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Crítica | As Invasões Bárbaras – Pais e Filhos

Um completo amadurecer cinematográfico de Denys Arcand.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
14 de julho de 2018 · 6 min de leitura
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Crítica | As Invasões Bárbaras – Pais e Filhos

O Cinema é uma arte fenomenal. Ele permite que artistas concebam projetos absolutos que desafiam até mesmo o molde das próprias carreiras – isso quando não alucina a ponto de diluir a própria forma de apresentação da arte ao espectador. No caso de As Invasões Bárbaras, o diretor/roteirista Denys Arcand conseguiu provar que é possível aproveitar e incrementar experiências medíocres do passado.

Isso acontece por conta deste drama bastante denso ser sequência da comédia a la Woody Allen feita em 1986 com O Declínio do Império Americano no qual o diretor trabalha ferrenhamente através da exposição em diálogos sobre intelectualidade e sexo com seus personagens pouco inspiradores.

O Limite da Moralidade

Por se tratar de um longa muito baseado na experiência que anterior oferece, não há como não levar em conta O Declínio do Império Americano na análise de Invasões Bárbaras. Arcand faz uma aposta certeira de elaborar nítidos contrastes entre as obras e insistir na vitalidade que os personagens dessas histórias têm a oferecer. Ao contrário do anterior, pode-se dizer que Invasões é mais palatável ao espectador devido sua estrutura ser melhor arranjada no formato consagrado da narrativa clássica.

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Rémy, o marido infiel intelectual bonachão de outrora, agora amargura a fase terminal de um câncer incurável. Enquanto espera a morte chegar, internado em um hospital público de terrível qualidade no Canadá, o ex-professor é confrontado e confortado por velhos amigos, além de ter que aproveitar o tempo que lhe resta para conseguir conciliar sua relação áspera com os filhos e a ex-mulher.

Se antes Arcand fazia questão de expor seus posicionamentos cáusticos sobre a diversos tópicos de modo pouco interessante, agora prova que alguns anos a mais realmente trouxeram maturidade artística para criar situações críveis, além de engajar o espectador com maior empatia e atenção pelos personagens, principalmente pelo protagonista.

Em geral, o diretor deseja abordar a temática do fracasso moral e ético da humanidade tendo Rémy como a personificação dessa ideia. Ele, um homem inteligentíssimo, vê suas convicções se tornarem irrelevantes diante do fato incontestável da morte totalmente indiferente a todos e a moralidade que rege qualquer sociedade. O próprio fato do protagonista viver uma confusão sobre suas filosofias já é o suficiente para torna-lo fascinante, pois enquanto Rémy evoca suas paixões que revelam toda a alegria e sabor em viver, também há uma dose niilista sobre os constantes massacres do caos violento que é grande parte da História da humanidade.

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Embora o drama sabidamente clichê pelo próprio Arcand envolvendo a questão da paternidade não engrene por boa parte do tempo, novamente há uma razão maior para que o artista exponha em tela – a mensagem só chega no final, com grande poder catártico. Sébastien, filho de Rémy, condena o pai pelos anos de sofrimento envolvendo seus casos amorosos e negligência com a esposa, mas através da boa atuação dos atores principais, o crescente carinho se torna realista e até mesmo emocionante.

Arcand visa exibir o quão fácil é delinear a moralidade em campos sombrios quando as necessidades surgem, levando a uma abordagem sobre ética bastante complexa que, felizmente, o artista não opta por debater as problemáticas. Os personagens agem em motivações concretas sobre afeto e tomam escolhas que possam ser condenáveis, mesmo que em essência, não sejam. É confuso comentar sobre esse ponto de Invasões Bárbaras sem acabar entrando em maiores detalhes, mas pela força do longa que fala muito bem por si próprio, é melhor deixar a experiência intacta para o espectador.

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Arcand é um provocador nato e suas tiradas políticas atingem em cheio os alvos. No caso, o diretor mira em toda a falsa propaganda envolvendo o welfare state canadense, apontando diversos problemas que os brasileiros podem acreditar ser exclusivos do S.U.S. como superlotação, falta de atenção médica, falta de equipe, corrupção, entre diversas outras denuncias expostas em pequenas esquetes cômicas ou somente com imagens como no caso da excepcional abertura em plano-sequência exibindo o estado deplorável do hospital no qual Rémy fica internado.

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Não somente o texto e o desenvolvimento de personagens e apresentação de conceitos que são aprimorados aqui, mas também a própria gramática visual de Arcand. Quem assistiu ao O Declínio do Império Americano antes de se aventurar em Invasões Bárbaras notará uma diferença de abordagem estética avassaladora. Se antes o diretor não ousava com a câmera, a tratando até mesmo com certo desleixo, aqui ocorre justamente o oposto. Visualmente, mesmo que dentro dos padrões para qualquer obra cinematográfica atual, temos um longa bem definido e concebido.

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Arcand movimenta mais a câmera e decupa as cenas com mais carinho, usando a linguagem cinematográfica com eficiência para nos conectar com as emoções que os outros personagens estão sentindo em tela. Por essa transformação tão pertinente que Invasões Bárbaras se torna um experimento fantástico. O cineasta reaproveita esses personagens de modo tão correto que eles realmente se portam como amigos de um passado distante que testemunhamos por breves momentos.

Quando o terceiro ato chega e Arcand elabora momentos finais levemente açucarados ao resgatar as diversões regressas do filme anterior, a obra emana um calor afetivo belo e ainda encontra tempo de tatear outra pauta polêmica de modo avassalador. É possível dizer que nesses pequenos momentos de ternura e contemplação da vida, o cineasta tenha buscado inspirações muito dignas em Morte em Veneza, eterno clássico de Luchino Visconti que conta com um dos finais mais apoteóticos da História do Cinema.

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A Beleza da Falha Humana

Invasões Bárbaras é um drama bastante interessante, mas que requer sim a experiência de ser visto após O Declínio do Império Americano. Caso não o faça, o espectador vai sacrificar boa parte da moral e do experimento cinematográfico que Denys Arcand propõe com tanta atenção. Os temas explorados são pertinentes e atualíssimos preservando a visão bem detalhada do diretor sobre tópicos que ainda devem ser mais debatidos no futuro. Mas o que realmente importa, por trás de toda a complicação ética e moral, é ver a beleza da falha humana. Presente em nós desde o primeiro momento da nossa existência. É aí que as invasões bárbaras realmente começaram.

As Invasões Bárbaras (Les invasions barbares, Canadá – 2003)

Direção: Denys Arcand
Roteiro: Denys Arcand
Elenco: Rémy Gerard, Stéphane Rousseau, Marina Hands, Pierre Curzi, Yves Jacques, Marie-Josée Croze
Gênero: Drama, Comédia
Duração: 99 minutos

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Tags: #Denys Arcand #Marie-Josée Croze #Pierre Curzi #Yves Jacques
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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