Review | Castlevania: Belmont’s Curse – O Legado Continua
Drácula está de volta, e a Evil Empire recebeu a missão de provar que ainda existe espaço para a fórmula clássica de Castlevania.
Poucas franquias possuem uma identidade tão reconhecível nos videogames quanto Castlevania. Ao longo de décadas, a série ajudou a definir as bases das metroidvanias e construiu uma mitologia própria em torno dos Belmonts e de Drácula. Agora, Belmont’s Curse chega com uma escolha curiosa de desenvolvimento: a Evil Empire, estúdio que já demonstrou sua admiração pela franquia em Dead Cells.
Ambientado em Paris e repleto de referências a diferentes capítulos da série, o jogo procura equilibrar tradição e novidades. Com exploração clássica, combates mais dinâmicos e o retorno de Drácula, será que a Evil Empire consegue fazer justiça ao legado de Castlevania?
Um Metroidvania com a Identidade de Castlevania

Existe uma ironia interessante na escolha da Evil Empire para desenvolver Castlevania: Belmont’s Curse. O estúdio ficou conhecido por trabalhar em Dead Cells, um jogo que bebeu diretamente da fonte de Castlevania para construir sua própria identidade.
Agora, a equipe tem a oportunidade de trabalhar oficialmente com uma das principais referências que ajudaram a inspirar seu sucesso. É um movimento que também lembra uma tendência recente da Konami.
A empresa parece interessada em entregar suas franquias a estúdios que já demonstraram afinidade com elas. Foi o caso da Bloober Team, responsável pelo remake de Silent Hill 2, desenvolvedora que também construiu boa parte de sua identidade a partir de influências do terror psicológico.
Com Belmont’s Curse, a escolha faz sentido. A Evil Empire conhece bem a estrutura de exploração, combate e progressão que tornou Castlevania uma referência tão importante para os jogos de ação em duas dimensões.
O resultado parte de uma estrutura bastante familiar para quem acompanha o gênero. Estamos diante de uma metroidvania, modelo que ganhou uma de suas principais expressões em Castlevania: Symphony of the Night.
A exploração acontece em um mapa interconectado, com caminhos que inicialmente permanecem inacessíveis. Em determinados momentos, encontramos passagens que exigem uma habilidade específica, um item ou a derrota de um chefe para serem liberadas.
Essa estrutura cria uma relação interessante com o próprio espaço. Uma área aparentemente secundária pode se tornar fundamental algumas horas depois, quando adquirimos uma habilidade que permite alcançar lugares antes impossíveis.
É uma fórmula conhecida, mas que continua funcionando justamente porque transforma a exploração em parte essencial da progressão. Não avançamos apenas derrotando inimigos. Também precisamos compreender a organização do castelo e identificar quais caminhos ainda podem ser explorados.
A sensação de descobrir uma passagem escondida ou retornar a um cenário conhecido com novas possibilidades é um dos principais atrativos da experiência.
Naturalmente, isso exige alguma paciência. Quem não gosta de retornar a áreas anteriores ou de procurar caminhos que passaram despercebidos pode encontrar momentos de maior lentidão.
Por outro lado, essa estrutura ajuda a dar personalidade à aventura. O cenário não funciona apenas como uma sequência de corredores que levam de um chefe ao outro. Ele é um espaço que precisa ser compreendido e conquistado gradualmente.
Uma diferença interessante aparece no sistema de combate. Em vez de depender exclusivamente de ataques isolados, Belmont’s Curse permite combinar golpes e construir sequências de ataques.
Isso acrescenta uma camada de dinamismo aos confrontos. O jogador pode experimentar combinações e encontrar maneiras diferentes de lidar com os adversários, em vez de simplesmente repetir o mesmo movimento durante toda a aventura.
A variedade de armas também contribui para essa sensação. Lanças, espadas, chicotes e outros equipamentos oferecem possibilidades distintas de combate.
