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Crítica | 1945 – As culpas do passado e os temores do futuro

1945, do diretor Ferenc Török, é um filme de passado e futuro. No reaparecimento de eventos pretéritos e na anunciação de acontecimentos

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
4 de abril de 2018 · 4 min de leitura
Crítica | 1945 – As culpas do passado e os temores do futuro
Reprodução

*Este filme foi visto na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

1945, do diretor Ferenc Török, é um filme de passado e futuro. No reaparecimento de eventos pretéritos e na anunciação de acontecimentos futuros, a narrativa nunca se localiza no presente, muito menos os seus personagens. Estes desejam aproveitar o momento – nesse sentido, o casamento do filho do protagonista é o principal símbolo desse carpe diem -, mas tudo o que acontece ao redor faz com que virem os rostos para trás ou tentem enxergar algo na linha do horizonte. No entanto, em ambas as direções, a escuridão prevalece, tanto em razão do que já aconteceu quanto do que viria a se desdobrar.

A montagem é alternada e trabalha com andamentos cinematográficos distintos. Enquanto o personagem principal, Szentes István (Péter Rudolf), a figura máxima da aldeia onde a narrativa se desenrola, acorda, faz a barba, fala com o filho e a esposa, verifica a organização do casamento, almoça e conversa com os aldeões, na estação de trem da região chegam dois judeus, anônimos, vestidos de preto, carregando mercadorias e pedindo para um colcheiro levá-las até um local cuja natureza será revelada apenas nos instantes finais da história. A principal linha narrativa é disposta em um tempo natural. A outra, por sua vez, parece se desenvolver mais lentamente, como os últimos suspiros de uma morte lenta. Mas o que está para morrer?

A presença desses dois sobreviventes é concreta e simbólica. Concreta porque abala as estruturas da aparente normalidade. Assim que eles surgem, todos os personagens começam a se movimentar para esconder as provas de algum erro cometido durante a presença do Terceiro Reich na Húngria. Nessas tentativas de driblar as forças do passado, chama a atenção como o roteiro do diretor (o qual ele escreveu com mais duas pessoas) não cria um conflito propriamente dito. O que faz o protagonista e os seus aliados se transformarem em atores do palco histórico é a culpa, mas não de ter colaborado com um regime genocida, e sim por estar do lado errado da história quando esta inicia o seu acerto de contas.

Já o simbolismo se estabelece justamente a partir dessa ligação próxima entre os judeus e o passado (em sua anonimidade, os dois representam o povo judaico). No trem que chega à cidade, são eles que retornam para “enterrar os seus mortos”. E “enterrar” é deixar para trás, simbólica e concretamente. Assim, eles apenas anunciam o estado das coisas que virão e o mencionado acerto de contas não decorrerá dessas mãos calejadas de tantos êxodos. Em verdade, os carrascos que atualizarão essa “vingança” virtual e metafísica aparecem pouco, mas não a ponto de passarem despercebidos. Eles estão lá, discretos, trajando uniformes da União Soviética, emitindo comentários sarcásticos e rondando as margens da história.

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Portanto, se Török  opta pelo preto e branco — ilustrando um passado que sai da sua comodidade temporal para influenciar a atualidade –, aproxima a câmera lentamente dos personagens — sempre anunciando um evento iminente — e termina focalizando a fumaça negra deixada pelo trem que carrega os dois judeus desconhecidos, é porque ele olha para a situação a partir da perspectiva de quem conhece a violência que o país iria sofrer sob o jugo do Partido dos Trabalhadores Húngaros. E de quem também sabe que, entre o passado e o futuro, não foi só o presente que inexistiu, como também a liberdade. Não tem jeito: aquilo que vai, volta.

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1945 (Idem, Húngria – 2017)

Direção: Ferenc Török
Roteiro: Ferenc Török, Gábor T. Szántó e Krisztina Eztergályos
Elenco: Péter Rudolf, Bence Tasnádi, Tamás Szabó Kimmel, Dóra Sztarenki, Ági Szirtes
Gênero: Drama
Duração: 91 minutos

Tags: #41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo #Cinema #crítica #Filme
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