Christopher Nolan compara Odisseu ao Han Solo em A Odisseia com Matt Damon
Em entrevista ao NYT, Nolan explica que Odisseu é um herói complexo e falho como Han Solo, não um protagonista moral como Luke Skywalker.
O herói que não é o herói
Christopher Nolan não faz filmes sobre pessoas simples. Oppenheimer era um homem que inventou a arma mais destrutiva da história e passou o resto da vida se perguntando se tinha feito a coisa certa. Em A Odisseia, que chega aos cinemas brasileiros em 16 de julho, o diretor encontrou um personagem ainda mais escorregadio: Odisseu, o rei de Ítaca que passou dez anos na Guerra de Troia e outros dez tentando voltar para casa, enganando deuses, monstros e aliados ao longo do caminho.
Em entrevista ao New York Times, Nolan usou uma analogia de Star Wars para explicar o que o atraiu no personagem: Odisseu é Han Solo. Não Luke Skywalker.
O que essa comparação significa
A diferença entre Luke Skywalker e Han Solo não é de poder ou de importância para a narrativa. É de moral. Luke é o herói que faz o bem porque acredita no bem. Han é o sujeito que faz o certo quando convém, que age por interesse próprio e que surpreende quando escolhe sacrificar algo por alguém. Nolan disse ao NYT que Odisseu carrega essa mesma ambiguidade: é um estrategista brilhante, um enganador, alguém cujas melhores intenções repetidamente saem pela culatra de formas catastróficas.
O paralelo com Oppenheimer é explícito nas palavras do próprio diretor. Nolan afirmou que os temas de liderança, motivações contraditórias e falhas humanas que explorou no físico americano estão todos presentes em Odisseu de formas diferentes. Não é coincidência que os dois filmes sejam estrelados por Matt Damon como personagem de apoio fundamental à narrativa central.
O projeto mais ambicioso da carreira de Nolan
A Odisseia custou US$ 250 milhões, o maior orçamento da carreira de um diretor que já explodiu um Boeing 747 real em Tenet e reconstituiu a primeira detonação nuclear em Oppenheimer. É também o primeiro filme da história rodado inteiramente com câmeras IMAX de 70mm, uma tecnologia nova desenvolvida especificamente para o projeto. Nolan descreveu o processo de filmagem como um “verdadeiro pesadelo”, o que, vindo de quem tem o histórico que tem, sugere uma escala difícil de dimensionar.
As filmagens aconteceram entre fevereiro e agosto de 2025 em Marrocos, Grécia, Itália, Escócia, Islândia e no Saara Ocidental. Matt Damon descreveu uma cena filmada na Caverna de Nestor, na Grécia, onde a equipe montou um estúdio de som natural dentro de uma formação rochosa que nenhuma produção havia tentado usar antes. “Não conheço nenhum outro diretor que tentaria isso”, disse o ator.
Um elenco que não cabia num único filme
O casting de A Odisseia funcionou como uma convocação geral de Hollywood. Anne Hathaway interpreta Penélope, a esposa que aguarda Odisseu em Ítaca enquanto repele os pretendentes que querem o trono. Tom Holland é Telêmaco, o filho que cresceu sem o pai e parte em busca de notícias sobre ele. Robert Pattinson vive Antínoo, o mais arrogante dos pretendentes. Zendaya aparece como a deusa Atena, protetora de Odisseu ao longo de toda a jornada. Charlize Theron é Circe, a feiticeira que transforma os tripulantes do herói em porcos. Lupita Nyong’o interpreta Helena de Troia. Jon Bernthal é Menelau, o rei espartano cujo casamento foi o estopim da guerra.
O elenco ainda inclui Benny Safdie como Agamêmnon, Elliot Page como Sínon, Mia Goth, Himesh Patel, Samantha Morton e, numa das escolhas mais incomuns, Travis Scott como um bardo. Nolan explicou a escalação do rapper afirmando que queria fazer referência à tradição oral que deu origem à Odisseia, e que o rap é a versão moderna dessa forma de narrar histórias. É exatamente o tipo de decisão que, dependendo da execução, pode parecer genial ou completamente fora do lugar.
Três mil anos e ainda relevante
A Odisseia de Homero tem aproximadamente três mil anos. É um dos textos fundadores da literatura ocidental e foi adaptado, reinterpretado e referenciado tantas vezes que qualquer nova versão carrega o peso de tudo que veio antes. Nolan bebeu especialmente da tradução de 2017 feita pela classicista Emily Wilson, a primeira tradução completa do texto para o inglês feita por uma mulher, que trouxe uma perspectiva diferente sobre o personagem de Penélope e sobre o vocabulário que descreve os personagens escravizados na história.
Tom Holland descreveu o resultado à GQ simplesmente como “uma obra-prima absoluta.” As expectativas comerciais são proporcionais: a Universal projeta uma abertura de fim de semana entre US$ 100 e US$ 120 milhões nos Estados Unidos, o que colocaria A Odisseia entre as maiores estreias do verão americano de 2026. Para Nolan, que saiu de Oppenheimer com dois Oscars e a confiança total do estúdio, o próximo passo era inevitavelmente maior. Um épico de três mil anos rodado na maior tela já criada parece ser exatamente isso.