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Crítica | Caixa Preta – Ser ou Não Ser

O subconsciente sempre se caracterizou como um emblemático fascínio do ser humano – tanto que, até hoje, não sabemos exatamente o que se esconde por trás de nossas introspecções. Ao longo da história, artistas das mais diversas vertentes buscaram explicar o pensamento dos indivíduos, fosse com o onirismo da estética surrealista, os fluxos de consciência imprimidos por Clarice Lispector e José Saramago e até mesmo os futuros distópicos cinematográficos que imprimiam críticas acerca desses estudos ambiciosos e sem limites. Partindo desse princípio, surgiu Caixa Preta – a segunda produção da interessante, ainda que controversa antologia de terror arquitetada pela Amazon Studios e pela Blumhouse (um dos maiores e mais aclamados estúdios da atualidade).

O especial do mês de outubro, que celebra de forma instigante o Dia das Bruxas – se afastando dos convencionalismos gore ou slasher que tanto transbordam nessa época do ano -, começou com o pé esquerdo com o esquecível suspense Mentira Incondicional, estrelado por Joey King e Peter Sarsgaard. Confesso que, apesar da qualidade estética, o roteiro rendeu-se a tantas fórmulas que poderíamos fazer uma rodada de bingo para cada clichê trazido às cenas e não me deixou animado para os próximos capítulos. Entretanto, Caixa Preta veio como uma surpresa agradável e uma competente narrativa de amor incondicional – mais até do que a obra anterior. No cenário que se ergue à nossa frente, Mamoudou Athie dá uma ótima performance como Wright Nolan, um jovem fotógrafo que sofreu um acidente e entrou em morte cerebral. Miraculosamente, ele volta à vida com uma grave amnésia, não se recordando de seu tempo com a filha, Ava (Amanda Christie), e da esposa que faleceu na tragédia em questão.

Após tentar recuperar o cotidiano, forçando-se a voltar à normalidade, mas esquecendo-se de coisas como pegar a filha na escola ou das pessoas com quem trabalhava, ele decide visitar a Dra. Miranda Brooks (Charmaine Bingwa), chefe do departamento neurológico que utiliza métodos fora do convencional para reativar memórias escondidas nos confins da mente, como a hipnose. Vê-se, aqui, que o enredo arquitetado por Stephen Herman e supervisionada também pelo diretor Emmanuel Osei-Kuffour Jr. pega temas emprestados de outras iterações audiovisuais que se tornaram famosas e aclamadas nos últimos, como o vencedor do Oscar Corra!, de Jordan Peele, que mesclava a hipnose com um potente terror psicológico; entretanto, seguindo os passos de Mentira Incondicional, o filme em questão abre espaço para outras discussões que variam desde identidade até a reconstrução de uma família marcada pelo trauma.

Osei-Kuffour não tem qualquer intenção de construir uma tragédia grega ou de se respaldar em melodramas novelescos e previsíveis – mesmo que, com atenção máxima, possamos entender o que nos aguarda no último ato. Na verdade, o cineasta toma seu tempo para construir arcos comoventes e relacionáveis com o público, colocando os laços entre Nolan e Ava no centro de uma corrida por aquilo que foi perdido. Nolan deseja mais que tudo que volte a ser o pai que outrora era, mas ao mesmo tempo se vê num impasse: ele consegue acessar sua zona de conforto quando hipnotizado; porém, ele é atacado por uma força incompreensível que o persegue e que, de alguma forma, quer destruí-lo. É aí que se centra o plot principal: quem é essa criação psíquica que atormenta seus pesadelos? Um lado sombrio que não conhece? Ou algo mais derradeiro que voltou com ele do mundo dos mortos?

Em nenhum momento o roteiro dá a entender que lidaremos com o sobrenatural, mas sim com uma metafísica exploração do que significa “existir”. O protagonista, encarnado com perfeição e com profundidade por Athie, não sabe quem é e não sabe se o passado que lhe contam é verdadeiro: em diversos momentos, ele se questiona sobre comportamentos explosivos e tóxicos que podem ter a ver com alucinações que incluem uma mulher sem rosto (provavelmente sua esposa) cheia de machucados e um bebê esperneando, inconsolável. Ao mesmo tempo, Nolan também fica se perguntando o motivo do cenário onde se vê não fazer parte de sua história – afinal, certas sequências são ambientadas em um apartamento no subúrbio no qual nunca viveu. À medida que essas questões se acumulam em uma bola de neve, Herman espera o momento certo para nos entregar uma reviravolta sólida o bastante para fugir do lugar-comum.

O aspecto taciturno é alcançado não apenas pela tétrica trilha sonora – que se vale de instrumentos de corda ressonantes e certas incursões com o minimalismo do piano -, como também pela monocromática paleta de cores que, inteligentemente, não muda as próprias cores, mas aposta em filtros moduladores e supressão de brilho para modificar a ambientação. A claustrofobia, que seria de ímpar necessidade para convencer os espectadores de que as coisas não são tão simples quanto parecem, é auxiliada por sutis enquadramentos em plongée e contra-plongée – além de frames com cenários opressores pela própria trama em que estão mergulhados.

Black Box insurge como um coeso conto que traz discussões válidas para as telas, ainda que não se aprofunde como poderia e encontre alguns problemas rítmicos ao longo do caminho, cumpre o que promete e não se mostra pedante ou superficial.

Caixa Preta (Black Box – Estados Unidos, 2020)

Direção: Emmanuel Osei-Kuffour Jr.
Roteiro: Emmanuel Osei-Kuffour Jr., Stephen Herman
Elenco: Mamoudou Athie, Amanda Christie, Charmaine Bingwa
Duração: 97 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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