados na tela o tempo que for necessário – e a organicidade que cultivam em Grace and Frankie é algo a ser levado até para fora do cosmos da série, expandindo essa característica única para quem se importasse em ouvir. E digo já com antecedência: o show, felizmente, apenas melhora.

Grace and Frankie – 1ª Temporada (Idem, Estados Unidos – 2015)

Criado por: Martha Kauffman, Howard J. Morris
Direção: Tate Taylor, Scott Winant, Bryan Gordon, Tim Kirkby, Betty Thomas, Tristram Shapeero, Dennie Gordon, Matt Sharkman, Miguel Arteta, Andrew McCarthy, Julie Anne Robinson, Dean Parisot
Roteiro: Martha Kauffman, Howard J. Morris, Nancy Fichman, Jennifer Hoppe-House, Alexa Junge, Billy Finnegan, Jacquelyn Reingold, Julieanne Smolinski, David Budin, Brendan McCarthy, Laura Jacqmin
Elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Martin Sheen, Sam Waterston, June Diane Raphael, Baron Vaughn, Brooklyn Decker, Ethan Embry
Emissora: Netflix
Episódios: 13
Gênero: Comédia
Duração: 30 min. aprox.