O chicote, evidentemente, ocupa um lugar especial nessa identidade. Trata-se de uma das imagens mais reconhecíveis da franquia, mas a presença de outras armas ajuda a evitar que toda a experiência fique limitada a uma única maneira de enfrentar os inimigos.
Essa diversidade é importante porque o jogo trabalha com adversários de características diferentes. Alguns confrontos exigem mais atenção ao posicionamento, enquanto outros pedem uma abordagem mais agressiva.
A possibilidade de combinar golpes também ajuda a manter os combates movimentados. Existe uma diferença entre simplesmente encontrar um inimigo no caminho e precisar entender como enfrentá-lo.
Os chefes representam outro elemento importante dessa estrutura. Além de funcionarem como obstáculos à progressão, eles ajudam a estabelecer momentos de maior intensidade dentro da exploração.
A variedade de adversários, chefes e áreas dá a impressão de uma aventura que procura manter o jogador em constante contato com situações diferentes. Isso é fundamental em um gênero no qual a repetição pode se tornar um problema.
Ainda assim, a familiaridade da fórmula não deve ser confundida com ausência de identidade. Belmont’s Curse parece compreender que não precisa reinventar a metroidvania para justificar sua existência.
Sua proposta está em recuperar elementos que definiram a franquia e combiná-los com uma estrutura de combate mais dinâmica. É uma maneira interessante de aproximar a experiência dos jogos clássicos sem simplesmente reproduzir suas limitações.
O Prazer de explorar

A ambientação também merece atenção porque, em uma metroidvania, os cenários precisam cumprir mais de uma função. Eles devem apresentar desafios, orientar a exploração e, ao mesmo tempo, construir uma identidade visual capaz de sustentar toda a aventura.
Nesse aspecto, Belmont’s Curse trabalha com uma estética que conversa diretamente com a tradição de Castlevania. A arquitetura, os ambientes sombrios e a presença de criaturas sobrenaturais ajudam a estabelecer uma atmosfera familiar.
Existe um prazer particular em percorrer espaços que parecem esconder alguma coisa. Corredores, salões e passagens não funcionam apenas como caminhos entre uma batalha e outra.
Eles fazem parte da própria experiência de descoberta. A possibilidade de encontrar uma sala secreta ou perceber que determinado obstáculo poderá ser superado mais adiante incentiva o jogador a observar melhor os cenários.
A ambientação também ajuda a diferenciar as áreas. Em uma aventura desse tipo, seria muito fácil cair na repetição de corredores escuros e salões com a mesma aparência.
A variedade de ambientes contribui para que a exploração não pareça apenas uma sucessão de espaços intercambiáveis. Cada nova região precisa despertar alguma curiosidade, seja pela arquitetura, pelos inimigos encontrados ou pelos desafios apresentados.
Outro aspecto importante é a relação entre o visual e o combate. Os adversários não parecem existir apenas para preencher o caminho até o próximo objetivo.
A presença de diferentes criaturas ajuda a reforçar a sensação de que estamos atravessando um universo sobrenatural. Isso combina com a tradição da série, que sempre encontrou parte de sua força na mistura de referências góticas, monstros clássicos e fantasia sombria.
É justamente nesse ponto que a escolha da Evil Empire parece particularmente adequada. O estúdio já demonstrou em Dead Cells familiaridade com a construção de ambientes que incentivam a exploração e com combates que exigem domínio dos movimentos.
Em Belmont’s Curse, essa experiência encontra um universo que já possui uma identidade muito bem estabelecida. Não é necessário ensinar ao jogador o que significa entrar em um castelo repleto de criaturas, armadilhas e passagens secretas.
A franquia oferece esse repertório há décadas. O desafio está em transformar esses elementos em uma aventura que pareça contemporânea, sem perder aquilo que tornou Castlevania reconhecível.
A combinação entre exploração metroidvania, variedade de armas, possibilidade de combinar ataques e diversidade de inimigos aponta justamente nessa direção.
O jogo também se beneficia de não abandonar a importância do cenário. Em vez de tratar a ambientação como um simples pano de fundo para os combates, ela participa diretamente da progressão e da construção da experiência.
