Críticas

Review | Fire Emblem Fortune’s Weave é o RPG tático mais ambicioso da série

Fire Emblem Fortune's Weave impressiona com quatro histórias entrelaçadas e combate refinado, mas a escala gigantesca cobra seu preço no ritmo.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
10 min de leitura

A Intelligent Systems parece ter decidido, de uma vez por todas, provar que Fire Emblem não precisa escolher entre ser um simulador social ou um jogo tático puro. Depois de Three Houses ter apostado pesado na primeira vertente e Engage ter voltado às raízes da segunda, Fortune’s Weave tenta abraçar as duas ao mesmo tempo, numa escala que nenhum jogo anterior da franquia havia ousado tentar.

Lançado exclusivamente para Switch 2, o décimo oitavo capítulo principal da série se passa no continente de Dagda, ao sul de Fódlan, território já conhecido por quem jogou Three Houses. É um jogo gigantesco, generoso e por vezes cansativo justamente por causa dessa generosidade.

Uma premissa que mistura fantasia antiga com ficção científica

A trama começa num futuro sombrio, com o mundo à beira do colapso sob o avanço do deus demoníaco Balor. Nesse cenário desesperador surge Eshmel, o avatar criado pelo jogador, que ganha uma segunda chance de mudar o curso da história.

Coube a Eshmel a tarefa de alterar esse destino, retrocedendo até a época em que os quatro futuros heróis ainda disputavam prêmios e reconhecimento numa competição organizada pela coroa de Dagda. É ali que os Senhores da Chama, ainda anos antes de se tornarem figuras decisivas na guerra futura, competem por um desejo concedido pelo vencedor.

O jogador sabe, desde o início, algo que nenhum dos quatro protagonistas ainda sabe: o peso que cada um deles vai carregar no futuro. É esse desequilíbrio de informação, não a costumeira revelação tardia de um mistério, que sustenta boa parte da tensão da narrativa mesmo nos capítulos mais tranquilos.

Quatro heróis, quatro guerras pessoais

Cai chega aos Jogos numa missão simples na aparência: vencer o suficiente para negociar a soltura do pai, detido pelas autoridades de Dagsion. É o mais convencional dos quatro protagonistas, e justamente por isso funciona bem como porta de entrada para quem está conhecendo o elenco pela primeira vez.

Dietrich vem de terras estrangeiras e chegou a Dagda praticamente por acidente. Para ele, o torneio nunca foi sobre resgatar ninguém ou provar um ponto específico: é, antes de tudo, uma chance de medir sua espada contra os nomes mais fortes que conseguir encontrar pelo caminho.

Como rainha de Saramis, Theodora não tem o luxo de separar ambição pessoal de dever político: cada aliança fechada ou recusada nos Jogos reverbera diretamente na estabilidade do próprio reino. Isso torna suas decisões visivelmente mais cautelosas que as dos outros três.

O caminho de Leda nasce de uma perda específica. Ela cria a expectativa de uma vida tranquila dedicada à música até o dia em que descobre, por acaso, que o responsável pela morte do pai estará entre os nomes inscritos no torneio, e a partir desse ponto sua história vira essencialmente uma contagem regressiva até o confronto.

O grande acerto de design aqui é que nenhuma dessas quatro histórias é obrigatória na ordem em que é jogada. A Câmara dos Obeliscos funciona como um ponto de troca: dali, dá para deixar de lado o herói atual e assumir outro, retomando exatamente de onde havia parado quando quiser voltar.

Isso significa que dá para acompanhar as quatro narrativas quase em paralelo, observando os mesmos eventos globais sob perspectivas diferentes. Alguns momentos se repetem entre os caminhos, já que compartilham uma linha do tempo comum, mas a forma como cada rota reage a esses eventos muda o suficiente para não parecer cópia.

Review | Fire Emblem Fortune's Weave é o RPG tático mais ambicioso da série
Reprodução

Combate: o coração que ainda bate forte

As batalhas mantêm a fórmula clássica de grade tática que definiu a série por décadas, mas com refinamentos genuínos. Posicionamento, tipo de arma, terreno e classe de cada unidade seguem influenciando o resultado de cada confronto de forma que recompensa planejamento cuidadoso.

