Lenovo diz que os preços de memória RAM nunca mais vão voltar ao normal
Executivo da Lenovo afirmou no ISC 2026 que os preços de memória DRAM e NAND não voltarão aos níveis de 2025, enquanto a Micron aponta a Apple como culpada.
A piada que ninguém achou graça
Na conferência ISC 2026, realizada em Hamburgo, Alemanha, Martin Hiegl, diretor executivo da Lenovo, foi questionado sobre as perspectivas para os preços de memória. Sua resposta foi direta: os preços de DRAM e NAND “nunca” voltarão aos níveis de antes da crise. O público riu nervosamente.
O próprio Hiegl admitiu que o “nunca” foi um exagero retórico, e que estava se referindo a um horizonte de cinco anos ou mais. Mas a substância da mensagem não mudou com o disclaimer: segundo a Lenovo, os preços altos de memória se tornaram o novo normal, e qualquer expectativa de reversão a curto prazo é ilusória.
A conferência aconteceu na mesma semana em que a Microsoft anunciou mais um aumento nos preços do Xbox, citando os mesmos custos de memória. Não foi coincidência.
Por que os preços subiram e por que não vão cair
A crise de memória que recebeu o apelido informal de “RAMageddon” começou a se manifestar com força entre o terceiro e o quarto trimestre de 2025. O mecanismo é bem documentado: a explosão dos investimentos em infraestrutura de inteligência artificial criou uma demanda extraordinária por chips de memória HBM, DRAM e NAND.
Os grandes players de cloud computing, como Microsoft, Google e Amazon, fazem pedidos com anos de antecedência e têm capacidade de pagar prêmios que fabricantes de eletrônicos de consumo não conseguem igualar. O resultado é que Samsung, SK Hynix e Micron, que controlam mais de 90% da produção mundial de DRAM, preferem vender para data centers a preços historicamente altos do que para fabricantes de consoles, PCs e smartphones a margens menores.
Os preços de DRAM subiram até 89% só no segundo trimestre de 2026. Novos investimentos em fábricas estão em andamento em Taiwan, no Japão, na Coreia do Sul e nos Estados Unidos, mas a capacidade adicional não chegará ao mercado de forma significativa antes de 2028. E mesmo quando chegar, segundo a Lenovo, o novo equilíbrio se estabelecerá num patamar de preços estruturalmente mais alto do que o que existia em 2024.
A Micron aponta a Apple como responsável
Num desdobramento que circulou amplamente durante a conferência, o diretor de negócios da Micron, Sumit Sadana, abordou a questão sem mencionar nomes mas deixando pouco espaço para dúvida sobre a quem se referia. Sadana afirmou que a Micron havia comunicado a alguns clientes “que estavam sendo muito agressivos com os preços” que a estratégia deles “não era construtiva”. A referência ao comportamento de compra de componentes durante o ciclo de baixa de preços entre 2022 e 2024 aponta diretamente para a Apple.
A acusação implícita é a seguinte: durante o período em que os preços de memória estavam em queda, a Apple aproveitou para negociar contratos de fornecimento a valores próximos do piso histórico, pagando pouco por grandes volumes e contribuindo para desincentivar os fabricantes de aumentar a capacidade produtiva. Quando a demanda de IA explodiu, a capacidade não estava disponível para atender todo o mercado, e os preços dispararam. A Apple não comentou as declarações.
O impacto que já está chegando nas prateleiras
Os números estão na mesa. O Xbox Series S saiu de US$ 299 no lançamento em 2020 para US$ 499 com o aumento de agosto de 2026. O Xbox Series X vai de US$ 499 para US$ 799. O PS5 base, lançado a US$ 499, está em US$ 549. O PS5 Digital Edition saiu de US$ 399 para US$ 599. O PS5 Pro foi de US$ 699 para US$ 899.
O Nintendo Switch 2 subiu de US$ 449 para US$ 499 nos EUA, com novo aumento de US$ 50 previsto para 1º de setembro. A Steam Machine, que deveria custar US$ 750 segundo estimativas iniciais, chegou ao mercado a US$ 1.049.
Cada um desses aumentos tem a mesma causa na raiz. E segundo a Lenovo, essa causa não vai desaparecer tão cedo. A empresa prevê que um “novo normal” possa se estabelecer a partir de 2030, mas com preços estruturalmente mais altos do que os de 2024 e 2025. Para quem esperava que os consoles ficassem mais baratos com o passar do tempo, como aconteceu em todas as gerações anteriores, a mensagem de Hamburgo foi clara: essa geração é diferente.