Os filmes baseiam-se em gêneros e temas. Alguns prevalecem e continuam fazendo sucesso nas bilheterias. Outros simplesmente morrem e nunca mais voltam. Um exemplo disto são os filmes noir que marcaram época nos anos 50 e muito raramente aparecem nos cinemas atualmente. Já o antigo thriller de espionagem é um molde ultrapassado de Hollywood e monopolizado pela franquia de James Bond, todavia alguns ainda persistem em aparecer e geralmente levam a pior.

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Frank Tupelo é apenas um simples turista viajando a Veneza, mas tudo isto mudo quando conhece Elise Ward, uma fugitiva procurada pelo governo. Elise se aproxima de Frank com apenas um objetivo: tentar fazer os policiais acreditarem que ele é o seu companheiro, Alexander Pearce, um criminoso fiscal. O problema é que Elise não contava que acabaria se apaixonando pelo turista e, agora, Frank realmente corre risco de morrer graças a armadilha dela e também por um mafioso com pinta de russo nada contente com Pearce.

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Roteiro de turista

O roteiro raso de Chistopher McQuarrie e de Florian Donnersmarck tem um problema de crise de identidade – começa como thriller de suspense e termina como comédia. Não reclamo dele terminar em comédia porque foi exatamente isso que salvou o filme.

Seu enredo não é surpreendente e conta com diversas passagens previsíveis, até mesmo seu clímax não deixa o espectador de boca aberta com sua resolução simplória. Também faz analogias quanto aos seus personagens nem um pouco carismáticos igualmente clichês comparando-os com personagens de livros de espionagem. Seus diálogos não empolgam e muitas vezes deixam o espectador quase dormindo. Em algumas horas, consegue ser original e envolver o público na trama graças a sensualidade de poucas conversas. Como sempre o antagonista da história é o vilão gangster cercado por russos super caricatos, também existem os policiais ineficientes e fanáticos pelo trabalho.

Existem furos no meio da história e personagens que desaparecem do nada e, de vez em quando, reaparecem para salvar a noite. Mesmo sendo chato e fraco,o filme tem seus acertos. A maior parte deles provém das idiotices que Frank faz no meio das perseguições, do cigarro LED, por trocar o italiano pelo espanhol diversas vezes e pela visão dos italianos a respeito dos turistas especialmente americanos (real, eu diria, pois vivenciei isso lá).

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Sr. e Sra. Depp

Em toda a história da carreira destes dois, eles nunca tiveram a oportunidade de trabalhar juntos. Então, era esperado que o resultado fosse surpreendente e explodisse sua alma com tamanha qualidade, certo? Errado! Depp e Jolie não possuem química nenhuma entre seus personagens, sendo que o enredo se baseia no amor “proibido” deles. Não existe carisma em seus personagens assim como em suas atuações. Depp está se livrando aos poucos da maldição de Jack Sparrow que o persegue desde 2003, mas mesmo assim atuou no modo automático, simplesmente não fez esforço nenhum para inovar em nada. Jolie herdou os sorrisos e biquinhos de Salt e desfilou para as câmeras invejando várias figurantes no baile “Disney” que ocorre no fim do longa. Sua atuação resume em apenas ser sensual ao extremo, uma coisa realmente muito difícil para a mulher, não é? Ela nem tentou criar um sotaque inglês para sua personagem britânica.

O destaque fica por conta de Timothy Dalton, mesmo com seus poucos minutos em cena deixa o filme mais agradável e relembra seus anos incríveis como 007, onde tinha permissão para matar. Paul Bettany também está muito bem em seu papel de policial neurótico e garante o divertimento para o público com um belo timing entre seus chiliques e tiradas cômicas. Steven Berkoff faz um papel fácil e apostou na caricatura exacerbada do vilão.

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Um tour a Veneza

O ponto mais alto do filme é a direção de arte e a bela fotografia. Nos interiores, tudo é filmado para mostrar o luxo e o glamour dos cenários que Depp e Jolie “atuam”. A fotografia aproveita o melhor da beleza de Veneza e de Paris a cada plano apresentado. Os planos abertos são os melhores, fora a grande beleza da paisagem, a câmera movimenta-se inteligentemente resultando em uma imagem única e original. Existem tomadas bem elaboradas, como o plano que Depp aparece andando no meio do negrume das pombas com seu smoking branco em plena Piazza San Marco.

O figurino também é relevante, as roupas que os atores usam são extremamente bonitas, principalmente as de Jolie que as tornam ainda mais bela do que já é. Ela também usa jóias estonteantes que as câmeras exibem com tanto orgulho em seus closes repetitivos.

A trilha que saiu pela culatra

As músicas são inspiradas e bem conduzidas – algumas até contam com uma batida eletrônica. Porém, quase nunca casam com as cenas, resultando em um efeito bem indigesto. Várias vezes, Jolie aparece desfilando calmamente com toda sua graça com uma música a la “Missão Impossível”. Outra cena que causa um estranhamento é a que se passa na varanda do hotel onde subitamente começa uma música digna de contos de fada.

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O alemão alugado por Hollywood

Florian Henckel von Donnersmarck começou no cinema com o incrível “A Vida dos Outros” super elogiado pela crítica e premiado com o BAFTA e o Oscar, mas ao contrário de sua obra anterior, “O Turista” parece ser seu projeto escolar.

Ele praticamente obrigou as câmeras a filmarem Jolie 90% do filme,  aparecendo mais do que a própria Veneza. Também não soube dirigir as poucas sequências de ação – a da lancha escapando a 10 km/h dos capangas russos vesgos é uma prova disso. Não desinchou o ego dos seus atores principais, talvez até por ter uma tara secreta por Angelina.

Como era a primeira vez que Depp e Jolie trabalhariam juntos, o resultado poderia ter sido bem melhor. E o pior de tudo: a edição catastrófica que este filme possui. Muitos dos diálogos são chatos graças a edição lenta e pouco precisa. Fora isso ainda insere slow motions completamente desnecessários em algumas cenas.

Mesmo sendo um filme de férias e descontraído, Donnersmarck poderia ter se esforçado mais. Agora eu penso que piada de mau gosto terá sido esta edição do Globo de Ouro deste ano, onde esta “obra de arte” recebeu três indicações.

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Um postal seria uma idéia melhor

“O Turista” é o típico caso de filme pipoca despretensioso. Se você ainda quiser assisti-lo, recomendo que vá sem expectativa alguma de ver algo surpreendente. Apenas esqueça seu cérebro em casa e siga até o cinema, pronto para aceitar todas as soluções básicas do roteiro, os personagens insossos de Jolie e Depp e as perseguições maçantes. Você terá se divertido, ficado deslumbrado pela beleza visual da fotografia única de John Seale e se sentido como um turista em Veneza, afinal se o filme fez alguma coisa bem feita foi a bela propaganda turística da cidade flutuante.

Nota: ★★½

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