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Crítica | Lua Azul – Descobrimento interrompido

Existe um período da vida onde as nossas escolhas definem para onde iremos, e quem seremos. Em Lua Azul, presente na 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, vemos o que acontece quando essas escolhas não são tomadas, e sim impostas.

O filme nos apresenta a Irina, uma sonhadora que vive com a irmã na pousada da família, trabalhando na manutenção. Seu desejo é sair dali e construir a própria vida em Bucareste, mas as tradições e os familiares não conseguem entendê-la. É praticamente aquele antigo sistema onde os avós deixam para os filhos, e deles para os netos. Só que somado ao fato que todos ali sofrem de narcisismo, o risco não fica somente na compreensão.

A direção de Alina Grigore navega por essa trama com uma delicadeza em não ramificar demais. Ela consegue focar na garota, até quando as circunstâncias refletem em outras pessoas. Não que o filme queira passar um ponto de vista, mas Grigore consegue deixar a tonalidade entre a família bem preta e branca.

Ioana Chitu, que interpreta Irina, faz uma versão de personagem que já nos é familiar. Aquela pessoa que deseja abrir as asas para voar. Chitu se difere usando uma coisa mais corporal na construção da personagem, que acreditamos ser uma adolescente até dizer em alto e bom tom ter 22 anos. É mais uma vertical da atriz e diretora para conseguir expressar o como Irina ainda está em fase de descobrimento.

Quem merece um destaque do elenco é Mircea Postelnicu, que interpreta o primo Liviu. Ele faz um antagonista primário – uma vez que a família toda é um empecilho para o avanço da garota -, criando aqui uma certa relação de amor e ódio. Postelnicu leva a sério a imagem de um adolescente frustrado em um homem nos seus 30 anos, servindo de espelho para Irina ter medo do que pode se tornar. Ele não sabe escrever ou ler, só obedecer a família e fazer o serviço bruto necessários na pousada. Há também esse medo físico, pois ele é um dos prejudicados pela tradição familiar e desconta a frustração em qualquer um que queira questioná-la.

Focado em achar alternativas para o amadurecimento da personagem principal, Grigore acaba trazendo um artista casado para a cidade. Ele representa o despertar sexual de Irina, que também se atrai pelo fato dele morar em Bucareste. Aqui que a trama dá uns solavancos, querendo passar pela fase de puberdade da jovem adulta, mas que se torna uma frustração para toda a trama familiar.

Lua Azul tem um visual claustrofóbico e um ritmo interessante, mas falta de catarse para uma trajetória de descobrimento realmente memorável.

Lua Azul (Crai Nou, Romênia – 2021)

Direção: Alina Grigore
Roteiro: Alina Grigore
Elenco: Ioana Chitu, Mircea Postelnicu, Mircea Silaghi, Vlad Ivanov, Emil Mandanac
Gênero: Drama
Duração: 90 min

Acompanhe mais da nossa cobertura da 45ª Mostra Internacional de São Paulo

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Publicado por Herbert Santos

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