O sistema de armas também recebeu atenção: cada categoria carrega vantagens táticas específicas dependendo do tipo de adversário enfrentado, recompensando quem estuda a composição do exército inimigo antes de montar sua formação. Não é mais um simples esquema circular de vantagens, mas algo que exige leitura constante do campo de batalha.

Artes de Combate continuam sendo movimentos especiais que consomem durabilidade da arma equipada, criando uma decisão tática real sobre quando vale a pena gastar esse recurso. Mais interessante ainda são as Artes Ardentes, habilidades exclusivas dos protagonistas que sacrificam pontos de vida do próprio personagem em troca de efeitos devastadores.

Cada um dos quatro protagonistas carrega uma assinatura visual e mecânica única nessas habilidades, moldadas para refletir sua personalidade e estilo de combate individual. Isso torna alternar entre eles uma experiência genuinamente distinta a cada troca, não apenas cosmética.

Existe também uma opção de retroceder alguns turnos dentro de uma mesma batalha caso um movimento saia terrivelmente errado. Não é uma rede de segurança ilimitada, e jogadores mais apegados à ideia de consequência permanente provavelmente vão evitar usá-la por princípio, mas em batalhas de escala maior a opção evita frustração desnecessária.

Mapas individuais frequentemente fogem da simples eliminação total de inimigos. Alguns exigem controlar pontos específicos do tabuleiro em vez de apenas derrotar unidades, outros impõem condições de derrota alternativas que mudam completamente como a equipe precisa ser posicionada e movimentada.

Masmorras: uma pausa bem-vinda no ritmo

Fora das batalhas em grade, o jogo ocasionalmente leva o jogador para masmorras exploradas em terceira pessoa, num estilo que lembra RPGs japoneses mais tradicionais. Ali você caminha livremente, procura tesouros e enfrenta inimigos num sistema de combate mais simples chamado Choques de Evento.

Nessas seções, o dano sofrido por qualquer membro do grupo afeta um recurso coletivo em vez de barras individuais, mudando completamente a lógica de risco em comparação às batalhas táticas principais. É um formato mais simplificado, mas que funciona bem como respiro entre confrontos maiores.

É possível até pular esses combates menores através de batalha automática, uma opção bem-vinda para quem já está satisfeito com o nível de sua equipe e só quer avançar mais rápido pela exploração. As masmorras não são o ponto alto do jogo, mas cumprem bem seu papel de variar o ritmo.

Review | Fire Emblem Fortune's Weave é o RPG tático mais ambicioso da série
Reprodução

Dagsion e o problema da abundância

A capital Dagsion funciona como centro social entre as batalhas principais, e é aqui que Fortune’s Weave revela sua ambição mais arriscada. Entre uma etapa do torneio e outra, há sempre algo para fazer: melhorar equipamentos, treinar unidades, cultivar relações com aliados em potencial ou simplesmente explorar cantos da cidade em busca de histórias secundárias.

Recrutar novos personagens raramente é tão simples quanto uma conversa. Muitas vezes exige presentear, compartilhar refeições, completar tarefas específicas ou atingir um determinado nível de relacionamento antes que o guerreiro decida se juntar à sua causa.

O tempo disponível fora da capital também não é infinito. Ultrapassar o prazo estabelecido para uma expedição pode custar caro: tarefas que dependiam de uma entrega dentro do prazo simplesmente somem do jogo, forçando quem quer completismo total a organizar cada saída com bem mais cuidado do que o esperado inicialmente.

Para quem gosta de microgerenciamento e imersão social, essa quantidade de sistemas interligados provavelmente vai parecer um tesouro de possibilidades. Para quem só quer avançar a história principal, pode começar a parecer uma lista de tarefas que precisa ser cumprida antes de chegar à parte realmente desejada.

Publicidade

Progressão de classes e um arsenal generoso

O sistema de classes foi dividido em três níveis de especialização, e avançar entre eles exige mais do que apenas pontos de experiência acumulados. Exames de certificação precisam ser realizados, e é perfeitamente possível falhar neles se o personagem não estiver devidamente preparado.

A variedade de classes disponíveis vai muito além dos arquétipos clássicos de cavaleiro e mago. Opções mais excêntricas aparecem conforme a história avança, cada uma trazendo uma abordagem tática ligeiramente diferente para o campo de batalha.

