Crítica | Klara e o Sol não é um desastre e nem uma obra-prima

Klara e o Sol tem carisma de Jenna Ortega e boas ideias, mas perde força na falta de profundidade e nas mudanças de tom.

Daniel Moreno
Daniel Moreno 9 min de leitura

É raro, mas acontece quase toda semana: um filme começa a ser destruído pela opinião pública antes mesmo de boa parte das pessoas ter a oportunidade de assisti-lo. Klara e o Sol é mais um desses casos. A recepção tem sido tão hostil que parece até que o próprio estúdio não confia muito no produto que colocou no mercado.

Mas será que essa avaliação é justa ou estamos diante de mais um exagero? Porque os exageros têm acontecido para os dois lados. Filmes comuns são proclamados obras-primas precocemente, enquanto outros, igualmente comuns, são descartados como se fossem catástrofes cinematográficas. Precisamos de algum equilíbrio.

Klara e o Sol não é uma obra-prima. Mas está longe de ser o desastre que algumas pessoas estão dizendo, inclusive sem sequer terem visto o filme.

Taika Waititi adapta Kazuo Ishiguro entre fantasia e drama

Dirigido por Taika Waititi, o mesmo cineasta de Jojo Rabbit e Thor: Ragnarok, o longa é uma adaptação do romance homônimo de Kazuo Ishiguro, escritor britânico de origem japonesa e vencedor do Nobel de Literatura em 2017. O roteiro foi escrito pelo próprio Waititi em parceria com Dahvi Waller. No elenco, temos Jenna Ortega, Amy Adams, Mia Tharia, Aran Murphy, Natasha Lyonne e Steve Buscemi.

Logo nos primeiros minutos, percebemos que estamos diante de uma história que já vimos em outras ocasiões. E não apenas no cinema de ficção científica.

O romance mais conhecido de Ishiguro entre os espectadores de cinema provavelmente é Não Me Abandone Jamais, adaptado em 2010 por Mark Romanek, com Carey Mulligan, Keira Knightley e Andrew Garfield. É um filme muito superior a Klara e o Sol, embora essa comparação precise ser contextualizada. Afinal, estamos falando de uma produção de 2010, quando a indústria cinematográfica ainda entregava, com mais frequência, filmes adultos, dramáticos e dispostos a lidar com temas difíceis sem transformar tudo em entretenimento açucarado.

E isso não é um problema exclusivo de Klara e o Sol. É um problema mais amplo do cinema contemporâneo.

Enquanto Não Me Abandone Jamais desenvolve sua premissa como um drama sombrio e relativamente realista, Klara e o Sol cede à tentação de transformar sua história em uma espécie de conto de fadas futurista. Temos fantasia, situações engraçadinhas e aquelas piscadelas para o espectador que parecem obrigatórias em boa parte das produções atuais. É como se todo filme precisasse ter um pouco de Deadpool, mesmo quando a história não pede nada disso.

Klara e o Sol não escapa inteiramente dessa tendência, mas também não é um dos piores exemplos. A trama original ainda prevalece, e existe uma história interessante por trás das brincadeiras e dos momentos de leveza.

A amizade entre Klara e Josie explora os limites da humanidade

A premissa é relativamente simples. Estamos em um futuro próximo, com características distópicas, no qual famílias podem comprar robôs concebidos para fazer companhia aos seres humanos. São os chamados Amigos Artificiais.

Klara, interpretada por Jenna Ortega, é uma dessas máquinas. Ela passa um período exposta em uma loja, à espera de alguém que a escolha. Quando conhece Josie, uma adolescente interpretada por Mia Tharia, as duas estabelecem rapidamente uma ligação. Josie convence a mãe, Chrissie, vivida por Amy Adams, a levá-la para casa.

A partir daí, acompanhamos a adaptação de Klara à rotina da família e o desenvolvimento de sua amizade com a garota.

Estamos, portanto, diante de uma tradição bastante conhecida da ficção científica: a história do robô que aprende a compreender os seres humanos – e que, de alguma maneira, parece adquirir aquilo que costumamos chamar de coração.

É uma tradição que passa por Blade Runner, de Ridley Scott, e chega a filmes mais recentes, como Acompanhante Perfeita, além de dialogar, em outro registro, com O Mágico de Oz. São obras muito diferentes entre si, mas todas permitem alguma reflexão sobre a identidade, a aparência, os sentimentos e a nossa necessidade de encontrar humanidade nos outros.

O problema é que uma premissa interessante não garante, por si só, um filme igualmente interessante.

Klara e o Sol também aborda amizade feminina, aceitação, bullying, solidão e a dificuldade de lidar com a perda. São temas legítimos, mas que o cinema já explorou inúmeras vezes. O filme raramente encontra uma perspectiva nova ou aprofunda essas questões de maneira particularmente reveladora.

A amizade entre Klara e Josie é o centro emocional da narrativa. Queremos acompanhar as descobertas da robô, observar suas reações e entender como ela interpreta um mundo que não consegue compreender inteiramente. Há momentos tocantes nesse processo. O problema é que o filme quase sempre se limita a isso.

Jenna Ortega sustenta o interesse em Klara e o Sol

E aqui entra uma de suas maiores vantagens: Jenna Ortega.

