Crítica | Cara-de-Barro falha em alcançar o status de alto cinema de Coringa
Filme de terror da DC que falha em alcançar o status de alto cinema, deixando de confiar em sua premissa inicial interessante.
O que faz filmes como a trilogia de Batman, dirigida por Christopher Nolan, e o primeiro Coringa, de Todd Phillips, serem tão superiores a tantas outras adaptações de histórias em quadrinhos para o cinema?
Não existe uma única resposta. É um conjunto de decisões de roteiro, direção, atuação e montagem, colocadas em prática com competência. Mas existe um aspecto fundamental: esses filmes funcionam como obras cinematográficas independentes de sua origem.
Você nunca precisou ter lido uma história em quadrinhos do Batman para acompanhar Batman Begins, O Cavaleiro das Trevas ou O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Tampouco precisava conhecer a trajetória do Coringa para compreender o filme de 2019, protagonizado por Joaquin Phoenix.
São filmes que apresentam seus personagens, estabelecem as regras de seus universos e constroem conflitos compreensíveis. O espectador não precisa conhecer décadas de publicações nem aceitar que determinada situação funciona simplesmente porque, nos quadrinhos, sempre funcionou assim.
Esses filmes se sustentam por conta própria. E é justamente aí que chegamos a Cara de Barro, produção de terror da DC dirigida por James Watkins, com roteiro de Mike Flanagan e Hossein Amini e protagonizada por Tom Rhys Harries, no papel de Matt Hagen, o ator que se transforma no vilão Clayface. A proposta inicial é interessante. O problema é o que acontece quando o roteiro deixa de confiar nela.
Uma premissa que funciona – até deixar de funcionar
Matt Hagen é um ator em ascensão cuja carreira depende diretamente de sua aparência. Depois de se envolver com Mia Torrez, interpretada por Joana Ribeiro, ele acaba na mira do criminoso Markos Szabo, vivido por David Dencik. A agressão brutal que sofre deixa seu rosto desfigurado e compromete seu futuro profissional.
Sem encontrar uma saída convencional, Hagen se submete a um tratamento experimental conduzido pela cientista Caitlyn Corr, interpretada por Naomi Ackie. O procedimento promete regenerar tecidos e devolver ao ator a aparência que perdeu, mas produz consequências que ele não consegue controlar.
É uma boa premissa para um filme de terror corporal.
Um homem que construiu sua identidade profissional em torno da própria aparência perde o rosto e, com ele, a possibilidade de continuar vivendo como antes. Desesperado, aceita uma solução extraordinária. A partir daí, o filme poderia explorar as consequências físicas e psicológicas dessa transformação: até que ponto nossa identidade depende do corpo? O que acontece quando uma solução milagrosa se transforma numa ameaça?
Existe bastante material dramático aí.
O problema de Cara de Barro é que ele começa a acrescentar novas possibilidades à premissa original sem estabelecer uma ligação convincente entre elas. O que era uma história sobre regeneração celular se transforma numa fantasia cada vez mais ampla, até que o roteiro parece disposto a aceitar praticamente qualquer coisa.
Essa é uma deficiência recorrente no cinema contemporâneo de fantasia, terror e ficção científica: a multiplicação de premissas extraordinárias.
Uma premissa fantástica já é suficiente
Toda história de fantasia ou ficção científica exige algum grau de aceitação do espectador. O filme nos pede que acreditemos em algo que não corresponde à realidade conhecida. Não há problema nisso. A questão é o que acontece depois.
Uma premissa fantástica funciona quando suas consequências são desenvolvidas com rigor. O espectador aceita a hipótese inicial e acompanha os acontecimentos dentro das regras estabelecidas.
Mas, se cada obstáculo exige uma nova capacidade, uma nova exceção ou uma explicação improvisada, a experiência muda. Já não estamos acompanhando as consequências de uma ideia, mas uma sucessão de soluções arbitrárias.
Em Cara de Barro, a regeneração dos tecidos já é uma capacidade extraordinária. Ela oferece um ponto de partida para explorar o horror corporal, a perda de identidade e a obsessão do protagonista em recuperar a vida que tinha.
Só que o roteiro amplia progressivamente as habilidades de Hagen, até que a tecnologia parece justificar transformações que ultrapassam em muito a premissa inicial.
Isso é particularmente problemático para quem não conhece o personagem dos quadrinhos. O espectador familiarizado com a mitologia da DC pode aceitar certas convenções de antemão. Quem chega ao cinema sem esse conhecimento precisa encontrar as justificativas dentro do próprio filme.
A familiaridade com os quadrinhos não deveria ser uma condição para que a história funcione.
O cinema não é uma história em quadrinhos em movimento
As histórias em quadrinhos trabalham com desenhos, palavras, enquadramentos e elipses que o leitor interpreta de maneira própria. Sua representação visual é convencional por natureza. Um desenho pode mostrar um rosto se transformando ou um corpo assumindo outra forma, e o leitor aceita aquela imagem dentro das regras estabelecidas pela narrativa.
Isso não torna os quadrinhos uma forma de arte inferior. Significa apenas que são um meio diferente, com recursos e possibilidades próprias.