No fim, a jogabilidade parece encontrar seu principal mérito no equilíbrio entre tradição e atualização. A estrutura de exploração remete diretamente a Symphony of the Night, enquanto o combate apresenta possibilidades que ajudam a dar mais movimento aos confrontos.
A Evil Empire tem uma relação curiosa com essa franquia. Depois de desenvolver um dos jogos modernos mais influenciados por Castlevania, agora assume a responsabilidade de trabalhar diretamente com esse legado.
E essa escolha parece fazer sentido. Belmont’s Curse não precisa provar que inventou uma nova maneira de fazer metroidvanias. Precisa demonstrar que ainda existe espaço para uma aventura clássica de Castlevania, com personalidade própria e sistemas de combate capazes de dialogar com o público atual.
O Retorno de Drácula e o Legado de Castlevania

Uma das coisas mais interessantes de Castlevania: Belmont’s Curse é a maneira como sua narrativa parece dialogar com diferentes momentos da franquia. Em vez de construir uma aventura completamente isolada, o jogo recupera elementos de uma mitologia que foi desenvolvida ao longo de décadas.
As referências a Castlevania III: Dracula’s Curse, Castlevania: Curse of Darkness e Castlevania: Lament of Innocence são particularmente interessantes. São jogos que ajudaram a estabelecer diferentes aspectos do universo da série, seja pela importância da linhagem Belmont, pela presença de Drácula ou pela construção de uma mitologia que ultrapassa a simples oposição entre humanos e criaturas sobrenaturais.
Essa conexão com o passado dá à história uma dimensão especial. Para quem acompanha a franquia há algum tempo, não se trata apenas de enfrentar mais uma ameaça sobrenatural. Existe uma expectativa sobre como os acontecimentos e personagens se relacionam com aquilo que já conhecemos.
O retorno de Drácula é, naturalmente, um dos pontos centrais dessa expectativa. Afinal, poucos antagonistas dos videogames possuem uma presença tão associada à identidade de uma franquia. Sua figura atravessa diferentes gerações de Castlevania e funciona quase como uma força histórica que insiste em retornar.
A presença do personagem também coloca a narrativa diante de um desafio. Como apresentar novamente uma ameaça tão conhecida sem transformar a história em uma repetição dos conflitos anteriores? A franquia já explorou diversas vezes a relação entre Drácula e os Belmonts, portanto, existe uma necessidade de encontrar novos caminhos dentro de uma mitologia bastante estabelecida.
É justamente por isso que as referências a Dracula’s Curse e aos jogos posteriores despertam curiosidade. Elas ajudam a situar Belmont’s Curse dentro de uma tradição narrativa, mas também criam expectativas sobre a maneira como o jogo pretende desenvolver sua própria história.
Lament of Innocence, por exemplo, é particularmente importante para a mitologia da série por explorar elementos fundamentais da origem do conflito entre os Belmonts e Drácula. Já Curse of Darkness amplia esse universo ao trabalhar com as consequências de acontecimentos anteriores e com personagens que não se encaixam tão facilmente na divisão entre heróis e vilões.
A aproximação com esses títulos faz com que Belmont’s Curse tenha uma relação interessante com a memória da franquia. Não é necessário conhecer cada detalhe dos jogos anteriores para compreender a ameaça apresentada, mas quem possui esse repertório certamente encontrará mais elementos para apreciar.
Isso também ajuda a diferenciar a experiência de uma aventura que utilizasse apenas o nome Castlevania. Existe uma preocupação em dialogar com a história da série, recuperar referências e fazer com que o passado tenha alguma importância para o presente.
Paris, História e a construção do Horror

Outro aspecto que chama atenção é a escolha de Paris como cenário. A franquia já explorou diferentes períodos históricos e localidades, mas a utilização da capital francesa oferece possibilidades particularmente interessantes para a construção de sua atmosfera.
Paris possui uma identidade histórica e arquitetônica muito forte. Suas igrejas, construções antigas, ruas e monumentos carregam uma memória que combina perfeitamente com o universo gótico de Castlevania.
