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Me pergunto como deve ter sido a reação que muitos tiveram com esse pequeno filme já cult de Michael Mann em sua época de lançamento, já que este aparentemente sofreu uma certa rejeição por parte de ambos crítica e público, que continua bem divisiva até hoje. Será que deve ter sido por terem o encarado como um mero thriller policial “mal filmado” com desenvolvimento de personagem vazio e melodramaticamente falando ‘exagerado ou cafona’?! Enquanto no meio dos fãs do diretor vejo uma reação totalmente inversa e completamente calorosa, com alguns até o chamando do melhor filme do diretor ou um dos melhores da década passada, ou até o melhor filme policial em anos. Eu presumo que talvez venha a ser o típico caso ame ou odeie?! Mas por que deve ser assim? Talvez o filme seja exatamente tudo aquilo que se propôs ser e não deve ter falhado em tal.

Não é de hoje que se é conhecida a fama que Michael Mann tem de ser um diretor completamente meticuloso e talvez um perfeccionista por natureza. O comando dele de sua câmera enxotada nos cantos claustrofóbicos, perseguindo os personagens a todo o tempo já denota o quanto ele está em controle em cima de seus fantásticos atores e da narrativa que ele aqui se propõe. Sim talvez seja mesmo o caso de uma história de justiça vs crime envolvido com o amor criminoso e a violência brutal das ruas que já se viu incontáveis vezes, ainda mais abordadas por Mann. Os fãs podem vir a me crucificar por dizer isso, mas Michael Mann basicamente quase faz os mesmos filmes e as mesmas histórias de novo e de novo, com muitas diferenças claro, mas constantes leves semelhanças e certas repetições, mas isso não é algo negativo por assim dizer.

Ainda mais tendo em conta o quanto ele mostra como consegue morfar tecnicamente e narrativamente de filme pra filme, sempre usando novos estilos, jogadas de câmera diferentes, a forma que ele monta e filma seus icônicos e enervantes tiroteios sempre de forma diferente e SEMPRE de forma absolutamente precisa, assim como dirige seus pequenos momentos contidos e contemplativos entre os personagens e a maneira com que constrói a narrativa e história deles mesmo lidando com temas similares. Assim sempre mostrando uma evolução e modernização e seu tão fantástico estilo, mas sempre soando familiar e mantendo sua marca de autor.

E talvez tenha sido com Miami Vice que ele chegou o mais próximo em anos de se fazer um novo tipo de filme policial moderno, e até mesmo uma nova forma de cinema contemporâneo diferente. Que não segue os caminhos narrativos previsíveis, e que se constrói e remodela de forma coesa mas sempre diversificada, mostrando ter uma linguagem técnica totalmente autoral na forma que lida com a construção de trama e o desenvolvimento dos personagens.

Estes que aqui estão longe de serem algo vazio ou dramaticamente cafonas. Mann quer puxar as emoções e construir suas personalidades e relacionamentos através dos pequenos gestos, nas singelas trocadas de olhar, na forma que interagem no mundo violento em que vivem e o trabalho tão perigoso e tão apaixonante para eles mesmos. Onde simples toques e pequenas conversas tão naturais condensam anos de trabalho, respeito e amizade que o filme nem sequer mostra, mas pede para o público se investir e sentir tudo que tem a dizer através do silencio do ambiente. Como o amor e a amizade podem se aflorar na mentira, e a parceria e verdadeira lealdade não é nunca questionada entre os mocinhos e sim demonstrada nas violentas ações em que comentem em nome da justiça por que tanto lutam. Enquanto os criminosos são figuras do puro mal da natureza humana em seus olhares: nazistas, traficantes, estupradores, invasores da pátria onde palavras de lealdade e respeito não existem ou são sentidas, e só merecem que a morte caia sobre eles.

O uso do digital desde seu excelente Colateral em sua filmagem está mais apurado aqui do que nunca, Mann dá uma vitalidade e voracidade que poucos diretores ousam mexer em digital, ainda mais como ele o usa aqui conseguindo captar uma verdadeira imersão do inicio ao fim dando um deleite visual diferente, caloroso, claustrofóbico, sujo, mas ao mesmo tempo belo e, acima de tudo, moderno!  Com a câmera de Mann se tornando tão íntima ao ponto de sentirmos cada toque de carinho, excitação e amor entre os amantes, o calor da amizade entre os parceiros e o choque de violência que se instala nos ferozes tiroteios, onde a violência explode sem pudores e o verdadeiro banho de sangue que é na realidade explode na tela sem poupar em nada. E Mann como sempre captura essas suas FANTÁSTICAS cenas de ação com uma ferocidade, energia, movimentação e controle que quase nenhum diretor consegue emular, se tornando verdadeiros terremotos de caos e morte no mundo dos personagens.

Estes que tomam vida e forma cheios de profundidade com tanta naturalidade graças ao elenco em total sintonia perfeita e seu diretor sabendo comandar cada um. Com os foques centrais sendo claro na dupla de Colin Farrel e Jamie Fox, ambos se tornando os protagonistas Michael Mannianos, os homens que amam o seu trabalho e são extremamente bons nele, com Fox completamente a vontade no papel e mostrando sua clara química com Mann na direção e total imerso na personalidade empática quando o vemos no seu cotidiano de policial gente fina, e intimidadora quando o vemos infiltrado e totalmente investido em seu trabalho com uma sede de violência prestes a explodir nos seus olhar. Enquanto Farrel faz talvez o mesmo tipo que Al Pacino foi em Fogo Contra Fogo, o policial que ama tanto seu trabalho que não conhece outra vida se não essa, mas o amor de suas amantes se tornam o peso da realidade nas vidas de ambos os parceiros, com destaque para uma curta, porém ótima Naomie Harris e uma SOBERBA Li Gong, a mulher que nasceu no mundo do crime dominado pelos homens e sobrevive nele por toda sua vida, e só o amor é capaz de baixar sua guarda e também ser engolida pela realidade violenta que rodeia a todos.

Então como podem ver, é apenas outro filme de Michael Mann sendo 100% Michael Mann, um filme policial que passa longe de ser apenas um bom entretenimento de ação, com excelentíssimas cenas do mesmo, mas também é um drama auto-contemplativo e que só oferece uma linguagem cinematográfica tão original e moderna, e dramaticamente forte ao mesmo tempo em que é feroz e brutal. Um dos filmes mais especiais de Michael Mann e que merece muito mais atenção e respeito do que recebe!

Miami Vice (Idem, EUA – 2006)
Direção: Michael Mann
Roteiro: Michael Mann
Elenco: Colin Farrel, Jamie Fox, Li Gong, Naomie Harris, John Ortiz, Barry Shabaka Henley, Ciáran Hinds
Gênero: Policial, Thriller, Ação, Drama
Duração: 134 min

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