O cinema, por sua vez, trabalha com corpos, texturas, movimentos, luz, som e duração. Mesmo quando utiliza efeitos digitais ostensivos, precisa estabelecer uma relação entre aquilo que vemos e as regras do universo que está construindo.
Não se trata de exigir realismo de toda obra cinematográfica. Um filme pode ser inteiramente absurdo e funcionar muito bem. O que importa é a coerência entre suas escolhas e a experiência que pretende oferecer.
Em Cara de Barro, o tratamento que deveria regenerar tecidos passa a justificar a capacidade de imitar outras pessoas e reproduzir aparências de maneira cada vez mais ampla. Mas uma coisa não implica automaticamente a outra.
Se a tecnologia regenera tecidos, como permite reproduzir roupas, joias e outros elementos externos? Quais são os limites da transformação? O que exatamente está acontecendo com o corpo do protagonista?
O filme não precisa dar uma aula de biologia. Precisa, porém, estabelecer alguma coerência entre causa e efeito. Caso contrário, a nanotecnologia vira apenas uma palavra usada para justificar qualquer coisa que o roteiro precise.
Uma comparação útil é O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final, de James Cameron. Nesse filme, o T-1000, interpretado por Robert Patrick, é constituído de metal líquido e consegue mudar de forma, reproduzindo a aparência de outras pessoas. Sua capacidade está ligada à natureza do material que o compõe, a chamada liga mimética polimórfica.
É uma hipótese fantástica, mas o filme estabelece uma relação reconhecível entre o material e suas capacidades. As transformações pertencem a uma lógica que o espectador aprende a compreender.
Em Cara de Barro, a passagem da regeneração celular para a imitação aparentemente ilimitada de pessoas e objetos não encontra uma justificativa igualmente convincente.
E, quando tudo se torna possível, as transformações perdem parte de sua força. Depois de algumas demonstrações, o espectador deixa de tentar compreender o que o personagem pode fazer e passa apenas a esperar pela próxima habilidade inventada pelo roteiro.
O recurso que deveria produzir suspense começa a funcionar como uma ferramenta para contornar os obstáculos da própria história.
Um protagonista sem profundidade suficiente
O problema não está apenas nas regras do universo fantástico. Está também na construção de Matt Hagen.
A história deveria ser sobre identidade. Um ator cuja carreira depende da aparência sofre uma transformação física devastadora e tenta recuperar o que perdeu. A pergunta dramática mais interessante seria descobrir quem ele é quando sua imagem deixa de corresponder à pessoa que acreditava ser.
Um ator está acostumado a construir identidades para os outros, assumir personagens e transformar a própria aparência em instrumento profissional. Quando perde o rosto, perde também parte daquilo que lhe permitia existir socialmente.
A regeneração poderia intensificar essa crise. Hagen recupera sua imagem, mas passa a ter capacidades que ameaçam sua identidade e sua relação com a realidade. A transformação física poderia se tornar a manifestação concreta de um conflito psicológico.
Só que o filme não desenvolve essas possibilidades com a profundidade necessária.
Matt Hagen aparece, em grande medida, como um ator jovem e ambicioso que toma uma decisão ruim, sofre consequências brutais e encontra uma oportunidade extraordinária de recuperar a aparência. Há frustração, desespero e ressentimento, mas não sinto que exista uma personalidade suficientemente complexa por baixo desses elementos.
Em determinado momento, o roteiro parece precisar que o protagonista tenha camadas psicológicas que não construiu adequadamente. É como se tentasse cobrar do espectador uma resposta emocional para um conflito que ainda não foi suficientemente estabelecido.
Uma personalidade não se torna complexa simplesmente porque sofre uma transformação grotesca ou adquire poderes extraordinários. O horror corporal pode ser uma ferramenta dramática poderosa, mas o efeito visual não substitui a construção do personagem. Ele vira um truque barato que só quer deixar a audiência horrorizada com sua aparência brutal.
O resultado é uma transformação que se torna cada vez mais impressionante no plano físico, sem adquirir a mesma profundidade no plano dramático.
Uma imagem bonita, mas pouco orgânica
Existe também uma questão visual: a iluminação.
Cara de Barro procura produzir imagens elaboradas, com altas luzes, contrastes e uma aparência ostensivamente cinematográfica. Em vários momentos, o resultado é visualmente atraente. O problema é que a imagem parece excessivamente construída, como se estivesse tentando demonstrar o tempo todo que é uma imagem de cinema.
Observe os rostos dos personagens em relação aos ambientes. Muitas vezes, o cenário recebe uma quantidade expressiva de luz e informação visual, enquanto os rostos parecem perder presença em meio à composição. A iluminação chama atenção para a aparência geral da imagem, mas nem sempre contribui para que os personagens ocupem o centro dramático da cena.
É a diferença entre produzir uma imagem bonita e produzir uma imagem que faça sentido dentro da situação filmada.
Uma fotografia cinematográfica não precisa imitar a luz natural, e a estilização pode ser perfeitamente adequada a um filme de terror. O problema surge quando a imagem parece obedecer mais a um preset visual do que às necessidades específicas da cena.
