Um Zé Ninguém Contra Putin faz registro da guerra de propaganda em tempo real
Pavel Talankin era um professor de ensino médio vivendo numa remota e altamente poluída cidade do interior da Rússia com uma vida pacata e solitária. Até que Putin resolveu invadir a Ucrânia e usar o sistema educacional para promover a guerra e sua agenda política, usando para isso as escolas e os próprios alunos. Pavel […]

Pavel Talankin era um professor de ensino médio vivendo numa remota e altamente poluída cidade do interior da Rússia com uma vida pacata e solitária. Até que Putin resolveu invadir a Ucrânia e usar o sistema educacional para promover a guerra e sua agenda política, usando para isso as escolas e os próprios alunos. Pavel ficou inconformado em ser usado como massa de manobra e passou a gravar vídeos sarcásticos, o que chamou a atenção do diretor de documentários David Borenstein. É da reunião desses dois que surgiu Um Zé Ninguém Contra Putin, vencedor do Oscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem em 2026.
A política de Putin repete rotinas vistas antes em regimes autoritários na Alemanha, China e na própria Rússia: culto à personalidade do líder, desinformação sobre fatos que estão acontecendo, demonização dos inimigos e ostracismo para dissidentes – mesmo os aparentemente inofensivos, como Pavel. Não demora para que a resistência pacífica do professor chame atenção do aparelho repressor do estado, e um clima de paranoia se instala.
O documentário conquista pela urgência e simplicidade e vale menos pela forma que é realizado que pela presença num espaço e num momento da História: é o olhar privilegiado de quem é capturado pelos acontecimentos. As cenas falam por si mesmas: há pouco discurso ideológico (quase nenhum, na verdade). Não é complicado compreender o que acontece: a lavagem cerebral de crianças sob o olhar leniente de adultos – já vimos isso acontecer tantas vezes antes, com resultados sempre trágicos, e agora se repete, e não há nada a ser feito, exceto esperar pelo pior. Qual a extensão do mal provocado pela religião do estado? Quantas entre aquelas crianças irão em algum momento da vida superar o proselitismo enfiado pela garganta num momento da vida em que elas não têm nenhum instrumento para se defender? E, ainda pior: quais entre os rapazes escaparão de um destino incerto numa guerra difícil de justificar?
É interessante ressaltar a diferença entre Um Zé Ninguém Contra Putin e seu concorrente ao Oscar, A Vizinha Perfeita, que é altamente manipulatório e voluntariamente parcial: este escolhe um “vilão” para combinar com sua narrativa, coisa que seria muito fácil para o documentário russo fazer também. Mas o filme de Pavel é muito mais sutil, delicado, evitando o sentimentalismo quando esta seria a abordagem óbvia. Sua escolha é em deixar que o espectador reflita, preencha lacunas, reaja segundo sua consciência. Este mérito é inegável, especialmente quando a indústria audiovisual é dominada por uma cultura prática de artifícios, truques intermináveis, armadilhas formais que sufocam a audiência com agendas, tópicos esgotados, fórmulas repetidas e uma avalanche de autorreferências.
A direção não se aprofunda em nenhum caráter “investigativo” que um documentário como este poderia assumir. Sua força está na presença, e não na elaboração. A maior parte do tempo, Pavel parece perdido, uma vítima dos acontecimentos. Quando a situação aperta, o filme se encerra. O “espírito do tempo” é muito mais forte que a ação individual, e esta é uma das lições que o documentário explicita. Resta pouco heroísmo quando a estupidez torna-se coletiva. A desconfiança impera e o estado coloca vizinhos contra vizinhos. Todos passam a ser suspeitos de crimes imaginários. Conforme escreveu certa vez o escritor inglês Samuel Johnson, o patriotismo é o último refúgio dos canalhas.
O filme é curto e não precisa de muitas ferramentas para fazer um retrato atual, sombrio e emocionalmente equilibrado da sociedade russa e seus personagens folclóricos, frutos confusos da queda do comunismo e nostálgicos de uma grandeza épica perdida. O professor stalinista que rivaliza discretamente com Pavel e acaba premiado (literalmente) pelo regime por sua fidelidade bovina sintetiza essa confusão ideológica, a ingenuidade perversa da multidão sedenta por “mitos” do passado, um tipo simplório mas que acaba despertando compaixão exatamente por sua falta de conexão com a realidade.
Para os brasileiros, um detalhe que chama atenção no filme é como mesmo uma escola de cidade empobrecida e ultrapoluída de um país cujo PIB per capita é apenas ligeiramente superior ao brasileiro consegue parecer muito mais organizada e limpa que os colégios públicos do Brasil. Alguns povos não precisam de guerra nenhuma para destruir a si mesmos.