O filme depende bastante do carisma da atriz, e ela tem uma presença de tela muito particular. Seu rosto é extremamente expressivo, mas também possui uma singularidade que faz com que ela se destaque mesmo quando interpreta uma personagem artificial, obrigada a observar os seres humanos e reproduzir comportamentos que não compreende completamente.

Ortega consegue sustentar o interesse em Klara mesmo quando o roteiro não oferece material suficiente para que a personagem se desenvolva em profundidade. É uma atuação que dá vida a uma figura que poderia facilmente se transformar em um conjunto de gestos mecânicos e reações previsíveis.

O problema é que os demais personagens não possuem o mesmo magnetismo. A mãe é frequentemente desagradável, Josie nem sempre desperta o interesse que deveria, e o namorado da garota tem uma presença pouco expressiva. Falta ao filme um conjunto de personagens suficientemente interessantes para estabelecer um contraste com sua protagonista robótica.

Por isso, passamos boa parte da projeção acompanhando as peripécias de Klara. Queremos saber o que ela fará, como reagirá a determinada situação e o que conseguirá compreender sobre as pessoas ao seu redor. Isso funciona até certo ponto. É interessante, às vezes emocionante, mas não chega muito além disso.

O visual tem identidade, mas a mudança de tom enfraquece a emoção

Visualmente, o longa tem qualidades. A fotografia e o desenho de produção constroem um futuro que não parece inteiramente tecnológico, frio e metálico. Existe uma combinação de elementos modernos com uma estética quase vintage, como se o futuro tivesse sido imaginado a partir de referências do passado. É uma escolha interessante, que ajuda a conferir identidade ao universo do filme.

E, como a duração é de menos de duas horas, a experiência não chega a ser exaustiva. O problema mais evidente está em outro lugar: no tom.

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O filme começa quase como uma comédia, com situações leves e um humor que procura tornar Klara simpática ao público. Aos poucos, porém, a narrativa se torna mais pesada, melancólica e pessimista. O ato final assume uma gravidade que contrasta bastante com a leveza dos primeiros momentos.

Isso também acontecia em Não Me Abandone Jamais, mas ali havia uma diferença fundamental: desde o início, percebíamos que estávamos diante de um drama. A narrativa não precisava passar tanto tempo nos convencendo de que aquela era uma fantasia simpática para, depois, nos confrontar com suas implicações mais dolorosas.

Em Klara e o Sol, essa transição parece menos orgânica. A primeira parte flerta com uma fantasia despretensiosa, por vezes até tola, que tem a profundidade de um comercial engraçadinho de televisão. Depois, o filme tenta se tornar filosófico, triste e existencialista.

Não é que uma obra não possa misturar humor e drama. Evidentemente, pode. O problema é quando esses elementos parecem pertencer a filmes diferentes, unidos sem que exista uma progressão emocional suficientemente convincente.

O resultado é uma experiência estranha. O filme tem momentos de emoção e reflexão, mas também deixa uma sensação de desconforto que talvez explique parte da rejeição que vem recebendo.

É importante dizer que um filme não precisa proporcionar conforto ao espectador. Algumas das melhores obras da história do cinema são perturbadoras, desagradáveis ou profundamente tristes. Mas existe uma diferença entre provocar deliberadamente um sentimento e simplesmente não conseguir estabelecer uma relação coerente com o público.

E talvez seja justamente aí que Klara e o Sol tropece. Ele não consegue decidir se quer ser uma fantasia delicada sobre amizade e afeto, uma comédia sobre uma robô tentando compreender os seres humanos ou um drama existencial sobre a fragilidade da vida. Em vez de aprofundar a tensão entre essas possibilidades, acaba oscilando entre elas.

Um filme irregular que merece uma avaliação além dos extremos

Ainda assim, não considero o filme ruim. É esquisito, um pouco confuso e irregular, mas possui qualidades reais. A atuação de Jenna Ortega sustenta boa parte da narrativa, a fotografia é interessante e há momentos capazes de provocar alguma emoção. Não é pouco.

Também é preciso considerar o contexto em que essa produção chega às telas. O nível médio do cinema comercial contemporâneo não é exatamente motivo de entusiasmo. Diante disso, afirmar que Klara e o Sol não merece encontrar seu espaço no mercado é um exagero. O filme merece, sim, ser visto e discutido.

Está na média do cinema industrial que vem sendo produzido atualmente. Talvez esteja um pouco acima dela. Mas isso não significa que devamos confundir competência com excelência.

O fato de um filme não ser um desastre não o transforma em uma obra-prima. E reconhecer suas qualidades não exige fechar os olhos para seus problemas.

Klara e o Sol tem uma boa premissa, uma protagonista carismática e algumas ideias interessantes sobre a humanidade, a amizade e a nossa necessidade de estabelecer vínculos. Mas falta profundidade para que essas ideias sejam realmente desenvolvidas, e falta unidade tonal para que o conjunto alcance a força dramática que pretende.

Talvez o filme seja melhor do que seus detratores admitem. Certamente, não é tão bom quanto poderia ser.

E essa é a conclusão: não estamos diante de uma obra-prima injustiçada, nem de uma catástrofe cinematográfica. Estamos diante de um filme irregular, com qualidades e defeitos bastante claros.

No cenário atual, isso talvez seja suficiente para colocá-lo um pouco acima da média. Mas não é suficiente para transformá-lo em cinema de primeiro nível.

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