Temos a impressão de uma fórmula de aparência cinematográfica: contraste, altas luzes, texturas e uma paleta cuidadosamente organizada. Tudo parece querer transmitir sofisticação, mas a composição nem sempre é orgânica.
O resultado pode ser bonito e, ao mesmo tempo, insípido.
Não considero esse o principal defeito do filme. A questão central continua sendo o roteiro. Mas a fotografia reforça uma impressão semelhante: a de que a produção está mais preocupada em apresentar os sinais externos de uma experiência cinematográfica sofisticada do que em fazer cada escolha nascer das necessidades dramáticas da história.
Por que Batman e Coringa funcionam melhor?
Voltemos à pergunta inicial. O que diferencia a trilogia de Christopher Nolan e Coringa, de Todd Phillips, de tantas adaptações que dependem excessivamente da lógica dos quadrinhos?
Em primeiro lugar, esses filmes estabelecem universos dramáticos que o espectador consegue compreender sem conhecimento prévio. Em segundo, desenvolvem personagens a partir de conflitos reconhecíveis. Finalmente, respeitam as consequências das premissas que apresentam.
A trilogia de Nolan transforma Gotham numa cidade marcada pela corrupção, pela violência e pela fragilidade das instituições. Bruce Wayne, interpretado por Christian Bale, não precisa de superpoderes para se tornar uma figura extraordinária. Seus recursos, sua preparação física e sua identidade secreta são elementos fantásticos, mas o filme constrói relações compreensíveis entre suas capacidades e os problemas que enfrenta.
Já Coringa, de 2019, concentra-se na experiência de Arthur Fleck. Joaquin Phoenix interpreta um homem marginalizado, submetido a humilhações e progressivamente afastado das estruturas sociais que poderiam ajudá-lo. Sua transformação não depende de poderes extraordinários ou de uma mitologia que o espectador precise conhecer.
O universo do filme é reconhecível. Mesmo quando a narrativa apresenta situações perturbadoras, mantém uma relação com o mundo social que estabeleceu.
Isso não significa que esses filmes sejam realistas em todos os detalhes ou estejam livres de problemas. Significa que suas premissas são suficientes para sustentar os conflitos que desenvolvem. Eles não precisam inventar novas capacidades fantásticas sempre que chegam a um impasse.
É justamente essa disciplina dramática que falta a Cara de Barro. O filme começa com uma hipótese interessante, mas amplia suas possibilidades até que a premissa original perca parte da força.
O cinema pede mais
Cara de Barro não é necessariamente um filme sem qualidades. Sua premissa inicial é interessante, a transformação de Matt Hagen oferece oportunidades para o horror corporal e a produção pode agradar a quem procura uma interpretação mais fantástica de um personagem conhecido da DC.
Mas isso não elimina o problema central. O roteiro não desenvolve suficientemente a personalidade do protagonista e amplia as capacidades do personagem para além daquilo que a hipótese inicial consegue sustentar.
O resultado é uma história que começa com uma ideia promissora e acaba dependendo de convenções que funcionam melhor quando o espectador já aceita as regras particulares dos quadrinhos.
E vale repetir: um filme não é uma história em quadrinhos. Não porque o cinema seja superior, mas porque são meios diferentes. Uma solução que funciona numa página desenhada não será automaticamente eficaz quando convertida em imagens em movimento, com atores, luz, textura, som e duração.
Adaptar não é simplesmente reproduzir personagens e poderes. É compreender o que esses elementos podem fazer dentro da linguagem do cinema.
A trilogia de Batman e Coringa demonstram que é possível partir de personagens dos quadrinhos e construir filmes que funcionem para qualquer espectador, mesmo para quem nunca leu uma revista do gênero. Não dependem da familiaridade do público com a mitologia: constroem seus conflitos e estabelecem suas próprias regras.
Cara de Barro poderia ter concentrado sua história num homem que perde a própria identidade física e tenta recuperá-la por meio de uma tecnologia experimental. Poderia ter explorado as consequências psicológicas e morais dessa escolha, construindo um filme de terror em torno de uma única hipótese fantástica.
Em vez disso, amplia progressivamente o campo de possibilidades até que a premissa inicial perca sua força.
Talvez o filme divirta parte do público que procura uma aventura fantástica baseada num vilão conhecido da DC. Mas acrescenta pouco ao conjunto de adaptações de quadrinhos que chegam ao cinema todos os anos.
Hollywood não precisa abandonar a fantasia nem deixar de adaptar histórias em quadrinhos. Precisa apenas reconhecer que personagens conhecidos e referências acumuladas não substituem a construção de um bom filme.
Não é uma tarefa fácil. Mas Hollywood poderia, pelo menos, tentar com mais frequência.
Porque, no fim das contas, não basta colocar um personagem dos quadrinhos na tela. É preciso fazer cinema. E isso não é para qualquer um.

Cineasta, roteirista e colaborador esporádico de publicações na área, diretor do documentário “O Diário de Lidwina” (disponível no Amazon Prime e ClaroTV), entre outros.
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