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Em seus últimos filmes, parece que Jorge Furtado anda passeando pelo certo, produzido, que acaba no senso comum e até muito chapa branca (O Mercado de Notícias, no documentário; Real Beleza, na ficção). Dessa vez, com Quem é Primavera das Neves, co-dirigido por Ana Luiza Azevedo, seu cinema chega num estado cômodo, controlado para ser simpático.

A premissa da vez (pontos que sempre guardam algum fascínio) remonta a uma publicação feita por Jorge na página da sua produtora em março de 2010: Quem é Primavera das Neves? Tendo feito, à época, uma nova tradução de Alice no País das Maravilhas com Liziane Kugland, encontrou uma tradução lançada no Brasil na década de 60 de autoria dessa tal Primavera das Neves. Em 2010, o Google mostrava apenas uma referência, que também indicava uma tradução de Viagem ao Centro da Terra. Pouco mais foi descoberto até dois anos depois, quando o autor atualizou o post: Encontrei Primavera das Neves. Foi uma amiga de Primavera que encontrou o post e entrou em contato para esclarecer algumas dúvidas de Jorge, dando mais algumas pistas que possibilitaram toda a jornada de pesquisa que desaguou no filme.

E afinal, quem é a detentora desse lindo nome? Para quem antes não tinha muitas referências no Google, um verbete na Wikipédia já é bem esclarecedor. Basta dizer que seu nome completo é Primavera Ácrata Saiz das Neves, nasceu em Portugal e veio para o Brasil com os pais, um anarquista e uma sufragista. Ácrata significa “sem governo”. É o suficiente como ponto de partida. Primavera (ou só Vera) vai ser redescoberta pelos depoimentos coletados pelo diretor, com duas amigas e o ex-marido, momentos esses intercalados por leituras de trechos de traduções e poemas da personagem, lidas pela atriz Mariana Lima, além de narrações em off explicativas sobre o contexto histórico, que embasam e justificam os acontecimentos na vida de Vera.

O esqueleto convencional vem acompanhado de uma montagem instigante, que ressalta os traços cômicos da história e deixa o espectador sempre querendo mais. O fio narrativo mantém-se constante, agradável. Seguimos com os diretores na (re)construção desse perfil, criando a empatia no espectador típica de descoberta de uma vida notável sob a forma de pessoa comum. O mais interessante é que mesmo com tantas peças, informações, os poemas a relação com a arte em geral, juntas, conseguem estabelecer uma relação próxima pela sensibilidade, mas também cria algo de impenetrável. Parafraseando Roberto Carlos, sabemos de sua vida e do seu passado, de um tempo perdido e recuperado… mas quem é Primavera das Neves?

Jorge Furtado brinca com essa consciência justamente pela abundância de leituras que se faz dos textos de Primavera. Conecta essas reflexões a fatos, encaixa até as próprias obras traduzidas (não é difícil quando se tratam de grandes autores, de diversas línguas, como Nabokov, Adolfo Bioy Casares, Emily Dickinson) com as vivências de Vera. Este é muito mais um filme de construção do que uma pancada reflexiva ou paródica, mas é difícil não traçar um paralelo com Esta não é a sua vida (1991). Esta é a vida de Primavera das Neves, mas também não é.

Quem é Primavera das Neves (Brasil – 2017)

Direção: Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo
Gênero: Documentário
Duração: 75 min

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