Armas, equipamentos, poções e manuais que ensinam habilidades específicas compõem um sistema de itens bastante rico. Há momentos em que o inventário pode ficar sobrecarregado de opções, mas isso raramente atrapalha de verdade a experiência geral.

Review | Fire Emblem Fortune's Weave é o RPG tático mais ambicioso da série
Reprodução

O fantasma da repetição

Aqui está a crítica mais consistente entre quem já mergulhou fundo em Fortune’s Weave: por mais que as quatro histórias sejam genuinamente diferentes em tom e motivação, uma quantidade considerável do conteúdo entre elas se repete. Algumas atividades paralelas soam praticamente idênticas independentemente de qual herói você está controlando no momento.

Existe também um sistema de reputação acumulada que atravessa as quatro campanhas, convertendo conquistas em vantagens permanentes que continuam valendo mesmo quando você muda de protagonista. Isso suaviza bastante o peso de recomeçar uma nova rota do zero, reduzindo a sensação de retrabalho.

Ainda assim, é inegável que completar as quatro jornadas por inteiro significa aceitar um grau real de redundância. As missões principais representam uma fração relativamente pequena do tempo total investido, com a maior parte das horas dedicada a atividades sociais e de preparo que se repetem em estrutura, se não em conteúdo específico.

Apresentação: nem tecnológica, mas com estilo próprio

Tecnicamente, Fortune’s Weave não vai impressionar quem busca uma vitrine das capacidades do Switch 2. O jogo roda a 30 quadros por segundo, e existem pop-ins perceptíveis de textura durante a exploração livre, além de alguns cenários com acabamento menos refinado que os personagens principais.

Onde o jogo compensa é na direção artística. As animações de batalha, especialmente durante Artes Ardentes e finalizações mais dramáticas, têm um nível de espetáculo visual que a série raramente havia alcançado antes.

A trilha sonora orquestral também merece elogio, alternando entre composições mais contemplativas para momentos de exploração e peças épicas que elevam consideravelmente a tensão das batalhas mais importantes. A dublagem completa, tanto em inglês quanto em japonês, reforça bem o peso dramático da narrativa.

Duração e um único slot de salvamento

Terminar apenas uma das quatro rotas leva algo entre vinte e trinta horas, dependendo de quanto tempo é investido em atividades secundárias. Completar as quatro campanhas inteiras pode facilmente ultrapassar cem horas, tornando Fortune’s Weave um dos jogos mais longos que a franquia já produziu.

Um ponto que já gerou debate entre a comunidade é a existência de apenas um único slot de salvamento na versão final. A equipe de desenvolvimento confirmou essa limitação em entrevista oficial, associando a decisão à necessidade de manter coerência entre as quatro linhas temporais que se cruzam constantemente ao longo da campanha.

É uma escolha que, ainda assim, limita a flexibilidade de quem gostaria de manter progressos separados para experimentar abordagens diferentes sem comprometer uma campanha já avançada.

Vale a pena?

Fire Emblem: Fortune’s Weave é, sem exagero, o jogo mais ambicioso que a série já produziu. Reúne quatro histórias genuinamente bem construídas, um sistema tático que continua entre os mais sólidos do gênero, e uma quantidade de conteúdo capaz de sustentar centenas de horas de jogo para quem quiser explorar tudo.

O preço dessa ambição é real: o ritmo sofre com a quantidade de sistemas interligados, existe repetição perceptível entre as quatro campanhas, e a interface de menus pode ficar sobrecarregada nas primeiras horas até que tudo comece a fazer sentido.

Mesmo assim, é difícil não recomendar Fortune’s Weave para quem gosta do gênero. Poucos RPGs táticos oferecem tanto conteúdo de qualidade por tanto tempo, e a Intelligent Systems prova, mais uma vez, que sabe exatamente o que faz uma batalha por turnos ser satisfatória. É um colosso que às vezes tropeça no próprio tamanho, mas que raramente deixa de ser envolvente.

Esta review foi realizada a partir de uma cópia do jogo para Nintendo Switch 2 gentilmente cedida pela Nintendo Brasil.

Compartilhar: Twitter Facebook WhatsApp
Membro do OpenCritic