Wooppi Goldberg, Audrey Hepburn, Ingrid Bergman, Julia Roberts… Não há caracteres suficientes para listar todas as estrelas que ajudaram a tornar Hollywood a fábrica de sonhos (e de grana) que conhecemos hoje. Gerações de mulheres tiveram seus talentos capturados pelas câmeras de cinema e exibidos em telas do mundo inteiro e, atualmente, não são poucas as atrizes que honram o legado daquelas que estão eternizadas nos clássicos da sétima arte.

Com as transformações dos papeis sociais de homens e mulheres ocorridas ao longo de mais de um século de cinema, a luta pela igualdade salarial entre atores e atrizes, fortalecida por movimentos como o Time’s Up, é justa. Afinal, não é de agora que os roteiristas vêm se dedicando a criar personagens femininas que refletem a mulher contemporânea e ganham protagonismo em séries e filmes de sucesso. Eu mesmo sempre achei estranha a existência dessa diferença de ganhos, já que, para mim, nunca houve distinção entre a dedicação e esforço empregado na realização de um grande trabalho entre astros e estrelas, apesar do protagonismo predominante dos homens nos longas-metragens estadunidenses e em produções de outras partes do globo.

Todavia, a luta por justiça pode ser ofuscada por uma prova de superioridade promovida por grupos engajados na luta pelos direitos dos menos favorecidos. Uma pesquisa realizada pelas empresas Creative Artists Agency e shift7 divulgada na primeira quinzena do mês de dezembro, revelou que, entre os anos 2014 e 2018, os filmes mais bem-sucedidos em venda de ingressos foram aqueles que traziam mulheres como protagonistas. Entre os filmes listados estão Moana, DivertidaMente, Mulher-Maravilha e os dois primeiros episódios da nova trilogia de Star Wars.

O estudo levantou também que aqueles da lista aprovados no teste de Bechdel (que verifica se duas personagens femininas, quando juntas, trazem em suas conversas alguma menção a um homem ou algo relacionado à figura masculina) superaram em arrecadação os filmes reprovados. Diante do resultado e da maneira como o mesmo foi divulgado – levando-se em conta os veículos que divulgaram a pesquisa, o perfil dos autores das postagens e o destaque dado à notícia pelos mesmos –, ficou impossível a mim não associar o levantamento ao engajamento feminista, que tem dificuldades em assumir que a luta por igualdade entre homens e mulheres não passa de uma falácia.

O que motivou esta leitura foram duas perguntas que martelaram em minha cabeça logo que me deparei com a pesquisa: 1) será que os filmes não foram bem-sucedidos pelo simples fato de serem bons? e 2) por que a exaltação da importância e do sucesso de uma personagem feminina precisa estar intrinsecamente ligado à irrelevância masculina na jornada desta personagem?

Entre os filmes analisados pela CAA e pela shift7, Mulher-Maravilha – protagonizado por Gal Gadot – e Star Wars: Os Últimos Jedi – que traz Daisy Riley à frente do elenco – são os mais bem-sucedidos, tendo arrecadado US$ 412.6 e US$ 533.1 nas bilheterias domésticas, respectivamente. O primeiro, produção da DC dirigida pela cineasta Patty Jenkins, foi positivamente recebido por crítica e público graças a seus aspectos técnicos, mas de maneira especial por ter sido o primeiro longa verdadeiramente bem realizado pela DC Comics, mantendo vivo e ainda interessante o projeto de levar para as telas as personagens da editora de Batman e Superman, algo muito semelhante com o recente desempenho de Aquaman, filme que traz um homem como protagonista (Jason Momoa), o que, de certa forma, compromete o argumento de que a produção da Amazona da DC levou o público aos cinemas por ser protagonizada por uma mulher.

Já o segundo é o capítulo do meio da nova trilogia de uma já consagrada saga. Apenas isso já seria motivo suficiente para o sucesso de Os Últimos Jedi. Sequência do aclamadíssimo O Despertar da Força, não é surpreendente o sucesso do episódio VIII – dirigido por Rian Johnson – que, mesmo dividindo opiniões, é um grande filme e deixa o caminho aberto para o provável sucesso de bilheteria do episódio IX, que chega às telas no fim deste ano. E onde estão as partes de Gal Gadot e Daisy Riley – ou do protagonismo feminino – para o sucesso destas produções? Simplesmente no talento das atrizes que deram vida a personagens bem construídas por um roteiro previamente escrito, com atuações devidamente direcionadas por cineastas competentes. Logo, reduzir o sucesso dos longas a uma mera questão de representatividade é negar que o cinema é uma arte coletiva e que a aceitação de um filme é resultado de um conjunto de fatores que, devidamente alinhados, levam ao sucesso, seja de público, seja de crítica.

Diante do óbvio, retomo a segunda questão que veio à minha mente diante da pesquisa e acrescento outra indagação: a que propósito serve um teste e uma pesquisa que avaliam um filme de acordo com a relevância ou a presença do homem na trajetória de uma personagem feminina? Termos como “empoderamento” e “masculinidade tóxica” estão sempre presentes quando o assunto é a força e a independência feminina. A atual onda feminista é uma das vertentes da ditadura do politicamente correto em empurrar goela abaixo da sociedade tal discurso através da mídia, em seus variados meios, é uma estratégia eficiente que vem, de fato, obtendo efeitos, vide a adesão à ideologia inclusive daqueles que, em função da elevação da figura da mulher, são descaradamente rebaixados, numa evidente inversão de posicionamento – fazendo com que o feminismo seja apenas a versão feminina do machismo. A meu ver, este é o único propósito: propaganda ideológica.

Talvez seja uma leitura pessimista e fatalista da parte deste autor, contudo fica cada vez mais difícil acreditar que o feminismo atual é um movimento que luta por igualdade, já que pesquisas como a mencionada nesta coluna, somadas ao teste de Bechdel, nada mais fazem do que fomentar a divisão entre homens e mulheres, tornando a suposta igualdade em mera rivalidade. Se a finalidade, com o discurso empoderado, é dar fim à cultura permeada por mentalidade tóxica, uma séria autoavaliação realizada pelos entusiastas do feminino revelaria que verdadeiramente tóxicas são iniciativas que deturpam o óbvio e atribui a ideologias o que, na verdade, é mérito de algo chamado competência, uma qualidade que não tem cor nem gênero.

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