A escolha também permite estabelecer uma relação entre a fantasia sobrenatural e acontecimentos históricos reais. A história francesa é marcada por conflitos políticos, transformações sociais e episódios de violência que podem servir como referências para uma narrativa de horror.
Esse encontro entre história e fantasia é algo que combina com a própria tradição da franquia. Castlevania frequentemente utiliza personagens, figuras históricas e elementos da cultura europeia como parte de seu imaginário. O resultado é um universo no qual referências reconhecíveis convivem com monstros, maldições e acontecimentos sobrenaturais.
No caso de Paris, existe ainda uma oportunidade de explorar uma cidade que possui uma relação muito particular com a religião e a arquitetura medieval. Catedrais, construções antigas e espaços urbanos carregados de história ajudam a criar uma atmosfera que parece naturalmente adequada ao retorno de Drácula.
A ambientação não precisa depender exclusivamente de castelos para transmitir a identidade de Castlevania. Uma cidade como Paris também pode funcionar como espaço de horror, especialmente quando suas construções e sua história são incorporadas à narrativa.
É interessante pensar nessa escolha porque ela amplia o imaginário da série. O universo de Castlevania não precisa estar permanentemente limitado aos corredores de um castelo. A ameaça sobrenatural pode invadir espaços urbanos, transformar lugares conhecidos e estabelecer uma relação diferente entre o jogador e o mundo apresentado.
As referências à história da França também ajudam a dar personalidade à aventura. Existe uma diferença entre utilizar uma cidade europeia apenas como cenário bonito e incorporá-la à identidade narrativa do jogo. Quando a ambientação conversa com acontecimentos históricos e elementos culturais reconhecíveis, ela deixa de ser somente uma escolha estética.
Nesse sentido, Paris oferece um terreno bastante fértil para a série. A cidade possui uma imagem internacionalmente reconhecida, mas também uma história suficientemente complexa para permitir diferentes interpretações dentro de uma narrativa fantástica.
O mais interessante é que essa escolha parece conversar com a própria proposta de recuperar a mitologia de Castlevania. De um lado, temos Drácula e a tradição dos Belmonts, elementos fundamentais da identidade da franquia. Do outro, uma ambientação histórica que permite apresentar esse conflito sob uma perspectiva diferente.
Essa combinação ajuda a criar uma expectativa que vai além da simples nostalgia. As referências aos jogos anteriores funcionam como uma conexão com o passado, enquanto Paris oferece a possibilidade de desenvolver uma aventura com identidade própria.
No fim, a história de Belmont’s Curse desperta interesse justamente por trabalhar com duas dimensões importantes de Castlevania. A primeira é a continuidade de sua mitologia, especialmente com o retorno de Drácula e as referências a jogos fundamentais da franquia. A segunda é a utilização de um contexto histórico e geográfico capaz de renovar a apresentação desse universo.
Para uma série que já explorou tantas vezes o confronto entre os Belmonts e o senhor das trevas, encontrar novas maneiras de apresentar esse conflito é fundamental. E a combinação entre a memória da franquia e a ambientação parisiense oferece uma direção bastante promissora.
Conclusão
Na jogabilidade, Belmont’s Curse encontra força em sua estrutura metroidvania, na variedade de armas e na possibilidade de combinar ataques. A exploração remete diretamente a Symphony of the Night, enquanto o combate oferece alternativas para tornar os confrontos mais dinâmicos. A variedade de inimigos, chefes e ambientes também ajuda a sustentar a aventura.
Na história, o retorno de Drácula e as referências a jogos como Dracula’s Curse, Curse of Darkness e Lament of Innocence reforçam a conexão com a mitologia da franquia. A ambientação em Paris acrescenta personalidade ao conjunto, especialmente pela possibilidade de incorporar elementos da história francesa ao horror gótico. A Evil Empire parece compreender o legado que recebeu e apresenta uma aventura que tem potencial para agradar tanto aos veteranos quanto a quem deseja conhecer Castlevania.
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