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Crítica | 32 de Agosto na Terra – O Vazio de Nossa Existência

A verdadeira estreia de Denis Villeneuve.

Guilherme Coral
Guilherme Coral Redação
20 de fevereiro de 2024 · 5 min de leitura
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Um dos aspectos que mais nos chamam a atenção na filmografia de Denis Villeneuve é a forma como o diretor consegue, habilmente, transitar entre diferentes gêneros, enquanto mantém a sua facilmente distinguível identidade visual. Seja na ficção científica ou no thriller policial, seu foco sempre encontra-se no psicológico de seus personagens e em 32 de Agosto na Terra isso não poderia ser diferente. Embora já tenha dirigido um segmento de um longa-metragem, Cosmos, esse filme é o primeiro que, efetivamente, podemos chamar de “seu”, marcando, pois, sua presença nas telonas, de uma vez por todas.

A trama acompanha Simone (Pascale Bussières), uma jovem canadense que acabara de sair ilesa de um grave acidente de carro. Ainda em claro estado de choque e podendo sofrer curtos e temporários problemas de memória, por ter batido a cabeça, ela decide ter um filho. Para esse propósito, pede ajuda de seu melhor amigo, Philippe (Alexis Martin), que deve fazer sexo com ela. Para tal, eles viajam para Salt Lake City, nos Estados Unidos, a fim de marcar a ocasião. O que Simone não sabe é que seu amigo a ama e, em razão disso, cria constantes obstáculos para não fazer sexo casual com ela.

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A premissa da obra facilmente abriria espaço para esse filme se tornar nada mais que um drama ou comédia romântica ordinária. Villeneuve, que escreve e dirige o longa, porém, não se mantém no óbvio, aproveitando esse simples argumento a fim de criar não somente marcantes imagens, como um desenvolvimento que mergulha na mentalidade de seus personagens. Em essência, esse é um filme sobre o questionamento da mortalidade, aspecto que, invariavelmente, afeta a percepção tanto de Simone quanto de Philippe sobre a vida.

Em determinado momento, vemos ambos os personagens em meio à vastidão de um deserto plano, ausente de dunas e inteiramente branco. Esse grande vazio, naturalmente, reflete a vida dos dois, sem um propósito bem definido ou grandes sonhos – o homem continua abandonando as faculdades nas quais ingressa e ela precisa ter um filho a fim de garantir o porquê de sua vida. Discretamente, porém, o diretor insere nesses seus planos um segundo significado, indicando que, além deles dois, nada mais importa na vida um do outro, ponto que dialoga com a tensão sexual sempre presente, que vai além do objetivo da viagem, causado principalmente pela palpável química existente entre os dois, fruto das dedicadas atuações tanto de Pascale Bussières, quanto de Alexis Martin, cuja cumplicidade pode ser sentida em todos os níveis possíveis.

Podemos ir muito além, porém, caso decidamos focar nas estranhezas inseridas por Villeneuve ao longo da narrativa. Logo após o acidente, Simone pega carona com um sujeito desconhecido. Ela pergunta qual é o dia de hoje e ele responde “32 de agosto”. Esse simples detalhe, tornado evidente pelas cartelas que enunciam os dias passados nessa história (33, 34 e assim por diante), de imediato parece indicar que Simone está em um estado alterado do mundo – morta, em coma, ou algo parecido. Com o tempo, contudo, passamos a enxergar que essa passagem de tempo não importa. O dia pode ser 32 de agosto ou 1º de janeiro, que não fará a menor diferença em sua vida – as cartelas, portanto, representam a ausência de qualquer propósito ou motivação da protagonista, discretamente fazendo nós próprios ansiarmos para a mudança do mês de agosto para setembro, que, enfim, significará uma mudança substancial na própria essência da de Simone.

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Além disso, essa data fictícia trabalha em paralelo com a própria decupagem de Villeneuve a fim de imprimir um ar surreal em sua narrativa. Como dito antes, a personagem central pode, momentaneamente, perder trechos de sua memória. Esse fator é colocado na imagem através dos súbitos cortes e planos que não se encaixam precisamente bem uns com os outros. O diretor, assim, transfere para a imagem a percepção do mundo de sua protagonista, fazendo bom uso de jump cuts e outras quebras de continuidade a fim de transmitir a ideia de que algo não está bem certo ali. Esse desconforto visual, claro, mistura-se organicamente com toda a interação mostrada entre os dois melhores amigos de tal forma que a tensão já existente é amplificada ao máximo.

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Brilhantemente, pois, Denis Villeneuve esquiva-se de uma história para lá de comum a fim de nos entregar um verdadeiro estudo de personagens, mostrando, logo cedo, todo o seu talento como diretor e roteirista. 32 de Agosto na Terra, como primeiro longa-metragem que podemos considerar efetivamente como sendo de seu diretor, representa toda a força narrativa de Villeneuve, capaz de nos mergulhar no psicológico de seus personagens de tal forma que permanecemos com eles muito após o término da projeção.

32 de Agosto na Terra (Un 32 août sur terre — Canadá, 1998)

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Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Denis Villeneuve
Elenco: Pascale Bussières, Alexis Martin, Paule Baillargeon, Emmanuel Bilodeau, R. Craig Costin, Richard S. Hamilton
Gênero: Drama
Duração: 88 min.

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Tags: #Denis Villeneuve
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Guilherme Coral
Escrito por

Guilherme Coral

Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.

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