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Crítica | Mob Psycho 100

(Esse texto contém spoilers)

Em um mundo em que existem seres sobrenaturais “há aqueles que lutam todos os dias para conceber esperança em meio à escuridão caótica”. No universo de Mob Psycho 100 existem os “paranormais”. Nos primeiros segundos da série, somos inseridos numa luta grandiosa, de um ser humanoide como se absorvido pelas trevas batalhando contra uma vasta fauna de monstros enormes. Esse prólogo deslocado é seguido da apresentação de Reigen Arataka, um pretenso paranormal, um charlatão de primeira, mestre do nosso protagonista, o jovem Shigeo Kageyama, apelidado de “Mob”. O garoto nasceu com grandes poderes psíquicos, que vão desde levitar objetos, dobrar colheres, exorcizar espíritos, até poderes que lhe garantem força e grande capacidade destrutiva. Demonstra estar sempre calmo, suas emoções parecem sempre atenuadas, mas não é frio. Reigen é um humano médio, e, mesmo jovem, mostra saber muito da vida – pelo menos aquela do mundo que acompanha.

Em Mob Psycho 100, seu autor, One – o mesmo de One-Punch Man –, monta um sistema de quebras de expectativa que ultrapassa o mero chiste do seu trabalho anterior. No caso, a jornada do herói apresenta uma alteração na sua estrutura. Não é o caso de um protagonista que se depara com um mentor que vai aos poucos lhe despertar o seu melhor, os seus grandes poderes para derrotar o inimigo. Pelo menos, não na maneira como histórias aventurescas comuns costumam fazer. Shigeo tem um poder imenso, inato, vemos ao longo dos episódios que o drama que ronda as batalhas é absolutamente protocolar. Ele vence seus inimigos com facilidade chegando em seu potencial máximo dos seus poderes psíquicos. Mas, na sua vida de jovem, estudante apaixonado, seus super-poderes não valem nada. Há um vão enorme entre psíquico e psicológico, embora a raiz seja a mesma.

Mob recorre a Reigen acertadamente. Ele é perfeitamente o mestre que o menino precisa, alguém que seja capaz de jogar com a realidade. Caberia aqui a polissemia do verbo to play em inglês. São raros os momentos em que o charlatão se depara com situações que não possam ser resolvidas com as suas habilidades sociais. Até mesmo no frenesi dos últimos episódios, tudo é resolvido com simplicidade, com mera persuasão. E quando há elementos sobrenaturais, isso acontece sem escândalo, sem artifícios. Com os pés fixos no mundo real, trajando seu terno, Reigen materializa seu ceticismo. Esta incredulidade porém, não chega com traços de pura enganação, afinal, seus clientes saem satisfeitos. Reigen, em sua maturidade, com suas ações simples e concretas (o diálogo, as massagens, os retoques no Photoshop) faz exorcismos nada espirituais. Esse é objetivo de Mob.

O garoto da “mob” (multidão, em inglês) aceita seu apelido com gosto porque é consciente de que ele não é nenhum “escolhido”, desejando cada vez mais ser um garoto normal e inteligente como seu irmão mais novo, Ritsu. O caçula, por sua vez, cresceu com grandes frustrações por não possuir os poderes dos irmãos, o que deságua em um dos micro-dramas paralelos da série. É o mesmo tormento dos pequenos poderes que sobem à cabeça do representante da escola (que arma provas falsas contra estudantes dos quais ele não gosta) e como de todo membro da Garra, organização que pretende dominar o mundo. Esse evidente deslocamento social reflete-se desde os mais jovens, até os velhos, com destaque para o líder da 7ª Divisão.

Ele é, em todos os aspectos, um símbolo do complexo de inferioridade: não aceita sua identidade de idoso com seu traje preto, a máscara e a modulação de voz, além de ser nanico, desdentado e infantil – tem algo do desamparo da crianças idosas de Akira. Não consegue simplesmente aceitar que mostrar-se superior através de sua máscara não altera seu caráter imaturo. É o mesmo complexo que afeta os outros palhaços sociopatas da organização maléfica e que acabam derrotados pelos heróis.

Talvez a grande dificuldade de Mob Psycho 100 seja desenvolver sua trama episodicamente, de maneira que não termine como um amontoado de retalhos. Tanto os pequenos como os grandes núcleos da série ganham um fecho digno, mas alguns aspectos se tornam acessórios, ou meros reforços, em de um objetivo maior, muito claro nos últimos episódios da série.

Felizmente, o trabalho do estúdio Bones, responsável, entre outros, por animes como Fullmetal Alchemist: Brotherhood e Soul Eater, em termos visuais é soberbo. É uma mescla muito interessante do estilo menos caprichado do mangá de One (já mais trabalhado que em One-Punch Man) com um estilo mais padronizado. Mistura-se a animação rotineira com artes feitas a dedo – como o encerramento –, demonstrando seu excelente apuro visual.

Que venha a segunda temporada, ainda mais caprichada que esta, aproximando grandes temas como poder, identidade e controle de outras perspectivas. Shigeo ainda tem muito a aprender, assim como todos nós.

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Publicado por Henrique Artuni

Estudante de jornalismo, cinéfilo e crítico de cinema. É também editor de arte da Revista Esquinas.

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